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Dançarina ficou presa 1 ano e 8 meses após ser reconhecida pelo cabelo e cor da pele em uma acusação de um assalto ocorrido em São Paulo enquanto ela gravava um clipe no litoral

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Heitor Salatiel

O dia 10 de setembro é uma data especial para a dançarina Barbara Querino, a Babiy, de 22 anos. Nessa data em 2017 ocorreu um assalto em São Paulo, enquanto ela gravava um clipe no Guarujá, litoral paulista. Mesmo com vídeos, fotos e testemunhas, Babiy foi acusada de participar do crime “reconhecida” por ter o mesmo tipo de cabelo e cor de pele da pessoa que praticou o assalto.

Ela ficou presa durante um ano e oitos meses até em 10 de setembro de 2019, quando foi solta em regime semi aberto. Um ano após sair da cadeia, ela tenta se reconstruir. Ingressou para o candomblé, buscou auxílio psicológico, virou influenciadora digital, faz trabalhos de auxílio a pessoas encarceradas, mas ainda tenta abandonar o cigarro – vício que adquiriu no cárcere – e processar o Estado, que a prendeu injustamente.

“É preciso entender que toda prisão de pessoa preta foi feita dentro do racismo. Vivemos dentro de sociedade racista. Mesmo quem cometeu crime não teve as mesmas oportunidades de quem vive nos Jardins”, considera. No ano em que foi presa, Babiy se preparava para entrar na faculdade de Jornalismo. Hoje sonha em fazer Direito para mudar as leis que prendem injustamente pessoas como ela.

Em 2017, após sete anos trabalhando como dançarina de dance hall ela conseguia viver da sua arte. O irmão foi preso por um assalto em novembro. Babiy estava na rua em que morava na Vila Constância, Zona Sul de São Paulo, quando a polícia chegou e levou o irmão, a vizinha, a prima e ela para a delegacia. A dançarina foi liberada, mas as fotos que os policiais fizeram deles foram vazadas como se fossem um “bando de criminosos”. Babiy não levou o caso à sério por achar que fosse uma espécie de fake news.

A prisão

Em 15 de janeiro de 2018 a polícia retornou à casa de Babiy e a pediu para ir até a delegacia assinar papéis. Ela foi sem entender e ficou presa. O advogado disse ela era acusada de dois assaltos. A dançarina passou um tempo em Franco da Rocha aguardando audiências. Foram seis, entre adiamentos e remarcações. Em julho de 2018 teve a última audiência e em agosto do mesmo ano recebeu a primeira sentença: cinco anos e quatro meses por que a vítima tinha reconhecido pelo cabelo e pela cor. O juiz ignorou todas as provas e ela ficou um ano e oito meses presa. “Estava tentando entender o porquê da sentença. Não acreditava no que estava vivendo”, conta.

Quando a dançarina saiu da prisão, em regime semi aberto, ela ainda tinha que cumprir regras como não passar das 22h na rua, não viajar e tinha que assinar papéis de três em três meses na delegacia. “Respondia o processo e apelei a sentença que não era justa. A resposta não saiu no dia. Mesmo fora do cárcere, eu estava dentro de uma falsa liberdade. Tinha que cumprir regras e reviver várias questões que o cárcere me trouxe”, relata.  

A resposta da apelação demorou sete meses e sete audiências. Nesse tempo, Babiy ficou ansiosa, perdeu noites de sono. “Sai da cadeia tentando construir minha vida, mas a cadeia não tinha saído de mim. Eu tinha que lidar com todas as questões que o cárcere me trouxe”, complementa a dançarina, que buscou tratamento psicológico para lidar com o trauma da experiência de ser presa.

A liberdade

No dia 13 de maio de 2020 ela recebeu a absolvição. A data da liberdade hoje está tatuada no peito da dançarina acompanhada da palavra “Mowá”, que em iorubá significa “eu existo”. “Passei a existir no dia 13 de maio de 2020 que é o dia da minha absolvição. Dia 10 de setembro eu sai, mas ainda estava presa em liberdade e dentro de mim mesma. Eu tinha me prendido. O 13 de maio é tão simbólico para gente, uma falsa abolição”, destaca.

A dançarina não ficou satisfeita em ganhar a liberdade e não ter recebido nenhum pedido de desculpa do Estado. “Isso só reforça a total irresponsabilidade que o sistema tem com vidas pretas. Me tiram da minha realidade, me roubaram da minha vida. Não estão nem aí. Cumpro 1/6 da pena e só depois eu ganho a absolvição. E acham que está tudo bem, mas não está”, afirma.

