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Grupo baiano faz espetáculos em que ressalta a expressão negra nas artes cênicas; entre os atores que passaram pelo bando estão Lázaro Ramos, Jorge Washington, Érico Brás, Leno Sacramento e Sérgio Laurentino

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

O Bando de Teatro Olodum completa 30 anos encenando a negritude nos palcos e formando atores conscientes de sua história. O grupo ressalta nas redes sociais que são três décadas ininterruptas defendendo um projeto de expressão negra coletiva nas artes cênicas. O Bando abre caminhos e faz história a cada montagem, filme e participação na TV.

O ator Lázaro Ramos, que se formou no bando e atuou desde os 15 anos, lembra que é um dos grupos de teatro com maior longevidade na América Latina. “Foi esse grupo que me falou o que era teatro quando estava tentando entender quem eu era. Eu encontrei caminho, os primeiros artistas que vi e pensei quero ser igual”, afirma o global, em vídeo publicado nas redes sociais do grupo.

Ramos convida todos a aplaudir o grupo que está na Bahia e manda mensagens para o mundo sobre identidade, luta contra o racismo e pelo direito de fazer arte engajada e transformadora. “Tenho certeza que quem assistiu um espetáculo saiu transformado. Eu, a cada vez, que faço algo ou falo com eles me transformo”, ressalta.

São mais de 40 espetáculos, entre os mais conhecidos estão Cabaré da Raça, Áfricas, Erê e Ó, pai, Ó. Há hoje quatro pessoas que fazem parte de um colegiado que representa o grupo em reuniões. São eles: Cassia Valle, Fábio de Santana ,Jorge Washington e Valdineia Soriano.  As decisões são feitas de forma coletivas.  Entre os atores que já passaram pelo bando estão nomes consagrados como Jorge Washington, Érico Brás, Leno Sacramento, Sérgio Laurentino, entre outros.

O presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues, afirma que o grupo celebra a arte e a cultura no teatro. “O bando é uma criação de Márcio Meireles e dos atores e atrizes do Bando de Teatro Olodum, com inspiração de Mário Gusmão”, afirma, em vídeo no Facebook.

Rodrigues conta que quando ouviu a primeira vez sobre o bando tentou demover os criadores da ideia. “Mas dormi, acordei e disse que precisávamos formar atores negros e fomos buscar apoio na Suécia para isso”, acrescenta.

Jorge Washigton conta que está no grupo desde sua formação e que tem particularidade de pensar ações a partir da cultura afrobrasileira e temas próximos ao povo negro. "Qualquer espetáculo terá questões raciais postas. O texto 'Sonho de uma noite de verão', por exemplo, trouxe isso, por ter todos os atores negros", contextualiza.

Washington lembra que o grupo foi convidado para encenar Shakespeare na cidade em que ele nasceu na Alemanha. “Em Salvador, as pessoas se movimentavam o tempo todo porque tinha muita dança. Lá, todos estavam parados e a impressão é que não tinham gostado, mas no fim, aplaudiram por 15 minutos e não conseguíamos sair”, relata.

Outra situação foi quando apresentaram a peça Novo Mundo, em Minas Gerais, e o público insistiu para que fizessem o espetáculo de novo. “Eles gritavam bis, nunca tinha visto aquilo. E nós fizemos tudo de novo”, recorda, rindo.

Já Fábio Santana diz que se tornou o homem negro que é por meio do grupo. “É minha academia. Aprendi a referenciar os meus ancestrais, descolonizar a minha mente”, afirma. Ele conta que uma das histórias marcantes foi quando foram à Luanda, em Angola, encenar um espetáculo. ”Foi emocionante a receptividade das pessoas. Foi histórico e marcante. Foi um sonho bem vivido. É um dos momentos que guardo com carinho”, complementa.

História

De acordo com a enciclopédia do Itaú Cultural, o Bando de Teatro Olodum nasceu em 17 de outubro de 1990, em Salvador. O primeiro espetáculo estreou no dia 25 de janeiro de 1991, numa das salas de um casarão da antiga Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, no Centro Histórico de Salvador.

A comédia inaugural “Essa É Nossa Praia”, encenada por Marcio Meirelles e pela diretora francesa Chica Carelli (co-fundadora da companhia), chega ao palco com 22 atores e define uma linha de trabalho na qual o Bando apresenta pontos de vista sobre o cotidiano sociocultural de Salvador. A companhia também dá o primeiro passo para consolidar uma dramaturgia própria, com textos escritos por Meirelles a partir de improvisos do elenco.

Composta por personagens inspirados em tipos comuns das ruas do Pelourinho, a peça de estreia faz do humor um aliado e chama atenção do público com temas de caráter contestatório, como intolerância religiosa, ideologia do branqueamento e marginalidade.

Além da palavra, a música e a dança servem de elos de comunicação e viram marcas na trajetória do Bando. Esses dois alicerces ganham ainda mais força como base estética e de linguagem do grupo com a chegada do diretor de movimento Zebrinha (1993) e do diretor musical Jarbas Bittencourt (1996).

Seis meses após lançar a primeira peça, a companhia leva ao palco a montagem Onovomundo, que faz uma incursão pelo sagrado, por meio da abordagem cênica das nações do candomblé presentes na cultura da Bahia. Em 1992, retorna ao universo do Pelourinho, desta vez voltando-se para dentro dos cortiços da área, a fim de pesquisar o material dramatúrgico de um dos seus maiores sucessos: a tragicomédia Ó, pai, Ó!

A mesma peça inspira, na década seguinte, um filme homônimo, dirigido em 2007 por Monique Gardenberg, e um seriado exibido pela TV Globo em 2008 e 2009 (com direção geral de Gardenberg), indicado ao Emmy Internacional.

Nas encenações de temática afrodescendente, destaque para Áfricas (2007), primeira montagem do seu repertório dedicada ao público infanto-juvenil, e Bença (2010), que reflete sobre o tempo e a morte.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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