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A religião já precisou se adaptar, sob condições cruéis, para que o exercício da fé fosse de fato possível. Sinto que dessa vez, esse é mais um momento em que o culto ao orixá precisa se readaptar

Texto: Barbara Mariano | Imagem: Adeloyá Magnoni

É interessante refletir que muito embora a pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, se apresente como algo novo, que naturalmente modifica os modos de se organizar socialmente, o tal impedimento de cultuar a fé é algo rotineiro para os praticantes da religião.

No passado, em 1830, o Código Criminal do Império considerava crime qualquer culto de religião que não fosse cristã, compreendida pela elite como religião oficial do país. Sendo assim, religiões de matrizes africanas eram perseguidas e criminalizadas com suporte do Estado.

Não por coincidência e sim como mecanismo estratégico de sobrevivência, os terreiros passaram a se alocar nas regiões periféricas e no interior das matas, como uma tentativa de garantir segurança aos participantes e sobretudo ao exercício da fé.

Caminhando um pouco com a história é possível notar que o racismo religioso, travestido de ‘perseguição religiosa’, segue se fazendo presente e se respalda em argumentos cruéis e desumanizadores para se efetivar.

Em 1935 Nina Rodrigues, em sua obra “O animismo fetichista do negro baiano”, apresenta um estudo respaldado no método positivista para alegar que religiões africanas, praticadas majoritariamente por indivíduos negros (as), são mentalmente inferiores a religiões cristãs, praticadas majoritariamente por pessoas brancas.

Ocorre que em sua obra o autor se vale de argumentos científicos, evidente que falaciosos e ultrapassados, o que de certa maneira traz credibilidade ao estudo. Nina Rodrigues, a partir de sua obra sentencia a superioridade do monoteísmo cristão frente ao “animismo fetichista”, forma como o autor nomeava o Candomblé, das religiões africanas.

Para além da repressão ao culto religioso, aspectos da cultura afro também passaram pelo processo de proibição, como por exemplo, a capoeira e o toque dos atabaques durante as cerimônias religiosas foram proibidos e submetidos ao controle policial. De forma a consolidar as repressões citadas, a imprensa e a polícia da época atuavam como fiscais para garantir o cerceamento à liberdade de expressão da cultura africana.

Somente em 1938 foi eliminada a proibição ao toque de tambores a partir da organização dos movimentos negros, entretanto somente em 1976 foi oficializada a liberdade ao culto religioso.

Muito embora direitos aos cultos foram conquistados a duras penas através dos anos, não é incomum observar o racismo atuando cotidianamente nos corpos negros (as). Poderíamos escrever um extenso texto somente se pontuássemos os rotineiros casos de racismo religioso ocorridos no último ano.

Quando me propus a refletir acerca das formas de cultuar o orixá em tempos de pandemia, em um momento que devido às condições objetivas de saúde o culto a fé acaba por ser cerceado, me dei conta que os (as) praticantes das religiões afro de certa forma já se viram obrigados (as) a criar estratégias em diversos outros momentos.

Interessante refletir acerca da estrutura em que o racismo se instala a partir de suas diversas formas e dos diversos mecanismos que são utilizados para que ele se faça presente. O racismo, nesse momento de pandemia, se utiliza da Covid-19 para “justificar” o cerceamento do culto ao orixá, quando na verdade a liberdade religiosa e de cultuar a fé de origem afro, como bem visto, sempre foi cerceada.

A religião já precisou se adaptar, sob condições cruéis, para que o exercício da fé fosse de fato possível. Sinto que dessa vez, esse é mais um momento em que o culto ao orixá precisa se readaptar.

Evidente que esse não é um exercício fácil, sobretudo para uma religião que tem como um dos princípios a coletividade. Entretanto, o impedimento não se faz somente através da indicação de isolamento social que a pandemia exige, mas a readequação mencionada se faz sob o pano de fundo de um país cuja Covid-19 afeta de forma mais incisiva a população negra e periférica.

O impedimento de se cultuar a fé é experimentado por outros fiéis, como católicos e evangélicos, afinal o isolamento social é para todos (as), ou pelo menos deveria ser. Ainda assim, destaco que o cerceamento aparece como uma repressão histórica, pautada no racismo, e se intensifica em momentos como o que estamos vivendo.

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Foto: Instituto Moreira Salles/Reprodução

A partir do exposto até esse momento, é possível afirmar que o processo de embranquecimento, imposto pela classe dominante e sustentado pela noção da branquitude, consistiu no cerceamento dos cultos africanos, na demonização de suas crenças, na modificação das vestimentas, e na tentativa de retirada da identidade a partir de tudo aquilo que era característico dos povos africanos. O intuito, para além da exploração da mão de obra, era de desumanizar toda uma população a ponto de se acreditar que de fato esta era inferior, o que se tornou, posteriormente, em um programa de genocídio do povo preto na diáspora.

A operacionalização e fundamentação da pseudo inferioridade da população negra se deu e ainda se dá a partir dos constantes atos de apagamento e silenciamento de um povo. Impedir o exercício da fé historicamente foi uma significativa estratégia para efetivação dessa violência e, portanto, não surpreende que nesse momento de pandemia a população de terreiro sinta de forma mais acentuada tal cerceamento.

Nesse sentido, a dimensão religiosa dos povos africanos que vieram para o Brasil deve ser apreendida a partir da riqueza dos elementos religiosos ali presentes, denunciando a maneira na qual o racismo se expressa, visto que, historicamente, tende-se apagar e embranquecer as tradições étnicas e símbolos de resistência da população negra.

Compreendo ainda que estudar religião, que é objeto da construção sociocultural, é discutir relação de poder, transformação social, relação de classe, de gênero, de raça/etnia, enfim, é compreender que o sistema sociocultural é constantemente redesenhado e consequentemente redesenha sociedades de maneira constante.

De acordo com o censo publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Ensino (IBGE, 2010), o número de católicos declarados entre 1980 e 2010 veio decrescendo enquanto que aqueles que se declaram de religiões de matrizes africanas, mesmo que de maneira sútil, veio aumentando.

Infelizmente vive-se um período em que o catolicismo está em constante declínio, em contrapartida, igrejas neopentecostais tiveram um potencial crescimento a custo do ataque, sem trégua alguma, a religiões como Candomblé e Umbanda.

Por fim, considero que a discussão acerca do racismo e de suas diversas facetas deve ser constante e diária, vez que quando não nos dispomos a refletir acerca do assunto, não nos permitimos observar o entorno, nos observar e nos desconstruir.

Somente discutindo sobre racismo e compreendendo de maneira aprofundada a sociedade em que vivemos conseguiremos tratar o assunto com a seriedade que necessita e possivelmente romper com a lógica racista vigente.

Evidente que não tenho a pretensão de romper com essa lógica somente com esse texto, mas entendo que quanto mais nos dedicarmos a estudar a temática a partir de suas mais diversas representações e contextos, mais formas de enfrentamento serão possíveis.

Barbara Mariano é mulher negra, formada em Administração e Serviço Social, Candomblecista e uma aspirante a pesquisadora. O tema deste texto surgiu, para além de sua experiência de vida, da construção do projeto de conclusão de curso realizado em conjunto com Nathalia Prince.

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