Opal Tometi falou ao Alma Preta sobre a esperança pelos direitos das pessoas negras, o movimento negro no Brasil e a liderança das mulheres 

Texto / Lucas Veloso | Edição e imagem / Pedro Borges

O movimento “Vidas Negras Importam”, o Black Lives Matter (BLM), nasceu oficialmente no final de 2014, em protesto pelo assassinato, cometido pela polícia, de Michael Brown em Ferguson, Missouri.

O grupo se propõe a lutar contra a brutalidade policial e também contra as condições económicas, sociais e políticas dispensadas aos negros americanos.

O BLM foi fundado por três ativistas sindicais negras. Alicia Garza, diretora da National Domestic Workers Alliance (Aliança nacional de trabalhadoras domésticas); Patrisse Cullors, diretora da Coalition to End Sheriff Violence in Los Angeles (Coligação contra a violência policial em Los Angeles); e Opal Tometi, uma ativista pelos direitos dos imigrantes.

Os primeiros passos do movimento foram em 2013 com protestos contra a absolvição de George Zimmerman, um vigilante acusado pelo assassinato de Trayvon Martin, um jovem negro de 17 anos. Em 2014, o movimento aumentou devido a morte de Michael Brown, morto pela polícia, em Ferguson, periferia de St. Louis, Missouri, Estados Unidos.

Na semana em que se comemora o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha, o Alma Preta conversou com Opal Tometi, em passagem pelo Brasil para alguns eventos da comunidade negra.

Tometi é uma ativista de direitos humanos e escritora afro-americana, de influência internacional. Nas últimas duas décadas, tem atuado em movimentos sociais e organizações, ganhando maior notoriedade ao co-fundar o Black Lives Matter e por ser a primeira mulher a liderar a principal organização pelos direitos de imigrantes de origem africana nos Estados Unidos – A Aliança Negra pela Imigração Justa (BAJI, em inglês).

“Black Lives Matter surgiu com a ideia e noção de que as nossas vidas importam. Com os valores da comunidade negra, nós nos amamos de uma maneira tão poderosa que pode inspirar um ao outro a criar o nosso próprio senso de poder e usar esse poder para transformar a nossa sociedade”, define Opal.

Para ela, a criação do movimento acompanha séculos de resistência das pessoas negras contra o racismo estrutural, imposto na educação e saúde, por exemplo. “Desde que nós fomos sequestrados de África, levados para os EUA e forçados a trabalhar, a nossa comunidade tem resistido de muitas maneiras”, confirma.

Como ativista, Opal contribui com o fortalecimento das comunidades negras ao redor do mundo: fez parte do Conselho de Coordenação Internacional de Africanos pela Paz e Dignidade; Atlantic Fellows pela Equidade Racial e na direção do Comitê da Rede Pan Africana em Defesa dos Direitos de Migração.

Em 2019 recebeu o prêmio Coretta Scott King Legacy e foi uma das 200 pessoas listadas pelo Prêmio Frederick Douglas – abolicionistas contemporâneos. Também possui mestrado em Comunicação, atuando também como consultora. Filha de imigrantes nigerianos, ela cresceu no Arizona. Atualmente vive em Nova York.

“O que a gente está presenciando agora é o fruto do nosso trabalho. Nós temos ido às ruas por Mike Brown, Treyvon, Eric Gordon, muitos homens, mulheres, crianças negras desarmadas e assassinadas pela polícia”, relembra, ao avaliar os seis anos do BLM.

Trump

Apesar de enxergar importância nas leis criadas em prol da comunidade, a eleição de negros e a mudança nas propostas de novas cadeias, Opal define como “horríveis” os últimos anos por conta da eleição de Donald Trump.

Segundo a ativista, os americanos já viviam em uma sociedade racista, mas com as ideias de Trump, as atitudes e mobilizações de preconceito foram legitimadas com o pensamento do presidente.

“Ele influenciou as pessoas a se tornarem mais violentas e há um crescimento de pessoas discriminadas. Por outro lado, aumenta o número de gente consciente disposta a tomar atitudes. Nós temos a noção de que ele pode ser eleito de novo, alerta”.

Opal acredita nas mulheres negras, sensíveis com as questões da comunidade e suas opressões, para mudar o atual cenário político e social . “Se as pessoas ficarem juntas, eu acredito que a gente pode ter um tipo diferente de candidato. Com elas, nós estaremos aptos a ter uma visão política mais progressista, melhor para todos”, defende.

‘Trump tropical’

A co-fundadora do BLM também observa a situação no país, após a eleição de Jair Bolsonaro. Para ela, a eleição do capitão da reserva foi um golpe para toda a esquerda internacional. Ela lembra de suas ofensas contra mulheres, pessoas negras com o objetivo de discriminar.

“Nós sabemos o que está acontecendo, a gente vê. Nós estamos de pé em solidariedade para as comunidades negras no Brasil, nós estamos solidários para pedir o respeito que merecem”, afirma.

“É um momento importante para nós prestarmos atenção porque nós sabemos o modo como o racismo opera contra os negros, os mais impactados por esses tipos de injustiça”, completa.

No contexto de Brasil e EUA, com presidentes ruins à comunidade negra, Opal defende a união dos negros na diáspora para combater ideias racistas.

“Estar junto é incrivelmente importante para as pessoas negras ao redor do mundo. Nós temos que estar perto, construir conexões para enfrentar os desafios de cada um. Assim nós teremos vitórias em todos os contextos”, opina.

Coalizão com o Movimento Negro brasileiro

No Brasil, Opal se diz motivada com as ações adotadas pelas organizações negras em prol dos direitos iguais à população.

“Eu me sinto muito inspirada pela comunidade negra brasileira. Eu vejo que tem um trabalho incrível sendo feito, particularmente o trabalho sob a liderança das mulheres negras, em Salvador e outras cidades”, comenta.

“É inspirador saber que a nossa comunidade está se organizando dia após o outro nos seus próprios jeitos, de maneira pública. Nós estamos entendendo como desenvolver nosso poder”, completa, animada.

Morte de negros nos EUA

Nos Estados unidos, os negros representam cerca de 13% da população, mas mesmo assim, os homens negros têm 14 vezes mais probabilidade de serem mortos por arma de fogo do que os brancos. Por ano, os números apontam uma média de 27 homicídios a mais por 100 mil habitantes entre os homens negros em relação aos brancos.

O resultado apareceu em estudo publicado na Annals of Internal Medicine por Corinne Riddell, Sam Harper, Magdalena Cerdá e Jay Kaufman. A análise compreendeu dados de 2008 a 2016 nos 50 estados americanos e do Distrito de Columbia.

Os pesquisadores identificaram uma variação de 9 a 57 mortes por armas a mais a cada 100 mil habitantes para homens negros em comparação aos brancos. A maior foi vista em Missouri, região onde morreu Michael Brown.

SERVIÇO

Mulheres negras movendo as estruturas: Diálogos com Black Lives Matter

27/07. Sábado, das 10h30 às 12h | Sesc Santana - Av. Luiz Dumont Villares, 579 - Jd. São Paulo.

Local: Teatro. Capacidade: 300 lugares. Grátis. 12 anos | Acesso para deficientes – estacionamento – ar condicionado.

INSCRIÇÕES: http://bit.ly/32CPHrf

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