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João Victor Pessanha emplacou o 6º lugar no Mestrado de Cinema da Universidade Federal Fluminense; também músico, ele conta que sonha em tomar um café com o rapper ou acompanhar uma sessão de estúdio dele

Texto: Redação | Edição: Nataly Simões | Imagem: Acervo Pessoal

“Pra trabalhar nesse emprego de rapper você tem que ser mal”, diz Emicida para a filha, em tom de brincadeira, na introdução da música “Cananéia, Iguape e Ilha Comprida”, do álbum - indicado ao Grammy Latino - “AmarElo”. Depois da brincadeira com o estereótipo de maldade atribuído aos rappers e aos homens negros, por consequência, a música desconstrói qualquer conotação (ou denotação) negativa do que é ser preto e ser um rapper: ele apresenta o afeto - de modo poético e explícito - como solução para os problemas de um mundo em decomposição.

Essa é a avaliação do cineasta, músico e publicitário João Victor Pessanha, de 28 anos, cotista pelo ProUni (Programa Universidade Para Todos), que emplacou o 6º lugar na classificação geral no ingresso ao Mestrado de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ele foi o único a tirar nota máxima (10) na defesa do projeto intitulado “Pro mundo em decomposição, escrevo como quem manda cartas de amor - O afeto, e sua função, na narrativa audiovisual do rapper Emicida”.

Durante dois anos de pesquisa, João se divide entre a elaboração de uma dissertação - que virará livro - e um documentário sobre o impacto benéfico da exposição do afeto na obra do artista e uma possível utilização do aparato audiovisual produzido por ela, via Laboratório Fantasma, numa estratégia pedagógica para uma mais eficiente capacitação das crianças e jovens negros das periferias do país.

Assim como Leandro (Emicida), João cresceu sem a presença do pai. Criado pela mãe e a avó na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, ele viu na obra do rapper o “elo” necessário para se pensar formas de masculinidades saudáveis e como sua arte pode dar suporte aos milhões de crianças pretas e periféricas que também crescem sem estrutura familiar ou afetiva.

João conta que o insight surgiu depois de ler um comentário no clipe de “Quem tem um amigo (tem tudo)”. Nele, um fã comenta que sentia que Emicida dava, através de suas músicas, conselhos de um pai que ele nunca teve, sentimento este, compartilhado com o autor do projeto. A ideia também foi mostrar como o fato de o rapper controlar a produção da sua obra (junto com seu irmão Evandro Fióti) interfere na liberdade com a qual ele aborda os temas que tocam em feridas estruturais da sociedade.

O mestrando vê a obra de Emicida como um remédio somado à terapia que buscou fazer para conseguir lidar com um trauma causado por uma situação de assédio moral, com teor racista, segundo ele, em um de seus últimos empregos. “Ser humilhado por algo que eu não tinha cometido na frente de outros colegas de trabalho me fez desacreditar de mim como pessoa, como profissional e como artista. Foram as músicas do Emicida e o projeto que me reergueram. Ser aprovado, com unanimidade, me devolveu a vontade de viver, de lutar contra o racismo estrutural e de levar conhecimento de volta para a comunidade onde eu nasci", afirma.

João acredita que Emicida precisa ser visto e estudado como o sociólogo, historiador, comunicólogo, poeta, escritor, roteirista, desenhista e musicista que ele é. Desempregado, o futuro mestre em Cinema também está por trás da criação de um selo musical para impulsionar artistas pretos e o lançamento de suas próprias composições musicais, com o pseudônimo de rapper Outro Nível - um apelido de escola.

Ele conta ainda que sonha em poder tomar um café com Emicida ou acompanhar uma sessão de estúdio do rapper. “Eu não tenho religião, pois acredito em todas. Mas se me perguntassem como eu enxergo Jesus, eu poderia - tranquilamente - mostrar uma foto do Emicida. Nas músicas dele, está a solução de boa parte dos - senão todos - problemas sociais que enfrentamos no Brasil, desde sempre”, conclui João Victor.

Texto atualizado às 20h12 de 20 de outubro de 2020 para correção de informações. João Victor teve o projeto de pesquisa aprovado para o ingresso ao mestrado. A dissertação deve ser defendida em 2022. 

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