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Mais do que um gênero musical, o estilo transforma a vida das pessoas marginalizadas socialmente

Texto / Lucas Veloso e Nataly Simões | Edição / Simone Freire | Imagem / Batekoo

É rotina. Todo domingo, por volta das 21h, uma multidão de jovens se concentra em alguns pontos da zona leste de São Paulo (SP). Acompanhados de amigos e com copos cheios de bebidas, o destino é algum baile funk que acontece na região. Em Guaianases, por exemplo, são pelo menos três festas a cada fim de semana.

Os “pancadões” ou “fluxos”, como são conhecidos, são espaços onde carros com caixas de som potentes tocam funk enquanto os jovens se reúnem. Diversos funkeiros ganharam visibilidade após suas músicas se propagarem por meio dos fluxos, que ocorrem semanalmente nas periferias de São Paulo, com a presença de milhares de pessoas. O baile da DZ7, em Paraisópolis, segunda maior favela da cidade, por exemplo, chega a reunir 30 mil pessoas.

Dançarina desde os 14 anos, Barbara Querino, de 21, mais conhecida como Babiy, é uma das defensoras do estilo musical que movimenta milhares de jovens brasileiros.

“Desde que me conheço por gente, o funk sempre esteve presente na minha vida. Minha carreira como dançarina foi impulsionada por ele”, relembra. “Atualmente, o funk ainda se mantém muito presente em minha vida. O ritmo é contagiante e a vontade de dançar não pode ser contida”.

Para ela, o funk é a voz da periferia, pois dá a possibilidade a quem é marginalizado socialmente de mostrar, por meio das letras, outras realidades. “Na verdade, somos injustamente e brutalmente roubados e mortos diariamente”, define.

Nascida e criada no Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo, a dançarina e coreógrafa Renata Prado, de 29 anos, também possui uma relação muito próxima com o estilo. Pedagoga de formação, ela pesquisa a história e a cultura do funk no Brasil e é diretora da Frente Nacional de Mulheres do Funk.

Renata lembra que quando o estilo se popularizou na cidade, na primeira década dos anos 2000, todas as periferias passaram a ter o fluxo de rua. Na época de sua adolescência, as festas eram a única alternativa cultural presente no seu bairro.

“Desde minha adolescência, eu tenho o contato com o ritmo porque o funk se tornou uma cultura orgânica da periferia”, conta. “É ali, onde os jovens buscam refúgio no dia a dia e também como base de cultura e lazer independente”.

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Envolvida com a cultura do funk desde a adolescência, Renata Prado é diretora da Frente Nacional de Mulheres do Funk. (Foto: Acervo pessoal)

Relação das mulheres com o funk

Uma das críticas frequentes de quem desconhece a cultura do funk é de que o estilo é machista e coloca as mulheres em posição de inferioridade e submissão aos homens.

Para Babiy Querino, o funk possibilitou que as mulheres “virassem o jogo radicalmente” e mostrassem que o estilo pode ser uma forma de empoderamento feminino. “Isso graças as cantoras que com suas músicas reivindicaram seus lugares como mulher e funkeira na sociedade”, completa.

A exemplo da MC Carol, que em uma de suas letras diz: “forte, autoritária e, às vezes, frágil, eu assumo. Minha fragilidade não diminui minha força. (...) Sou mulher independente, não aceito opressão. Abaixa sua voz, abaixa sua mão”.

Segundo Renata Prado, o sentimento de pertencimento à cultura do funk eleva a autoestima e o bem estar com o próprio corpo. “As mulheres passam a compreender que podem usar as roupas que quiserem sem serem desrespeitadas por isso. Através do funk, as mulheres promovem e entendem a liberdade de ser quem elas quiserem ser”, afirma.

No caso da dança, Renata reitera que o estilo altera o modo com que as pessoas enxergam as mulheres, em uma sociedade que discrimina as mulheres que rebolam. “O que a gente faz é parte da cultura do funk. Isso precisa ser respeitado”, salienta.

A construção da autoestima por meio do funk também está no desenvolvimento de habilidades artísticas como dançar, ser DJ ou MC. Babiy Querino compartilha que o funk a faz expressar seus sonhos mais íntimos, como o de um mundo melhor e uma vida digna.

Segundo a dançarina, durante muito tempo a sociedade “elitista e branca”, como chama, dizia para o resto do mundo que o funk não prestava e que quem o dançava não merecia respeito. As letras de funk expressam suas vontades, dores, abusos e sonhos.

“Muitas mulheres como eu tiveram suas vidas modificadas pelo funk e passaram a ser autoras de seus gostos sem pensar no que machistas pensariam sobre”, pontua.

