Hamilton Borges, escritor, maloqueiro e quilombista, escreveu para o Alma Preta sobre as faces do genocídio negro em Salvador, descrita com a "Cidade Túmulo"

Texto / Hamilton Borges
Imagem / Divulgação

No sábado, dia 19 de janeiro, policiais militares das rondas especiais RONDESP, tumultuaram um jogo de futebol de várzea no Bairro de Portão em Lauro de Freitas, Região Necropolitana de Salvador, como diria meu amigo preto mineiro de velhorizonte, Ricardo Aleixo.

Esses policiais vestem marrom e são chamados de “os marrons” pelos pretos nas diversas comunidades segregadas de Salvador. Eles são violentos, sanguinários, cortam pescoços de vítimas, desaparecem com corpos, cometem chacinas e terror de Estado. No entanto, ou a propósito dos fatos, o Governo do Estado da Bahia, a cada ano os reforça com uma blindagem política e militar nunca vista desde a Ditadura de 1964. Os movimentos sociais, reféns do governo e de suas manobras eleitorais, simplesmente se calam e tentam empurrar goela a baixo a ideia de que ainda iremos enfrentar o tempo ruim com a ascensão do fascista Bolsonaro. Não basta indignação de rede social, precisamos combater de frente o medo e a traição.

A lama que todos os dias devora na Bahia a nós, os pretos e pretas, é a lama do esgoto fedorento da política da segurança pública que sai do palácio do governador. Os governadores da esquerda baiana, em seus sucessivos governos desde Jaques Wagner (apelidado de Polo pela Odebrecht), tem colocado os resíduos de suas escolhas políticas em prol da corrupção e da morte que circula em nossos locais de moradia, trajando uniforme e coturno, tingido com nosso sangue.

A privatização do sistema prisional, de um lado, visa o lucro com mais encarceramento. De outro lado, expõe que as prisões administradas pelo Estado são aquelas cujo histórico é de mais violência, privação e tortura. A inicitativa privada exige que noventa por cento das vagas do presídio deve ser ocupada pelos sujeitos dispensáveis que somos nós. Assim, a maioria dessa cifra é preenchida por usuários de crack, vendedores ambulantes de maconha e cocaína, soldados pobres de uma guerra forjada pelos deuses do consumo.

O que se vê nas pocilgas e masmorras dos presídios totalmente administrados pelo Estado é o abandono dos prisioneiros. Os presos devem enfrentar atendimento precário à saúde, alimentação escassa, desrespeito aos familiares, segregação imposta por facções.

A Corrupção policial corre sem nenhuma ação das instituições de controle. Há notadamente grupos de extermínios, grupos de esquadrão da morte. Vários casos de resistência, seguidas de morte aparecem sem a devida investigação, bastando apenas a palavra do policial completamente afundado em crimes e delitos para se parar uma investigação e jogá-las nas cifras ocultas do terror.

Todo empoderamento, amor, perdão, lacração, sorrisos felizes não lhe darão poder sobre as balas que atingem qualquer preto, por mais empreendedor que você seja. Qualquer viagem desesperada para esse paraíso tropical não afastará os pretos desta cidade da linha do tiro. A foto da cachoeira, da montanha, da praia de mar azul não interrompe a caminhada de nossa tragédia.

Eu queria ter essa habilidade de no verão dizer “se dane” para tudo isso que me rodeia, mas não tenho. É muito cruel a morte que nos traga e vai destruindo nossos corpos e nossa esperança.

Só temos um caminho realmente sincero e efetivo para uma mudança definitiva: tomar a rua com uma pauta própria e um método radical de luta contra o poder. Urge abandonar tudo que nos enfraquece. Precisamos exercitar a mira, preparar suprimentos e apontar o rumo. Só uma organização política e a formação de uma coluna de contra - poder deterá as forças armadas da branquitude que nos humilha e elimina.
Esqueça Wakanda e braços cruzados sobre roupas da moda. Aqui é guerra.

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