Texto: Roque Ferreira* / Edição de imagem: Vinicius Martins

O 20 de novembro não deve ser apenas para relembrar a história de Palmares. No dia da Consciência Negra, devemos nos lembrar e denunciar a exploração e toda humilhação que milhões de brasileiros passam todos os dias, da falta de serviços públicos de qualidade, da miséria, da fome e da opressão racista que existe no Brasil.

Neste dia devemos dizer de forma taxativa que raças humanas não existem e que o racismo é fruto desta ideologia pseudocientífica nascida junto com o sistema capitalista. Só a luta organizada e a unidade dos trabalhadores negros e não negros pode garantir direitos e conquistas para uma vida melhor para todos, independentemente da cor da pele.

O racismo, assim como todas as ideologias que foram criadas com a missão de dividir os trabalhadores, deve ser combatido cotidianamente de forma enérgica. Da mesma forma e com a mesma energia devemos combater e explicar de forma paciente que as políticas chamadas de discriminação positiva, não ajudam a resolver o problema da exclusão de milhões. Ao contrário, elas bebem na mesma fonte; na fonte da crença na existência de “raças humanas”, onde umas são superiores as outras, e na subordinação dos interesses de classe em relação aos “interesses de raça”. As políticas racialistas favorecem, ampliam e solidificam o racismo.

Alguns tentam distorcer a história para apagar a luta de classes e transformá-la em luta entre “raças”, entre povos com cor de pele diferente. Tentam convencer que a culpa da escravidão e do racismo é dos “homens brancos” e não da sociedade de classes e da opressão e exploração de uma classe social contra outra. Não podemos apagar a luta de classes. Nós trabalhadores e trabalhadoras somos explorados de forma igual, independente da cor da pele, do sexo, da religião, da orientação sexual e do país onde vivemos. Compreender isso é fator determinante para que a luta por igualdade, pelo fim do preconceito, da discriminação e do racismo, não seja mero exercício de encantamento de serpentes.

Devemos intensificar a luta por salário igual para trabalho igual, vagas para todos nas escolas e universidades e que sejam públicas e gratuitas, serviços públicos gratuitos e de qualidade para todos, reforma agrária, assim como estatização das empresas privatizadas. Combater as privatizações e terceirizações dos serviços públicos, denunciar a assepsia social e racial que se abate sobre a juventude pobre e negra praticada pelos aparatos repressivos do Estado e cadeia para todos que pratiquem violência racial. É fundamental que nos apoiemos nos pilares fundantes da República de Palmares: organização, mobilização e luta, para reivindicar e conquistar nossos direitos. Viva a Zumbi, herói do povo brasileiro! Viva a unidade dos trabalhadores!

*Vereador do PSOL na cidade Bauru-SP e membro da Coordenação Nacional do Movimento Negro Socialista.

Texto: Danilo Lima / Imagem: Acervo Digital

Mais lagrimas, mais sangue, mais enterros, a marcha fúnebre prossegue. Os mortos mais uma vez são negros e os assassinos, mais uma vez, policiais militares.

5 jovens negros, inocentes, são fuzilados por policiais militares no Rio de Janeiro. Jovens que por pouco não foram incriminados pelos mesmos militares que tentaram forjar a cena do crime.

Estes fatos trazem a tona a urgente necessidade que temos em acabar com os chamados Autos de Resistência por meio da aprovação do projeto de Lei 4471/2012.

O auto de resistência é a justificativa do policial para o uso da força letal. Em outras palavras, quando um policial militar mata um individuo que, supostamente resistiu à prisão com força, a ocorrência é registrada como auto de resistência.

José Roberto chora a morte de seu filho de 16 anos, assassinado pela polícia junto com mais 4 amigos quando comemoravam o primeiro salário dele José Roberto chora a morte de seu filho de 16 anos, assassinado pela polícia junto com mais 4 amigos quando comemoravam o primeiro salário dele (foto: Guilherme Pinto/Extra).

Mas na pratica a medida é uma verdadeira licença para matar a juventude negra. Desse mecanismo decorrem os números absurdos de homicídios de jovens negros no Brasil, que permite também ao policial a possibilidade de incriminar as suas vítimas depois de mortas.

Vivemos no Brasil o pior dos cenários para população negra. Graças à competência e à resistência do movimento negro, todos sabem que são os pretos que estão em pior situação na pirâmide social. Que negros ganham menos, que são maioria nas favelas, que tem menos acesso à educação e que são as principais vitimas da violência policial.

Mas nem as mortes, nem as lagrimas ou as estatísticas parecem comover os racistas.

