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Neste ano, a programação artística e cultural, foi pensada a partir da trajetória do evento e do foco em unir experiência, design e conexão

Texto / Lucas Veloso | Edição / Simone Freire | Imagem / Lucas Veloso/Alma Preta

“Não vai faltar comida africana para quem vier aqui”. É o que garante a chef gastronômica Ana Rita da Encarnação, criadora da Ojó Baiano. Ela é uma das dezenas de expositores da Feira Preta, o maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina. Em 2019, a atividade celebra 18 anos de existência neste fim de semana, 7 e 8 de dezembro, no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP).

Ana se apresenta como pesquisadora da comida baiana e africana. “Sou militante do movimento negro e tenho essa relação com África, além disso, sou adepta de religião de matriz africana”, explica. Ela acredita que os brasileiros ainda não conhecem a culinária africana, apesar da influência do continente na cultura brasileira.

“Eu quero oferecer uma oportunidade para quem não conhece o bolinho do estudante, a cocada preta, a pamonha de carinhanha ou o cuscuz”, exemplifica ela, que nos dois dias vai oferecer xinxim de galinha em seu espaço.

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Ana Rita da Encarnação, e Dandara, sua filha, participam da 18ª edição da Feira Preta. Foto: Lucas Veloso / AlmaPreta.

O prato é feito de galinha refogada com camarão, além de outros ingredientes, como óleo de dendê, camarão, castanha de caju, amendoim. Depois de misturados, a comida é refogada e fica pronta depois de duas horas. “Como todo prato africano, você não pode ver o ingrediente, porque ele tem que ficar misturado. Só pode sentir o gosto”, ressalta Ana.

Nesta edição, a culinária ganhou mais destaque na Feira. São dois centros gastronômicos, com dezenas de opções, entre pratos quentes e frios.

Da periferia da Zona Leste de São Paulo, a confeiteira Thais de Melo Alves também integra a relação dos gastrônomos da Feira. Para criar a Qumbe, ela fez uma pesquisa sobre as origens dos doces brasileiros que, para ela, são muitos parecidos com os africanos, sobretudo de países como Gana, Angola e Congo.

“Estou trazendo pra cá as nossas raízes. Quando esses doces vieram pra cá, foram modificados, como o ‘koekisters’, que lembra o bolinho de chuva, mas depois que frita, a gente emerge numa calda de canela, gengibre, canela e açúcar”, comenta.

A secretária Paula Andrade e o músico Alan Almeida experimentaram alguns pratos no local. Para eles, faltam espaços onde a culinária negra ganhe destaque, como acontece no evento. “Eu nunca tinha visto tantas opções juntas. Acredito que um dos potenciais do evento é mostrar pra nós, os negros, como nossa ancestralidade vai além da beleza e das vestimentas”, define Paula.

A feira

Entre as atrações musicais, a cantora Larissa Luz, Linn da Quebrada, Drik Barbosa, Danna Lisboa, Senzala Hi-Tech e o Samba da Laje foram os responsáveis pela trilha sonora do dia.

A primeira mesa deste sábado tratou sobre empreendedorismo periférico com Andreza Delgado, da Perifacon, Bruno Ramos, da entidade Favela no Poder, Raquel Motta, da Sue the Real e o artista multimídia, Toni Baptiste. A mediação ficou a cargo da criadora da Feira Preta, Adriana Barbosa.

18 anos

Neste ano, a programação do evento foi construída com base na trajetória da Feira, pensada para unir experiência, design e conexão. Com o tema “Passado, Presente e Futuro”, a edição se propôs a responder de onde vieram, onde estão e para onde vão a arte, a cultura e o empreendedorismo das pessoas negras.

No Memorial, a Feira está dividida em espaços temáticos – o Afroempreendedores, Preta Inova, Preta Fala, Preta Degusta, Erê (Infantil) e Saúde e Bem Estar e – que unem conteúdos sobre diferentes temas que atravessam diferentes áreas de atuação, da militância ao entretenimento, além do mundo dos negócios e oportunidades de trabalho.

A Feira Preta nasceu em 2002, criada por Adriana Barbosa, como uma feira de produtos de empreendedores afro brasileiros. Ao longo dos anos, cresceu e se tornou uma plataforma de criação de projetos para valorização da cultura negra no país. Hoje, é considerada referência de empreendedorismo social.

A primeira edição do evento reuniu 40 expositores e um público de 5 mil pessoas na Zona Oeste de São Paulo. Na edição de 2017, a feira reuniu um público de 20 mil pessoas. No ano passado, o público superou de 50 mil. A edição deste ano conta com mais de 100 expositores.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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