Texto: Dagoberto Fonseca / Ilustração: Vinicius de Araújo

Ao longo de nossa história recente, diversos movimentos sociais construíram diferentes bandeiras de luta como parte do fortalecimento de suas ações. O movimento negro não fugiu deste processo ao constituir para si o lema dinâmico da “Consciência Negra”. O tema trouxe para o cenário cultural e político brasileiro a questão da identidade, não enquanto um processo estático, imutável e essencialista, mas como uma identidade que está em constante dinamismo social, sobretudo porque considerou que a identidade tem que ser processada no cotidiano, na relação entre os iguais e os diferentes.

A “Consciência Negra”, desta maneira, não é um meio de introspecção, de preenchimento do eu, do ensimesmamento de um sujeito sociocultural e histórico, pautado pela psicologia ou psicanálise, mas sim o contrário, pois advoga o encontro consigo e com o outro. A “Consciência Negra” necessita se enraizar cada vez mais de modo dinâmico e voltado para fora com o intuito de provocar mudanças no quadro social. Ou seja, a sua base é a constituição de uma nova maneira de ver, perceber, sentir e se posicionar no mundo. Esta consciência exige mobilidade e arregimentação para fazer da identidade a diferença, ou seja, não objetiva a construção da mera contradição ou contraste, mas sim do novo.

Prof. Dr. Dagoberto José Fonseca, docente da Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara, UNESP. Coordenador do Centro de Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN) e do Laboratório de Estudos Africanos, Afro-Brasileiros e da Diversidade (LEAD), Supervisor do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE) da mesma faculdade.

Texto: Danilo Lima / Ilustração: Vinicius de Araújo

"O sistema tem que chorar,

 

 mas não com você matando na rua. 

 

O sistema tem que chorar vendo a sua formatura".

 

 (Apologia ao Crime - Facção Central, 2001).


O acesso à universidade ainda é privilégio de poucos, nós os negros/as universitários/as continuamos sendo exceção à regra e, portanto, é preciso entender que a formatura é uma conquista extremamente importante, mas que ainda é pouco.

Nos E.U.A., estudantes negros tiveram que entrar em greve de fome contra o racismo, após encontrarem pichações racistas e nazistas feitas com fezes nos banheiros da tradicional Universidade de Missouri – Colúmbia. Uma ação corajosa de enfrentamento por parte daqueles que não aguentam mais conviver com estas violências diariamente.

Missouri Protests on racial Isuues Estudantes da Universidade de Missouri em protesto

Mas antes mesmo que possa surgir por parte de alguns, um suspiro aliviado por não termos esse tipo de situação em nosso país, cabe destacar que manifestações racistas e neonazistas, também são recorrentes em nossas universidades, sejam elas públicas ou particulares.

As denuncias de racismo têm se multiplicado ao longo de 2015. Já tivemos casos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Presbiteriana Mackenzie, Universidade Estadual Paulista (UNESP) e, mais recentemente, na Universidade Federal do ABC (UFABC), leia mais (aqui e aqui). Deste modo, verificamos que essas atitudes não são de exclusividade do racismo que vigora nos E.U.A, nem tampouco que estudantes negros e negras brasileiros/as deixam de se organizar e resistir aos efeitos nocivos do racismo.

Recentemente no Espírito Santo (um dos Estados que mais mata jovens no país), um professor da importante Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) foi demitido após ter sido denunciado por alunos de ter cometido crime de racismo durante uma aula. Trata-se de um dos raros casos que apresenta punição efetiva para a prática de racismo no Brasil. Importante destacar que os estudantes do Coletivo Negro Negrada tiveram papel fundamental em mais essa ação contra o racismo.

Mas a questão é: por que incomodamos tanto mesmo sendo tão poucos os que conseguem superar as dificuldades e ocupar lugares que não as favelas, os cortiços e as penitenciárias? Preto e poder são palavras rivais? Definitivamente NÃO.

Não podemos nos contentar com respostas preconceituosas e simplistas para o problema do racismo. O que ocorre é que a violência racial, que nos atinge até hoje, é estrutural, dissimulada e perversa.

