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Programa financiou a produção de obras feitas nas casas dos profissionais independentes

Texto: Guilherme Soares Dias e Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

O projeto Curta em Casa, do Instituto Criar, e o Projeto Paradiso, realizaram diversos curta-metragens durante o período de isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, o novo coronavírus. As iniciativas foram financiadas pela SPcine, agência pública de audiovisual e cinema da cidade de São Paulo.

Entre os trabalhos selecionados para receber a verba de R$ 3 mil, muitos criadores negros se destacaram com projetos de ficção, documentário e poesia a partir de perspectivas pessoais sobre a pandemia. A cineasta Thatiane Almeida, dirige e atua no curta “O novo normal”, sobre o impacto psicológico do isolamento social.

No filme, a personagem Jussara vive sozinha em seu apartamento “num futuro distópico onde há um misterioso vírus e o governo não permite que as pessoas saiam de casa”. A produção mostra que “depois de um dia cheio de acontecimentos estranhos, Jussara acorda numa realidade mais perturbadora ainda”.

Thatiane avalia que o filme abre espaço para reflexões mais amplas. “Vi muitas pessoas falando que a janela virou a televisão. Elas acordavam e permaneciam com a mesma roupa. Vamos refletindo sobre o vigiar e punir quem descumpre esse cotidiano cansativo com dias que demoram para passar”, conta, emendando que as pessoas negras não têm espaço para falar de saúde mental.

O ator e cineasta Andrio Candido fez o curta “Germinar” para o edital do Curta em Casa, que, com 200 vagas, teve regras mais fáceis de acesso. “Conseguir se formar em cinema no Brasil é um desafio social e étnico. Os detentores dos meios de produção e da indústria são de uma elite conservadora, rica e branca. Um grupo fechado em copas que têm acesso aos recursos para fazer cinema. Além disso, as leis de incentivo do audiovisual são excludentes, burocráticas e não levam em conta a grande parcela de criativos da população”, considera.

Candido cita alguns dos entraves que os criadores negros encontram na busca por espaço. “Em alguns casos, você precisa ter uma produtora que existe há dois anos, para poder se inscrever e concorrer com os mais graduados e pontuados. É heróico conseguir realizar curta-metragem. A solução é ir se aquilombando com os seus para derrubar os custos de produção”, explica.

Segundo o ator e cineasta, o curta produzido por ele durante a pandemia é uma visão leve e poética para um momento de esperança. “É o que eu busco dentro de mim, embora o ambiente seja adverso a gente precisa germinar”, descreve.

Os dez trabalhos mais votados pelo júri popular serão exibidos em uma sessão especial do 31º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, o Curta Kinoforum.

A dramaturga e roteirista Maria Shu fez o curta “Sobre Alices”, também pelo programa Curta em Casa. O filme traz a história de duas irmãs confinadas no isolamento e que simbolizam a parte mais baixa da pirâmide social. “O objetivo dessas mulheres é sair desse isolamento e chegar ao topo, mas neste topo só há lugar para uma mulher negra junto da figura que as vigia, que é um coelho branco”, detalha.

Nesse contexto, as personagens começam a rivalizar até entenderem que precisam de ajudar e ter sororidade para chegarem ao topo. “A intenção foi trazer o protagonismo negro e discutir a questão do negro único nos espaços, ressaltando que rivalidade não é o caminho para as mulheres negras”, pontua.

Além de participar do festival, um dos criadores ainda receberá um prêmio especial do Projeto Paradiso de R$ 10 mil, a serem usados em formação ou consultoria para desenvolver seu curta, além de passar a integrar a Rede de Talentos Paradiso.

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