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Segundo monitoramento, os casos confirmados pularam de 970 para 2.590 em pouco dias; aumento dos testes por pressão das comunidades é uma das explicações

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Cristino Martins/Agência Pará

Nos primeiros dias de julho, o número de casos de Covid-19, o novo coronavírus, nas comunidades remanescentes de quilombo mais do que dobrou. No dia 30 de junho eram 973 casos confirmados e, nesta sexta-feira (10), já são 2.590 infectados confirmados. Os dados na plataforma online Quilombosemcovid19.org foram atualizados em 6 de julho, ou seja, a expectativa é de que os números sejam ainda maiores e consequentemente mais alarmantes.

Segundo Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), ainda há 197 casos monitorados e 127 mortos em decorrência das complicações da doença.

Vários fatores influenciaram o atual cenário, segundo Magno Nascimento, da Coordenação das Associações das Comunidades Quilombolas do Estado do Pará - Malungu. “Houve mesmo um aumento de forma exponencial nas comunidades. Mas também, a pressão que as comunidades fizeram resultou na realização de algumas ações por parte das prefeituras e dos estados, como os testes. Se nós fizermos testes em maior quantidade de pessoas, veremos que esses números aumentarão”, analisa. Nascimento enfatiza que os testes resultaram da pressão dos quilombolas, pois desconhece qualquer ação ou plano de contingência especifico para o atendimento dessa população. 

Na comunidade onde vive, a África, no município de Moju, região nordeste paraense, houve a confirmação de seis infectados e duas mortes. “Só eles fizeram o teste, mas quase que a comunidade inteira apresentou os sintomas”, afirma Nascimento, informando que pouco mais de 300 pessoas vivem no local.

Outro fator de influência é o deslocamento da pandemia dos grandes centros urbanos para as cidades menores. “A chegada da pandemia nas áreas de quilombo é um contexto que amplia esse número de forma muito naturalizada porque natural não poder ser. Há ainda a infraestrutura inexistente ou deficiente nesses locais, pois política pública é pensada para cidade. O banco, a lotérica, o hospital, fica tudo na cidade. A área rural padece muito. Uma doença como essa acomete a todo mundo, só que essas pessoas têm maior dificuldade porque estão muito isoladas do serviço de atendimento à saúde”, fala Nascimento.

Um monitoramento dos casos de Covid-19, realizado a partir da parceria entre a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), por meio do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Sociedades Amazônicas, Cultura e Ambiente (Sacaca), e a Malungu, mostra que no estado paraense há 1.356 casos confirmados, 971 casos sem assistência médica, 649 casos suspeitos em tratamento médico, 631 recuperados, quatro hospitalizados, 36 óbitos e um óbito suspeito em investigação.

Entre os dias 8 e 9, as instituições receberam a informação de 307 casos confirmados nas 11 comunidades de um só território quilombola. “Embora isso não signifique que todos os casos foram identificados hoje, os dados mostram a importância dos testes. Quando os testes são feitos, vemos melhor a situação que enfrentamos, com um número de doentes muito maior do que podemos imaginar. Por isso, continuaremos cobrando do poder público a aplicação de mais testes e recomendando às nossas comunidades que se protejam. Essa doença não é só uma gripe ou virose simples. Se tiverem sintomas, busquem atendimento e cobrem o teste. Se tiverem dificuldades, avisem a Malungu, pois estamos lutando para melhorar esse cenário”, traz o boletim epidemiológico.

No Brasil inteiro, o monitoramento realizado pela Conaq dá conta de que 127 quilombolas morreram vítimas do novo coronavírus. Há 2.590 casos confirmados, 576 em monitoramento e quatro óbitos com suspeita. O Rio de Janeiro é o que mais acumula óbitos, com 36. Seguido do Pará, com 35, e Amapá, com 16.

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