A Umbanda e o Candomblé, religiões afrobrasileiras, carregam consigo semelhanças e diferenças na prática religiosa

Texto / Thaís Morelli
Imagem / Júlio César

Negro, alto, forte, com seus penachos brancos na cabeça e sua flecha entrelaçada nos dedos. Na umbanda, chamado de Oxóssi, no candomblé, Òsóòsi. Duas religiões que carregam muitas semelhanças, mas que não são iguais. Embora compartilhem a matriz africana, uma é genuinamente brasileira, trazendo influência de cultos africanos e de outras crenças, enquanto a outra é feita de rituais legitimamente africanos.

Duas tradições distintas e culturalmente afortunadas. Conhecer mais profundamente ambas essas matrizes religiosas sempre foi um desejo pessoal e, para tanto, entrevistei Rodrigo Queiroz, professor de Filosofia e Teologia da Umbanda, fundador da plataforma Umbanda EAD e considerado um ícone de recolocação da religião no contexto social ordenado e desmistificado. Pude fazer uma viagem histórica ao século XX, sintetizada pela interação entre o catolicismo, a tradição dos orixás e os espíritos de origem indígena.

A umbanda, do alfabeto adâmâco aumbandan, e cujo significado é “o conjunto das leis divinas”, foi anunciada no Brasil em 1908 pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Por meio do médium Zélio de Moraes, o caboclo declarou que a umbanda seria a religião dos pretos e indígenas, que simbolizaria a igualdade entre todos os irmãos, falaria aos humildes e que teria como característica principal a prática da caridade com base no evangelho de Jesus. “Embora seja uma religião monoteísta, ou seja, que reverencia apenas um deus, especificamente Jesus Cristo, a umbanda possui influências dos Orixás, como Oxóssi, Iansã e Xangô, sendo regida por essas divindades ancestrais”, explica.

Para melhor se comunicar e auxiliar a humanidade, as manifestações são feitas através das falanges desses Orixás, que são, por exemplo, os Caboclos, Pretos Velhos e muitos outros. “Tudo isso acontece devido à umbanda ser uma religião mediúnica e que traz manifestações espirituais, entendendo que esses guias são espíritos humanos desencarnados que atuam por amor, auxiliando a evolução da humanidade”, destaca Rodrigo. Além da incorporação, essa comunicação com outros planos se dá por diversos outros meios sensoriais, dentre eles a psicografia, a clarividência e a psicometria.

O “Batuque de negro”

Para entender melhor o candomblé, conversei com Antenor Sant’Ana, que é babalorixá, chefe espiritual da religião. Ele explica a trajetória do candomblé entendendo-o como fruto de uma condição histórica específica: a escravidão. Assim, fizemos uma viagem ainda mais longa no tempo, desde quando ser brasileiro era ser católico e o candomblé passou a ser uma religião subversiva, chamada de “batuque de negro”.

O nome kandombele, ou seja, casa de negro, expressa a sua origem. A religião foi iniciada com a opressão de um povo. Obrigados a trabalhar nas lavouras dos brancos colonizadores e defensores da igreja católica, os negros praticavam suas crenças de forma secreta nas senzalas e quilombos.
A tradição adentrou o Brasil junto dos escravos vindos do tráfico negreiro de diversas regiões do continente africano, o que fez o Candomblé ser dividido entre nações. A religião prosperou por quatro séculos e, com o fim da escravatura no Brasil, em 13 de maio de 1888, expandiu-se e estabeleceu-se em milhares de templos. Inicialmente, preservou muito de sua cultura de origem, todas as suas práticas eram africanas, assim como a língua falada nos cultos, o Iorubá.

Candomblé Umbanda Corpo

Religiões de matriz africana têm sido atacadas por motivações racistas e de intolerância religiosa (Foto: Júlior César)

O candomblé também é uma religião monoteísta e que, através das principais nações que congrega – Bantu, Nagô, Angola, Jeje e Ketu – nos faz pensar em diferentes maneiras de comunicação, mas sempre com algo em comum: propagar o amor e auxiliar na evolução da humanidade. “Diferente do que acontece na umbanda, os orixás no candomblé são cultuados como divindades que representam força, possuem habilidades, personalidades e não ficam somente no plano da influência energética. São incorporados nos cultos sem consulta, tendo apenas o Ifá, oráculo africano, para tal”, afirma o babalorixá Antenor.

