Texto: João Victor Belline
Edição de Imagem: Pedro Borges


O olhar distante e reflexivo. As lágrimas que começam a correr pelo rosto já desgastado pela força do tempo. As mãos vão aos olhos e é impossível conter a emoção. “É muito triste, muito duro, gente. Muita maldade que o Brasil fez comigo…o Brasil não. Os dirigentes da época’. Essas são as palavras de Aida ao retornar em 2012 ao Estádio Nacional, em Tóquio, no Japão. Esse retorno, proporcionado pela produção do documentário “Aida dos Santos, uma mulher de garra”, do Diretor André Pupo e Quintela e em parceria com a ESPN Brasil, transmite um pouco do que foi a luta e a emoção dessa guerreira que foi a única mulher represente do Brasil nos Jogos Olímpicos de 1964.

A história da infância de Aida representa um pouco da população mais vulnerável do Brasil. Preta, pobre, mulher. Nascida no primeiro dia de março de 1937 e moradora do Morro do Arroz, em Niterói, ela sempre teve que ajudar nos afazeres domésticos e, como pudesse, também no sustento da casa. Os primeiros contatos esportivos de Ainda foram com o vôlei, esporte que ela praticava, desde que cumprisse todas as tarefas da casa antes. E foi através do vôlei que ela também conheceu o atletismo. Uma amiga fornecia carona do morro até o clube do Botafogo, onde ela praticava salto em altura e Aida jogava voleibol.

Nem sempre o treino de vôlei acontecia, pois nem sempre havia quórum. Aida tinha que esperar a amiga terminar seu treinamento no salto para então poder ir para a casa. Numa dessas vezes em que tinha que ficar esperando a amiga, após muita insistência, Aida aceitou participar das atividades do salto em altura. Logo na primeira vez em que praticou o esporte, conseguiu a marca de 1,40m. Detalhe, o recorde do estado do Rio de Janeiro era apenas cinco centímetros mais alto. Isso fez com que os técnicos e atletas que ali estavam se animassem e incentivassem para que ela começasse a treinar atletismo.

Quando a jovem comunica em casa que gostaria de participar de uma competição, ela é prontamente repreendida pelo pai que não vê naquilo algum futuro. Ele afirma que ela precisa é ganhar dinheiro e ajudar na casa, não fazer esporte. Nesse momento mais uma vez é a amiga que consegue resolver a questão. Ela convence o pai a deixar Aida ir com ela à competição, apenas para vê-la participar. Claro que aquilo era apenas uma manobra, mas deu certo. O pai permitiu e Aida foi mais do que assistir ou participar. Em sua primeira competição, ela saltou 1,50m, vencendo e batendo o recorde de salto em altura do estado do Rio.

Ao chegar em casa, Aida mostra a medalha para o pai na esperança que aquilo mudasse sua opinião. Muito pelo contrário. Ele bate na jovem e sustenta seu pensamento: “Você ganhou algum dinheiro? Medalha não enche a barriga de ninguém!”, palavras da própria Aida contando sobre o episódio.

Aida dos Santos e o diploma de 4° lugar nos jogos olímpicos

Independente da represália, ela não se deixou abalar e continuou treinando como podia. É nesse momento, inclusive, que aparece o seu primeiro “treinador”. Aida praticava no complexo Célio de Barros, sozinha, muitas vezes no escuro, já que a estrutura era deficiente e ela não tinha o apoio de uma equipe. Um menino de dez anos que praticava atletismo, Francisco Manoel de Carvalho, costuma brincar no local e começou a ajudar Aida. Ele ajeitava a caixa de areia, o sarrafo e dava alguns pitacos. Esse menino, hoje, é conhecido como Chiquinho da Mangueira.

Em 1964, ano tão marcante na história brasileira devido ao golpe e ao início da Ditadura Militar, aconteceram os jogos Olímpicos em Tóquio. Foi às vésperas dos jogos, na última oportunidade, que Aida conseguiu sua vaga para competir. Ela se tornou a única mulher na delegação brasileira que iria ao Japão. Mesmo assim, nenhuma estrutura esportiva lhe foi oferecida. Ela foi ao Oriente sem técnico, material de competição, tradutor e, nem mesmo, a roupa para vestir na cerimônia de abertura. O episódio da abertura é também um retrato da estadia de Aida nas Olimpíadas. Como a única mulher entre os 68 atletas brasileiros, ela desfilou como um pelotão único atrás dos porta bandeiras e distante também do restante de mais de sessenta homens. Aquela cena expressa um pouco a solidão que foi a passagem dela em Tóquio.

Logo nos primeiros dias, ela descobre que o seu nome não está inscrito na competição. Com muitas dificuldades, já que não havia um técnico ou equipe para apoiá-la, não falava japonês ou qualquer outra língua que não o português, Aida conseguiu se inscrever. Afastada das acomodações da delegação do Brasil, ela passava os dias treinando sozinha e andando de bicicleta. Até para treinar, por exemplo, ela tinha que improvisar. Enquanto as demais competidoras tinham calçados adequados e trena para medir os saltos, ela usava os pés para ter uma noção das distâncias e conseguiu emprestado uma sapatilha de corredor de 100m, depois de muito chorar para a organização.

Para seguir seus afazeres, a atleta olhava as outras competidoras e copiava o que elas faziam, assim ela não perderia nenhum compromisso mesmo sem conseguir entender ou ler nada que estava acontecendo.

Nas eliminatórias, Aida precisava saltar 1,70m para chegar às finais. Ela nunca havia conseguido saltar nem 1,68m até então. Além disso, dessa vez, a brasileira competiria em condições diferentes das que costumava: ela cairia em colchões e espuma, diferente da areia em que estava acostumava. Apesar disso parecer vantajoso, é sabido que, para melhor ou para pior, a mudança na rotina de um atleta sempre prejudica seu desempenho.

Independente das adversidades, Aida conseguiu a marca, mesmo que para isso, um alto preço fora pago. Na queda, ela torceu o tornozelo.

Mancando, ela se joga no gramado do Estádio Nacional e retira a sapatilha. O médico da delegação de Cuba se aproxima e auxilia Aida naquele momento de dificuldade. Ele aplica analgésico no pé dela, a fornece um comprimido e ainda faz a “botinha” de ataduras para que a atleta possa continuar a competição e ir à final. Mesmo lesionada, ela consegue saltar 1,74m, marca que garantiu o quarto lugar naquele ano. Esse desempenho, inclusive, foi o melhor de uma brasileira até as Olimpíadas de 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos, quando a dupla Jaqueline e Sandra conquistou a medalha de ouro no vôlei de areia.

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