A violência racial se concretiza em certa medida na ação do Estado, ou ainda pela falta de ação do mesmo, caracterizando a sua forma estrutural. Quando a policia militar realiza intervenções violentas e letais pelos guetos e favelas, quando populações quilombolas não têm suas terras reconhecidas, quando se compõe ministérios sem o compromisso de garantia proporcional de representatividade negra, temos o Estado usando deliberadamente sua estrutura contra nós.

Outro ponto é que nem sempre podemos responder à altura essas ações discriminatórias cotidianas. Mesmo que sendo atingidos diariamente, os ataques dados pelo racismo estrutural podem não ser explícitos.

Há aqueles racistas mais vigilantes, que não professam o que pensam, ou ousam escrever palavras racistas na porta dos banheiros, pois identificam os riscos legais dessas atitudes, mas dissimulam suas praticas racistas no ato de tomada de decisão: quando o/a empregador/a decide não contratar negros e negras ou quando justifica a nossa não promoção de cargo com argumentos ancorados em uma suposta “necessidade de perfil adequado de boa aparência”. Há também outras formas de racismo velado no cotidiano, quando crianças negras em idade escolar não se sentem bem nas salas de aula e tem seu desempenho de aprendizagem prejudicado, ou quando o garoto acorrentado ao poste e linchado é sempre o negro.

Afinal, o Brasil é um país onde há racismo, mas ninguém se assume racista, não é mesmo? Como diria o professor Kabengele Munanga, “Nosso racismo é um crime perfeito”.
Entretanto, o efeito mais perverso do racismo não encontra seu fim nas falhas/conivências do Estado ou nas práticas racistas implícitas ou explicitas dos outros contra nós. Ao invés disso, é justamente no íntimo, em nossa subjetividade, que gradativamente vamos construindo uma noção de inferioridade, de que estamos fora do padrão e, portanto, somos nós os desajustados, passando então a conviver com uma busca eterna por aceitação.

Uma inferioridade afirmada de varias formas: com livros didáticos que insistem em nos retratar tão somente como escravizados e com determinados programas de TV que criam e reforçam estereótipos negativos sobre negros. Ou ainda pela escolha das agências de publicidade ao estamparem pelos outdoors das cidades somente aqueles de pele branca. Há também a infestação de autores brancos e europeus com os quais somos obrigados a ter contato nas universidades brasileiras.

(...) “Há alguns anos, conhecemos um negro, estudante de medicina. Ele tinha a impressão infernal de não ser estimado segundo o seu valor, não do ponto de vista universitário, e sim, dizia ele, humanamente. Tinha a impressão infernal que jamais conseguiria ser reconhecido como um colega pelos brancos, e como doutor pelos pacientes europeus.” (Fanon, 2008).


Assim, mais do que o entendimento dessa violência que atinge a população negra de modo estrutural, dissimulado e perverso, precisamos entender sobretudo o que significa ocupar o espaço acadêmico para um preto. Ou seja, nós jovens negros e negras não podemos ignorar o potencial de transformação da realidade social que a universidade nos oferece, por mais que neste espaço nossa subjetividade possa ser atacada.

Não se pode desconsiderar que a universidade é o um espaço da produção de conhecimento especializado que oferece oportunidade de pesquisa em grandes temas, mas que também se constituiu historicamente, até um período muito recente de nossa história, como lugar por excelência de reprodução dos ideais das elites econômicas e políticas nesta sociedade.

“E naturalmente, do mesmo modo que um judeu que gasta dinheiro sem contá-lo é suspeito, o negro que cita Montesquieu deve ser vigiado. Que nos compreendam: vigiado, na medida em que com ele começa algo.” (Fanon, 2008).


Fanon explica. Um negro passar pela universidade implica sim processos dolorosos e de conflito, mas que também é um caminho estratégico, uma etapa importantíssima para o inicio de novas transformações sociais.

Com a finalidade de vencer o sistema racista que tenta nos destruir todos os dias: a universidade deve ser o espaço de formação, informação e também de ação politica organizada. Não podemos abrir mão de ocupar as vagas que CONQUISTAMOS! Sigamos lutando, nos formando, fazendo a diferença, pois nossos passos vem de longe e a luta está no fim!

