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Quilombolas sinalizaram nesta semana os primeiros registros de infectados pela doença

Texto / Pedro Borges I Edição / Simone Freire I Imagem / Thiago Gomes/Agência do Pará

A capital do Amapá, Macapá, registrou o primeiro óbito de um quilombola por Covid-19. A vítima era da comunidade Abacate da Pedreira, tinha 57 anos, era hipertenso e diabético. O falecimento ocorreu no sábado (11).

A comunidade fica próxima à rodovia do Curiaú, na região metropolitana do estado. A suspeita é de que o homem se infectou em São Paulo, onde esteve em recente viagem. Até esta quarta (15), o Amapá tinha 242 casos confirmados e 5 mortes da doença, com uma taxa de letalidade de 2,1%.

Givânia Silva, articuladora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Quilombolas (Conaq), tem receio de que novos casos como esse possam acontecer em Macapá e em outras cidades do país.

“Nós estamos bastante apreensivos em função do Covid-19 e da situação de fragilidade das comunidades quilombolas. O coronavírus vem agravar um quadro já ruim da ausência das políticas públicas nas comunidades quilombolas. Como recomendar que as pessoas fiquem em casa, higienizem as mãos, se muitas das nossas comunidades sequer tem água potável?”, questiona.

Interrogada sobre o falecimento, a Secretaria Municipal de Saúde do Macapá reiterou os cuidados da pasta com esse grupo para a prevenção da Covid-19 e outras doenças: “as áreas de quilombola assim como o resto do estado inteiro está sendo desinfectado com produtos químicos nas ruas e nas matas próximas das casas, e também sendo tomado providências contra outras doenças como a dengue que não pode ser deixada de lado”.

A pasta também negou que o homem fosse quilombola, o que foi rebatido pela liderança do quilombo Abacate da Pedreira, Núbia Souza. “O fato dele trabalhar na cidade não tira o pertencimento dele enquanto quilombola. Ele era festeiro de São José e ele contribuia, e muito, para o fortalecimento cultural e econômico da comunidade”, conta.

Ela explica que a vítima, sem oportunidade de emprego na comunidade, foi para Macapá para trabalhar e passou a dividir a moradia entre o quilombo e o bairro de Pacoval. “Isso acontece muito. É a realidade nossa. Para a gente é fácil ter esses dois espaços porque esses bairros são próximos a áreas que já foram de comunidades tradicionais. O bairro do Laguinho é um bairro negro e é bem próximo a onde ele morava, onde a grande maioria é ocupado por quilombolas”, detalha.

Festa Quilombola 2

Quilombola vítima da Covid-19 é o homem na parte direita da imagem; Foto foi tirada durante festejo de São José (Foto: Acervo pessoal)

À reportagem, a secretaria municipal também reiterou a utilização dos agentes de segurança do estado e do próprio exército para ações de prevenção nos territórios. “A polícia militar, guarda civil municipal de Macapá, exército e demais órgãos da saúde estão visitando várias áreas do estado inteiro fazendo blitz educativas informando a população de como se proteger do Covid-19”.

No entanto, Núbia critica a eficiência destes tipos de ações. “O que é feito é uma ronda, mas não foi feito nenhum tipo de trabalho de informação ou de desinfecção nas áreas que foram atingidas pela questão do Covid. Nós consultamos o pessoal de outros quilombos e não teve esse apoio da prefeitura e nem de estado. A gente só vê a polícia militar. Ela percorre toda a BR até chegar no quilombo do Santo Antônio da Pedreira, mas só informando as pessoas que não são da comunidade para retornar para as suas casas”, conta. Ela também informa que ações com vacinas contra a gripe e de prevenção a outras doenças foram feitas em duas comunidades, na do Abacate e de Santo Antônio.

Outros casos

Nesta semana, outros casos de Covid-19 foram confirmados em comunidades quilombolas do Brasil. Os dados, divulgados pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Quilombolas (Conaq), apontam casos nos estados da Bahia e do Rio de Janeiro.

Na Comunidade Mata do Milho, na cidade de Canarana (BA), uma jovem de 24 anos foi diagnosticada com o vírus. Ela esteve há pouco tempo em São Paulo, epicentro da pandemia no país, e retornou para o quilombo, para o enterro de um familiar. Logo que chegou, passou a sentir sintomas da doença e segue em tratamento e quarentena desde então.

Na cidade de Armação dos Búzios, região dos lagos no RJ, no Quilombo Rasa (RJ), um homem de 26 anos foi diagnosticado com Covid-19. Apesar de não ser quilombola, ele morava na comunidade. Todos os que tiveram contato com ele estão em quarentena e houve uma visita de uma equipe de saúde para orientar a comunidade, segundo informações da Conaq.

As orientações para as comunidades quilombolas, dadas pela própria Conaq, é a de manutenção das práticas de higiene, com o cuidado na limpeza das mãos com água, sabão e, se possível, álcool em gel, além da manutenção do isolamento social evitando a circulação para as áreas urbanas e o toque pessoal, em especial com os sujeitos mais velhos. A organização também pede para a continuidade da suspensão dos rituais religiosos.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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