Babiy quer processar o Estado, mas ainda precisa recorrer da sentença. Isso porque foi absolvida em razão de as provas da vítima não terem sido consideradas suficientes para a acusação. Bárbara tenta o reconhecimento na justiça de que é inocente no crime em que é acusada e não de que a vítima não teve provas o suficiente para condená-la.  “Isso é maçante. Eu tenho que provar todos os dias que não participei de crime nenhum, mesmo absolvida”, reforça.

A música “Amarelo”, de Emicida, é citada pela dançarina para contar sobre o período presa. Ela afirma que durante um ano e oito meses estava morta. “Ano passado eu morri. Não era eu. Até depois que sai não era eu. E uma das piores humilhações no sistema carcerário é olhar para os seus e ver os maus tratos de alimentação, descaso do medicamento. Lá dentro você é só um número, não estão nem aí para você”, recorda. O primeiro baque foi a primeira revista, chamada de “peladão”.

Todas as noites escrevia cartas e a cada resposta era como se tivesse recebendo uma visita. “Estava conhecendo as pessoas e me fechei”, afirma. A jovem alegre foi aos poucos saindo do casulo e diz que as companheiras de cela eram como uma família que tentava amenizar o cárcere. Conversavam, jogavam e faziam brincadeiras. Também foi difícil ver a mãe, Fernanda Regina, chegar. Na primeira visita uma percebia que a outra não estava bem, mas tentavam disfarçar. Babiy diz que a mãe emagreceu e entrou em depressão. Outro episódio marcante foi quando as detentas receberam a visita do batalhão de choque, que atirou balas de borracha para dentro da cela e passou um dia fazendo revistas e destruindo os pertences delas.

Presente e futuro

O primeiro ano em liberdade, completos hoje, incluem uma nova reclusão: o isolamento social por conta da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus. “Tive que tentar viver a minha vida e refazer ela de outra forma. São processos de cura. Tem muita coisa do cárcere que acabou me acompanhando, como a insônia, não durmo direito. Estou tentando me desvincular, mas ainda é difícil. O processo de cura parece pior que o cárcere. Você não vê sentido nas coisas mais. Em quem você era, quem você se tornou, nos seus ciclos, pessoas que você conhece, nem em você mesma”, revela. No começo, a jovem tentou viver o um ano e oito meses que ficou presa em um dia, até que conheceu a Ialorixá e passou a se aproximar do candomblé. “Você precisa de alguma coisa para ser o norteador, quando a barra apertar, precisa de direção”, explica.

O futuro dela hoje tem a ver com o passado e com o presente. Mesmo com o baque que tomou, Babiy diz que é otimista e que trabalha para ajudar jovens que passam por prisões injustas como a dela. “Quero criar planos, leis para que isso não aconteça. Fomentar mais a cultura dentro do presídio. No futuro, eu quero estar melhor comigo mesma. Quero estar definitivamente curada, o que é um processo”, considera. Ela diz que há outras Babiys presas injustamente e que vai lutar por elas. “Eu vou fazer Direito. Vão ter que me aguentar. Vou estudar leis para bater de frente com as atuais, que não me contemplam”, diz.

Influencer

Com a repercussão do caso, Babiy ganhou milhares de seguidores nas redes sociais e se tornou influenciadora digital. Ela afirma que ficou conhecida dentro de uma situação que não queria e que hoje continua falando sobre encarceramento, mas que gostaria de ser reconhecida pela sua arte, que é o dançar. Babiy participou da gravação do clipe da música “Paz, Amor e Grave”, de Ruxell, Gloria Groove e Rincon Sapiência, lançado no YouTube em dezembro do ano passado. “Parece que você vai ser sempre lembrado por conta de uma dor. De qualquer forma, tento reverter para as pessoas verem o que faço”, afirma.

Para ela, não há como ser antirracista sem olhar para o sistema carcerário. “Vivemos a escravidão no século 21. A música ‘Carta a mãe África’, do Gog, diz que as senzalas são as ante salas da delegacia. O sistema carcerário vem para moer sonhos para que sempre se coloque nesse lugar de inferioridade. Você é preto e não consegue, não é digno”, reflete.

Babiy lembra que a polícia foi criada para prender pessoas escravizadas e hoje continua prendendo pessoas pretas. “Eu não sou a favor do cárcere. Não sou a favor nem de juiz. São pessoas brancas que não entendem de periferia e estão julgando pessoas pretas. O juiz do meu caso não olhou para a minha cara. É muito errado esse poder deles sobre nossas vidas”, conclui.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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