 

Texto: Secretaria de Mulheres Quilombolas da CONAQ (Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas)  / Imagem: Divulgação


Nós, mulheres quilombolas somos parte das 49 milhões de mulheres negras que compõem um quarto da população do Brasil e, na semana em que se celebra o Dia Nacional da Consciência Negra, estamos mobilizadas junto a guerreiras dos mais diversos seguimentos sociais, em torno da edição 2015 da Marcha Nacional das Mulheres Negras – Contra o racismo, a violência e pelo bem viver – para dar visibilidade ao que enfrentamos cotidianamente em cada canto do país.

O Brasil tem a maior população negra fora da África (aproximadamente 100 milhões de pessoas) e nós, mulheres quilombolas, remanescentes diretas dos povos africanos, estamos distribuídas em uma população de cerca de 130 mil famílias. Somos mães, filhas, professoras, estudantes, mestras de saberes, somos lideranças de territórios em conflitos com as mais distintas situações.

Mantemos uma das culturas identitárias da nação em sua matriz, com os conhecimentos conforme recebemos de nossas ancestrais e, apesar disso, somos invisibilizadas por uma história conveniente às elites, por interesses de economia nacional, por um Estado que pouco se preocupa em reparar o que não nos foi garantido em séculos de história.

Por meio da Marcha ressaltamos questões que julgamos relevantes de serem aprofundadas pela sociedade. Por exemplo, as disparidades sociais entre homens e mulheres e entre mulheres negras e não negras. Em linhas gerais todas as mulheres negras correspondemos nos dados de violência doméstica, segurança pública e mortalidade, aos mais altos índices enquanto vítimas. Em nossas buscas por proteção, auxílio ou orientação somos mais uma vez expostas, dessa vez ao que é hoje conhecido como racismo institucional.

Nos territórios quilombolas sofremos também com os conflitos agrários, apesar de todas as formas de preconceito já estabelecidas estamos ainda mais vulneráveis devido às lutas enfrentadas em defesa de nosso espaço ancestral. Estamos cansadas, nós e nossas famílias, de sermos criminalizadas pela posse das terras que herdamos, quando sequer são lembrados o que nos foi tirado a partir da escravização.

Contudo, nos adequamos a esta terra chamada Brasil e pelo amor que aprendemos a dedicar somos hoje consideradas nativizadas deste país. Aqui, tivemos filhos, netos, bisnetos. Estamos nas quarta, quinta e até sexta gerações, contribuindo para o desenvolvimento de uma sociedade da qual somos co-fundadoras e nossa luta contemporânea é por reconhecimento, por cidadania e por respeito às nossas vidas.

O direito de existir e de acesso às políticas que as mulheres quilombolas temos está atrelado ao acesso à terra, base à sobrevivência, à manutenção de nossa identidade étnica. Queremos a garantia da propriedade de nosso território e sua proteção como patrimônio. Só assim teremos o direito de acessar todas as demais políticas desenvolvidas para as comunidades quilombolas conforme a legislação vigente.

Bem como nossas irmãs indígenas, ribeirinhas, geraizeiras e de tantas outras identidades vivemos em harmonia com a terra e somos preservadoras dos biomas de nosso país. Em nossa dedicação à preservação das florestas nos convertemos em direito da população nacional na medida em que protegemos as nascentes, a fauna, a flora.

Para alcançar o bem-viver, reivindicamos o direito de sermos diversas em nossos modos de ser, de crer, de pensar e de ir e vir. De sermos reconhecidas pelo Estado e de participar dos resultados econômicos do que ajudamos a produzir.

Contamos um breve resumo de nossa luta e, na Marcha, nos integramos a outros movimentos de mulheres negras que nos fortalecem em nossos objetivos comuns. Na Marcha a luta independe do modo de vida. Enquanto marchamos somos barreira ao racismo, a todas as formas de discriminação, estamos em busca de nossos direitos!

Estamos em Marcha:

♣ pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;

♣ pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;

♣ pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;

♣ pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;

♣ pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;

♣ pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;

♣ pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo- nos ligadas à ancestralidade;

♣ pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;

♣ pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

 

Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras

 

Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 2015

 

Secretaria de Mulheres Quilombolas

 

Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas

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