Seguimos denunciando a falsa abolição e a situação do negro cativo ao subemprego, preso aos grilhões da desigualdade e diariamente açoitado pelo racismo brutal em nossa sociedade.

Um alerta aos senhores e capitães do mato do pós-abolição: estamos cansados! O genocídio negro vai parar, por qualquer meio necessário.

O momento é de dor. Mas o desafio é transformar o luto em mais luta, até que sejamos libertos/as.

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Texto: Thamyra de Araújo / Edição de imagem: Vinicius de Araújo

Esses dias eu vi numa parede a frase "que feminismo é esse que quem lava a sua calcinha é uma mulher negra, sua empregada, em vez de você". Fiquei imaginando a situação (...) uma mulher branca de classe média indo trabalhar pensando em suas conquistas.

Ela ocupa um cargo de chefia em seu trabalho com vendas, uma conquista que lhe custou coragem, força e trabalho dobrado para mostrar para os colegas que era possível uma mulher, mãe e casada ocupar sim um cargo de chefia. Ela liga o carro em direção ao trabalho e pensa como é bom ser independente, não precisar do dinheiro do seu parceiro para viver, poder dividir tarefas, ter voz ativa na rua e em casa. Sorrir quando lembrar que por causa de lutas anteriores a dela, as mulheres conquistaram o direito de trabalhar e sua profissão hoje não é apenas a "do lar”.

Enquanto Kátia vai ao trabalho, sua casa fica aos cuidados de Maria, sua empregada doméstica, negra que trabalha de segunda a sábado, das 8h às 18hs. Além de Maria, Joana também trabalha para Kátia em meio período como babá de seu filho. Joana, assim como Maria, é negra e ambas sonham em alcançar a independência.

No Brasil, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2001), as taxas de desemprego são mais elevadas entre as mulheres negras. Senão bastasse, elas estão representadas nas formas mais precárias de emprego (com destaque para o serviço doméstico e para o trabalho familiar não-remunerado). 4% das trabalhadoras negras estão concentradas nas ocupações mais precárias e desprotegidas do mercado de trabalho, 18% são trabalhadoras familiares sem remuneração e 23% são trabalhadoras domésticas. Para as mulheres brancas, essas porcentagens são, respectivamente, 13,5% e 14%.

Análise da pesquisa da Fundação SEADE e DIEESE, feita pela Articulação das Mulheres Negras Brasileiras, revela que duas mulheres negras valem pouco mais do que uma mulher não-negra, quando se comparam seus salários. Em funções para as quais são exigidos determinados atributos estéticos, como vendedora, recepcionista e secretária, as brancas e amarelas estão de quatro a cinco vezes mais representadas do que as negras . Por trás das exigências de “boa aparência”, frequentemente existe uma resistência a aceitar trabalhadoras negras para esse tipo de função. Isso porque a estética negra e seu cabelo 'duro' estão associados ao feio e ao inconveniente.

As mulheres negras são vítimas de dupla discriminação - de gênero e de raça. São elas que morrem nas clínicas de aborto clandestinas e nas tentativas inseguras de aborto. É o corpo da mulher negra que é "satanizado", sexualizado e vendido como turismo sexual no Brasil e fora dele. Por outro lado, é a estética da mulher negra: boca grande, olhos grandes, quadris largos e cabelo crespo, que é oprimida diariamente pelas propagandas e outras produções audiovisuais que elegeram como padrão de beleza o corpo branco, magro e o cabelo liso.

Outro feminismo

O recorte de gênero não é suficiente para superar todas as violações de direitos contra a mulher do século XXI. "Mulheres precisam lutar juntas contra o machismo" (SIM!), mas que mulheres são essas? O que enfrentam no cotidiano? As mulheres negras além do machismo, sofrem com o racismo diário: racismo do homem branco, do homem preto e da mulher branca (que loucura!). Não podemos ignorar o recorte racial, já que existe uma diferença entre a correlação de forças da mulher branca e da mulher negra. Não se trata de lutar por revanche ou por uma subjugação de alguma das partes, se trata de entender que mesmo na condição de mulher, somos diferentes, com experiências diferentes, trajetórias diferentes e com demandas diferentes.

Outro feminismo, ou seja, uma nova forma de se pensar o feminismo só será possível quando, além de perceberem a diferença que existe entre elas, se tornarem sensíveis às demanda uma das outras. Isto é, o feminismo para não ser taxado de "feminismo branco", precisa incorporar as reivindicações das mulheres pretas na luta contra o machismo e contra o racismo. Sendo assim, as bandeiras "diga não ao machismo" e "diga não ao racismo" precisam andar juntas. Afinal o que importa é a luta, e ela é diária para todas!

Ai que enegrecer o feminismo!!!

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