A poetisa, que faleceu no dia 11 de abril de 2019, deixou um vácuo. Escritores, poetisas, ativistas, amigos e familiares contaram para o Alma Preta sobre o legado deixado pela escritora e artista

Texto / Pedro Borges
Imagem / Reprodução

Os atributos destacados sobre Tula Pilar são muitos. Do ponto de vista profissional, brilhante, ousada, com um resgate único da figura de Carolina Maria de Jesus. No plano pessoal, sorridente, brincalhona, uma “rainha” na região onde morava, em Taboão da Serra, grande São Paulo.

Em homenagem a artista, falecida no dia 11 de abril, o Alma Preta conversou com as poetisas Thata Alves, Jô Freitas, Mel Duarte, Marli Aguiar, e o poeta Akins Kintê sobre o legado deixado por Tula Pilar. Durante as entrevistas, foi possível perceber que Tula é única. Singular no jeito, na poesia e no modo de tocar cada um que se aproximasse dela.

O legado e a história

Tula nasceu em Leopoldina, Minas Gerais, em 25 de Abril de 1970. Filha de José Ferreira e Antônia de Souza Ferreira, a poetisa percorreu muitas cidades. Logo aos dois anos de idade, mudou-se para Belo Horizonte, capital do estado, com a mãe e as irmãs. Os motivos das mudanças foram motivados pelo trabalho.

Aos 7 anos de idade, começou a trabalhar com a mãe como cozinheira. Mesmo que tenha recordações gostosas da infância, como nadar em lagos, tem desde cedo o ofício doméstico como uma marca.

O trabalho a motivou a se mudar e aos 17 anos ir para o Rio de Janeiro, quando foi trabalhar como passadeira em um apartamento próximo à praia de Ipanema. Dois anos mais tarde, Tula se mudou para São Paulo, aos 19, para trabalhar como empregada doméstica.

Os relatos de racismo, machismo e desentendimento com os patrões são recordados desde cedo. No apartamento onde trabalhava em Belo Horizonte, ainda muito pequena, lembra de apanhar os patrões e de ter tido inclusive uma parte do cabelo cortada, que nunca nascera de maneira normal.

Uma das falas mais marcantes de Tula se refere exatamente às antigas patroas. Segundo a própria, “Hoje, quando recebo os aplausos nas apresentações, gostaria muito que as antigas patroas estivessem na plateia e vissem onde cheguei”, disse em entrevista ao Nós, Mulheres da Periferia. O hoje continua hoje. Mesmo depois de perder a vida, Tula continua a arrancar aplausos. Tomara que os patrões vejam, escutem e saibam disso.

As origens humildes, o trabalho doméstico e a vitória na poesia são elementos de Pilar que inspiram a também poetisa Jô Freitas, integrante do Sarau das Pretas.

“A Tula superou burlou todos esses percursos impostos para essa pessoa negra, mulher, essa pessoa domesticada, digamos assim. A Tula tem uma importância muito grande na cena literária, por causa de tudo que ela conseguiu conquistar. Ela nos ensinou servindo a melhor versão dela e servindo um prato bem amargo para esses patrões dela”, conta.

Além da poesia e do emprego doméstico, Tula era uma trabalhadora da “rua”. Durante um período de dificuldade que viveu em São Paulo, conheceu a revista Ocas, publicação produzida por jornalistas de maneira voluntária para ser vendida nas ruas. Não se limitou a vender e logo se tornou autora de textos na revista, e com a rede que criou, continuou a vender o trabalho e a participar de saraus.

Presença frequente no Sarau do Binho, Sarau da Cooperifa, entre outros, Tula também construiu um coletivo poético, RAIZARTE e organizou o Sarau “Cadin de Coisa”, que misturava culinária e arte.

A presença na rua e a vontade de vender o próprio trabalho são características que motivam o poeta Akins Kintê, quem também se reconhece na artista.

“Muita correria. A gente se identifica muito, porque ela era muito corre. Ela sempre estava na rua vendendo o trabalho dela. É muito forte esse lance dela com a rua, com a venda, com aquelas ideias que a gente gosta”.

Tula Pilar também abriu espaço para uma geração de mulheres negras. Mulher, negra, periférica, imigrante, Pilar teve de enfrentar dificuldades cotidianas e romper estigmas para se posicionar enquanto mulher negra. Se os espaços culturais ainda hoje carregam consigo a insígnia do racismo e do machismo, imaginem na época de Tula. O trabalho e as obras de poetisas como ela abriu o espaço para toda uma geração.

Em 2004, Tula Pilar publicou o título “Palavras Inacadêmicas”, e em Fevereiro de 2019 participou da coletânea “Negras de lá, Negras daqui”. No dia 30 de Abril, o evento “Uma noite para Tula”, na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo (SP), conta com o lançamento do livro “Inovação ancestral de mulheres negras”, organizado pela jornalista Bianca Santana, editado por Maitê Freitas, com obra inédita de Tula Pilar.

A poetisa Mel Duarte concorda e acredita que Tula Pilar seja uma referência para a poesia e o trabalho artístico desenvolvido por mulheres negras.

“Sei que que mais do que um legado de escrita, ela deixou uma marca em nós mulheres negras que acreditam na palavra como um forma de revide e proteção. E sei que a sua história de vida, garra, determinação vão continuar a incentivar novas gerações”.

Na literatura brasileira, Tula Pilar é um dos nomes que melhor reverberou o legado de Carolina Maria de Jesus. Pretas, ambas carregaram diários, tiveram de enfrentar as desigualdades impostas para mulheres negras. A poetisa, que costumava dizer “Eu sou uma Carolina”, fez performances teatrais representando a célebre autora da obra, Quarto de Despejo.

“A gente na contemporaneidade conseguiu reviver um pouco da história da Carolina Maria de Jesus na Pilar. A história de ambas era muito difundida, tinha uma eugenia muito parecida. Eu fui adotada pela Pilar como filha literária nos ambientes, com cuidado, e eu pude experienciar muitas vivências com ela”, recorda, emocionada.

Thata Alves é uma das organizadoras do encontro “Eternamente 29 primaveras”, no dia 27 de Abril, sábado, a partir das 15h, na Casa de Cultura Candearte, em Taboão da Serra. O encontro, com roda de conversa, show, discotecagem e roda de samba, é outra homenagem a poetisa recém falecida.

A literatura de Tula Pilar também foi marcada pelo erotismo. A obra “Sensualidade de fino trato”, publicada em 2017, traz toda a poesia de uma mulher que decidiu enfrentar os tabus de uma sociedade que inibe a sexualidade de mulheres negras.

Além da obra publicada, Tula se notabilizou por participar de saraus e tocar em temas como afetividade e sexo. A quebra de paradigma foi importante para incentivar outras mulheres negras a escreverem sobre o tema, como Marli Aguiar, autora da obra “Tecendo Memórias e Histórias” e que contou com a presença de Tula no lançamento.

“Lembro que foi incrível e ousado o sarau que ela realizou no Aparelha Luzia com poemas eróticos de seu livro “Sensualidade de fino trato”. Foi incrível porque eu já queria desenvolver este tipo literatura mas não tinha referência de mulheres de mulheres negras com esta temática. Foi neste sarau com ela que li em público um ou dois poemas eróticos meus. Ela me incentivava muito a escrever sobre o corpo negro feminino, nossos prazeres e acho que a ouvi”.

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