O candomblé ainda se diferencia em outros aspectos. A religião respeita uma hierarquia mais forte nos templos e realiza algumas cerimônias específicas, como os preparos dos alimentos de santo e os sacrifícios, que são até hoje um tabu na sociedade. A palavra sacrifício, do latim sacrificium, significa “ato de fazer o sagrado”, ou seja, sair da esfera profana e entrar na esfera sagrada. No candomblé, o ato acontece para oferecer a vida de animais ou alimentos às divindades como forma de culto, não como sinônimo de matança. Por isso, a religião acredita que é um erro crasso referenciá-lo à morte de animais.

Religiões que resistem

Após entender em quais pontos ambas as religiões se diferenciam, foi importante compreender uma força maior que as une: a resistência. Com esse objetivo, conversei com José Maria Pereira, Dona Valdinéia Aparecida Pereira e Karen Cristina Pereira, uma família que está na umbanda desde 1976. Eles me proporcionaram uma experiência de vida, amor e humildade.

Em tempos tão desafiadores para a população negra, que luta contra o racismo e a intolerância religiosa, não há dúvida de que as religiões de matrizes africanas são alvos de discriminação. José Maria conta que no passado o preconceito era ainda pior: “Antigamente, era muito difícil eu dizer para os outros que eu era umbandista. No começo, dizíamos ser ‘espíritas’ para não sofrermos preconceito”.

Karen, filha de José Maria, é engajada na defesa da umbanda e não nega as suas origens. “A cultura afro não faz só parte da minha religião, mas da minha história. O preconceito existe e, às vezes, vem até do negro por pura falta de conhecimento”, afirma. Mas acredita que esse panorama vem mudando: “Tá melhorando através de passos de formiga, mas está”, completa.

No passado, nos terreiros de umbanda e nas roças de candomblé, a predominância era de pessoas negras, hoje, a religião é frequentada por negros, brancos “e até por orientais”, como destaca Karen.

Além do racismo, essas religiões sofrem ataques de cunho machista, já que têm tradição matriarcal e oferecem às mulheres maior liberdade e poder na prática da religiosidade. Antigamente, as mulheres negras eram as que dominavam o conhecimento da cura por ervas medicinais, tornando-se grandes líderes nessas religiões, semelhantes a divindades femininas como Iansã, Nanã e Iemanjá. São entidades ligadas à força e à luta, contrastando com o papel que foi designado à mulher na sociedade – frágil, submissa e domada pelo patriarcado.

Conexão Espiritual

Ao compreender a forma como a umbanda e o candomblé se fundem, consegui entender algumas outras vertentes que vêm nascendo e se instalando nos templos, como o chamado umbandomblé, que é a prática das duas religiões em uma mesma casa. Dona Valdinéia – umbandista, médium, esposa de José Maria e ogã (pessoa que toca atabaque para o santo e possui algumas funções diferenciadas num culto de umbanda) – destaca a importância da união das duas religiões: “As pessoas precisam entender que a umbanda é como se fosse a irmã mais nova do candomblé, que fala aos filhos com mais simplicidade e de uma maneira ‘abrasileirada’ para que todos entendam e se sintam acolhidos, mas essas religiões caminham juntas, sem dúvida. O certo e o errado estão nos olhos e bocas dos seres humanos, dirigentes espirituais e por aí vai. O mundo espiritual é um só!”.

Depois das entrevistas abracei essa família e o silêncio se fez presente, assim como todos os benfeitores espirituais que ali nos acompanhavam.

A reportagem foi originalmente publicada na Revista AFROCULT. Criada como trabalho de conclusão de curso das jornalistas Giovanna Monteiro, Marina Sá, Mayara Oliveira e Thais Morelli na Universidade Anhembi Morumbi, a revista visa ser um instrumento didático para o auxílio do combate ao racismo no país.

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