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O funk abriu portas para Babiy Querino na carreira como dançarina. (Foto: Acervo Pessoal)

Luto no funk

Dezembro começou marcado pela morte de nove jovens durante uma ação da Polícia Militar no “baile DZ7”, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. De acordo com vizinhos e frequentadores do baile funk, as pessoas que estavam no local foram encurraladas e agredidas por policiais militares em duas vielas da periferia, a Três Corações e a Viela do Louro.

Vídeos divulgados nas redes sociais e contestados pela Polícia Militar mostram as agressões dos PMs enquanto tentavam dispersar a multidão. Segundo a corporação, um dos vídeos que mostra um policial batendo com um objeto em moradores é de 19 de outubro e não de 1º de dezembro, no entanto, o agente foi afastado. Outro vídeo em que PMs também aparecem agredindo pessoas, a corporação disse, sem citar data, que é de um incidente em Heliópolis, comunidade também da zona sul da cidade.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, afirmou que “aparentemente”, houve um “erro operacional grave” da Polícia Militar. O governador paulista João Doria (PSDB), por sua vez, afirmou “lamentar profundamente as mortes”, mas que “a forma como as ações da polícia acontecem nos ditos pancadões não vai mudar”.

Com a justificativa de som alto durante a madrugada e a prática de venda de drogas e apologia ao crime, operações policiais tentam impedir a realização de eventos nas periferias paulistas. Por outro lado, moradores e frequentadores dos bailes reclamam do uso excesso de violência militar, que acaba vitimando inocentes.

De acordo com um levantamento da Polícia Militar a pedido do portal G1, de 1º de janeiro até 1º de dezembro deste ano foram realizadas 7,5 mil “Operações Pancadão” em todo o estado. Neste período aconteceram 874 prisões, 76 apreensões de adolescentes, apreensão de 1,8 tonelada de drogas e de 77 armas.

Na capital, o efetivo policial fez 4.257 operações anti pancadões. Foram presas 541 pessoas, 43 armas apreendidas, localizados 7 mil veículos com problemas na documentação e identificados 352 carros e motos furtados. Questionada pelo G1, a PM não respondeu quantos civis e policiais foram mortos ou feridos durante as operações.

‘Baile funk é pauta de cultura e não de segurança pública’

Em frente à Secretaria da Segurança Pública (SSP), no centro de São Paulo, cerca de 600 pessoas se reuniram no dia 4 de dezembro contra o que classificaram como um “massacre”.

Os manifestantes denunciam que a ação policial em Paraisópolis não se trata de um caso isolado, mas uma política de segurança pública que tem matado e ferido jovens em repressão a festas nas periferias.

Renata Prado, diretora da Frente Nacional de Mulheres do Funk, lembra que a repressão policial é comum nos bailes funk. “Quem vai para os bailes de rua sabe que isso sempre aconteceu, só que dessa vez houve uma morte massificada”, comentou.

Para ela, baile funk é uma pauta que deveria ser tratada pela Secretaria da Cultura e não pela Secretaria da Segurança Pública. “Baile funk não precisa de segurança pública, precisa de organização da pasta de cultura”, avalia.

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Manifestação é encerrada com velas aos pés da escadaria da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) e um minuto de silêncio em memória das nove vítimas fatais. (Foto: Solon Neto/Alma Preta)

Funk no mundo

Um levantamento divulgado em maio pela plataforma de streaming Spotify aponta que entre as 50 canções mais executadas na plataforma, 14 pertencem ao funk. O consumo do gênero no exterior cresceu mais de 3.000% de 2016 e 2018, principalmente nos Estados Unidos, Reino Unido e Portugal, e nos vizinhos Argentina e Paraguai.

Um exemplo do crescimento do estilo no mundo é Leandro Aparecido Ferreira, o MC Fioti. O funkeiro bateu em outubro a marca de mais de 1 bilhão de pessoas, em todo o mundo, que já tinham visto o vídeo que ele gravou em São Paulo com a música “Bum Bum Tam Tam”, inspirada em uma partitura de flauta assinada por Johann Sebastian Bach.

Na avaliação de Renata Prado, a visibilidade internacional do funk é importante para que os brasileiros entendam que “se o estilo é reconhecido no mundo como cultura e música latina, por quê o poder público e a sociedade brasileira insistem em criminalizar um movimento orgânico e legítimo?”.

Renata conclui que hoje é comum a percepção de que o ritmo é reconhecido internacionalmente, mas anos atrás já existiam artistas que faziam a ponte do ritmo entre o Brasil e outros países, como Tati Quebra Barraco, a primeira mulher funkeira a viajar para o exterior pela sua música.

“Tantas outras pessoas também já viajaram para levar o funk para o mundo. Temos visto isso especialmente com a nova escola, como as cantoras Ludmilla e MC Rebeca”.

Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização dos coletivos Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola E Não Me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento, TV Grajaú - SP, DiCampana Foto Coletivo e Nós, mulheres da periferia, com patrocínio da Fundação Tide Setubal.

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