Último encontro exibiu “Cara Gente Branca” e no próximo ocorrerá a transmissão de Pantera Negra em uma escola municipal do bairro de São Rafael

Texto / Beatriz Mazzei
Imagem / Marcos Campos

Organizado por jovens de Guarulhos, o coletivo Cinepreto roda a cidade para exibir filmes protagonizados ou dirigidos por pessoas negras. Com o intuito de gerar conhecimento, reflexão e debate, além da transmissão dos filmes que promovem a representatividade negra, os encontros são marcados pelo diálogo, partilha de ideias e experiências.

Desde sua fundação em 2017, o Cinepreto tem funcionado a partir dos esforços e recursos de seus colaboradores. “Aqui é nois por nois”, conta Vanessa Thaís (33), uma das organizadoras. Por conta disso, o grupo começa a se organizar para a venda de camisetas e rifas que ajudarão a custear um projetor e novos equipamentos.

Como um projeto itinerante, a intenção do Cinepreto é alcançar diversos bairros de Guarulhos, principalmente os periféricos, e dialogar com o público infantil. “A ideia é descentralizar, chegar a outros lugares”, explica Vanessa, que é completada por Elizabeth Massarelli (21): "a gente que é preto e preta tem que ser três, quatro vezes mais pra alcançar. É delicado o despertar do audiovisual produzido e protagonizado por nós, mas aos poucos está acontecendo”, acrescenta a organizadora.

Cinepreto Corpo 2

Participantes da atividade do Cinepreto (Foto: Marcos Campos)

Passando por diferentes pontos da cidade, o Cinepreto já exibiu Moonlight, vencedor do Oscar 2017 como Melhor Filme e Corra!, vencedor do Oscar 2018 na categoria Melhor Roteiro Original. No último evento foi transmitido “Cara Gente Branca”, filme que inspirou a série homônima de grande repercussão no Netflix. Alguns dos filmes que estão na lista dos próximos encontros são: Pantera Negra, Ela Quer Tudo, Preciosa e Libertem Angela Davis. Para a escolha das produções é possível sugerir filmes no grupo do Cinepreto no facebook.

No dia da exibição de Cara Gente Branca, que ocorreu no Teatro Padre Bento (GRU), o grupo se reuniu para bater um papo sobre colorismo, a dificuldade que certas pessoas têm em se autodeclararem negras e experiências pessoais com o racismo, criando um espaço para aprender, dividir e ensinar. “A gente precisa se amar, uns aos outros, e se armar. Se armar no sentido de aprender a reagir para não se desgastar”, fala Elizabeth.
Fundação do Cinepreto

O Cine preto nasceu como forma de reação. Após a divulgação de uma peça de teatro que usava o Black Face e expressões racistas em seu roteiro, o grupo de jovens viu a necessidade de criar alguma intervenção cultural que trouxesse o protagonismo negro para a cidade.

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Um dos objetivos do Cinepreto é atuar nas diferentes regiões periféricas de Guarulhos-SP (Foto: Marcos Campos) 

A peça em questão é uma releitura da peça “Os Ciúmes de um Pedestre” ou “O Terrível Capitão do Mato” (1846) de Martins Pena. No enredo da peça, um homem branco se pinta e se veste de negro para tentar se passar por escravo. Nesse processo, a caracterização adquire as nuances cômicas do Black Face, com a representação exagerada que ridiculariza e reforça os estereótipos. Pela data da obra e seu contexto histórico, é compreensível a naturalização do ideário racista (como ocorre em diversas outras obras enaltecidas pela literatura brasileira).

O Cinepreto, porém, levanta um questionamento que está sendo bastante discutido, inclusive por intelectuais da área da educação: por que continuar cultuando peças, livros e filmes de cunho racista, principalmente dentro das escolas, quando existem uma infinidade de outras obras essenciais para o entendimento do Brasil que não contemplam estratégias de ridicularização da pessoa negra? Por que não demonstrar que o preto também pode ser protagonista?

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