Luana Tolentino, mestre em educação, descreve situação que mostra a importância de abordar escritores negros na sala de aula, ao contribuir “para a elevação da autoestima das crianças e adolescentes negras, cujos processos de formação da identidade são quase sempre marcados pela violência e pela dor”

Texto / Luana Tolentino*
Imagem / Arquivo pessoal de Luana

Paulo Freire nos ensina que devemos trabalhar na elaboração de práticas pedagógicas que despertem nas crianças e nos adolescentes o prazer pela pesquisa. Guiada pelas palavras do educador pernambucano, anotei no quadro o nome de uma série de escritores afro-brasileiros, dentre eles Machado de Assis, Conceição Evaristo, Lima Barreto, Cruz e Souza e Carolina Maria de Jesus. Sem revelar a pertença racial de cada um deles, pedi aos meus alunos e alunas do 6º ano que escolhessem um dos nomes que eu havia sugerido e realizassem uma pesquisa. Além de incentivar o ato de pesquisar, gosto de sempre que possível dar a eles autonomia durante o processo educativo.

O objetivo da atividade era mostrar aos estudantes a forte presença de homens e mulheres negras na literatura brasileira desde o século XIX e, desse modo, desconstruir a falsa ideia de que as produções literárias publicadas em nosso país são escritas somente por autores brancos e do sexo masculino. O trabalho objetivou ainda fazer com que as minhas turmas percebessem os sujeitos negros como pensadores e produtores de conhecimento, uma vez que, principalmente os meios de comunicação, insistem em apresentar os indivíduos de pele escura quase sempre em posições de subalternidade, alimentando o imaginário social de que é apenas esse lugar que os afro-brasileiros podem ocupar.

Ao adotar essa pedagogia, me insiro no duplo processo de questionar e apontar as práticas racistas difundidas pelas instituições de ensino, presentes também no currículo, que, por meio de suas bases fundamentadas sobretudo no pensamento europeu, nega aos estudantes a possibilidade de conhecer as trajetórias e contribuições históricas e culturais de homens e mulheres de ascendência africana.

O processo de silenciamento e apagamento a que os escritores negros têm sido vítimas dentro da escola e na sociedade como um todo, está presente nas palavras da Karen:

- Professora! Machado de Assis era negro? – Foi o que a minha aluna perguntou ao descobrir que o maior escritor brasileiro não era branco.

Certamente é a imagem embranquecida de Machado que foi apresentada à Karen nos livros didáticos. É também essa imagem que ela provavelmente viu na televisão. Expliquei à minha aluna que a omissão da origem racial do escritor carioca é uma forma de reforçar a visão equivocada e preconceituosa de que os negros não podem exercer funções de maior prestígio social.

Enquanto Karen ficou espantada com os resultados de sua pesquisa, Samara era só entusiasmo:

- Professora, Carolina Maria de Jesus era negra! – Disse a minha aula como se a descoberta dela fosse pioneira. Um verdadeiro achado!

- É mesmo? – Respondi.

- Ela era negra e morava na favela. Ela foi até presa! Depois virou uma escritora. Quando eu crescer, quero ser igual a ela! Quero ser Carolina Maria de Jesus! - Afirmou a minha aluna, convicta de que assim como Carolina, no futuro faria da escrita uma profissão.

Quando proponho as atividades, tenho domínio do que ensino, mas jamais posso prever de que maneira os meus alunos irão acolher aquilo que lhes é transmitido. Ainda que eu tivesse uma bola de cristal, jamais poderia prever que conhecer a história de Carolina Maria de Jesus pudesse fazer tanto sentido para a minha aluna.

As trajetórias de ambas muito se aproximam. Samara também é negra e moradora de uma favela da região metropolitana de Belo Horizonte. À época da realização dessa atividade, seu pai e sua mãe estavam presos. Desse modo, a garota de 12 anos viu no percurso da autora do livro “Quarto de despejo” a possibilidade de sonhar com dias melhores, apesar de todas as adversidades.

As reações tão distintas da Karen e da Samara ao realizarem as pesquisas sobre os escritores afro-brasileiros mostram que o combate ao racismo na escola não beneficia somente os alunos negros, os mais penalizados pelas atitudes discriminatórias, mas também a todos que estão inseridos nela, conforme nos diz o professor e pesquisador Kabengele Munanga (1999):

O resgate da memória coletiva e da história da comunidade negra interessa não apenas aos alunos de ascendência negra. Interessa também aos alunos de outra ascendências étnicas, principalmente branca, pois ao receber uma educação envenenada pelos preconceitos, eles também tiveram suas estruturas psíquicas afetadas. Além disso, essa memória não pertence somente aos negros. Ela pertence a todos, tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos cotidianamente é fruto de todos os segmentos étnicos que, apesar das condições desiguais nas quais se desenvolvem, contribuíram cada um de seu modo na formação da riqueza econômica e social e da identidade nacional. (MUNANGA, 1999, p. 16). 

Convém acrescentar que o resgate da memória coletiva e da história na comunidade negra, conforme exposto acima, contribui também para a elevação da autoestima das crianças e adolescentes negros, cujos processos de formação da identidade é quase sempre marcado pela violência e pela dor. Infelizmente, “do silêncio do lar ao silêncio escolar” (CAVALLEIRO, 2014), meninas e meninos negros têm sido massacrados por apelidos, agressões, xingamentos e representações que além de negar-lhes a humanidade, contribuem para o baixo desempenho na escola, e para que se tornem adultos inseguros.

A adoção de práticas de ensino antirracistas é condição necessária para o estabelecimento de uma educação democrática, pautada pela igualdade de oportunidades e pelo respeito à pluralidade étnico-racial existente dentro e fora da escola. Desse modo, cabe às instituições de ensino assumir o compromisso de combater as manifestações de racismo presentes no seu cotidiano. Para que as Samaras de todo o país sintam orgulho de sua negritude e possam sonhar com melhores condições de vida. Para que Karens respeitem, valorizem e convivam de maneira harmônica com a diversidade que as cercam.

*Luana Tolentino é mestra em Educação pela UFOP. Há 10 anos é professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana da cidade. Suas práticas pedagógicas partem do princípio de que é preciso construir uma educação anti racista, feminista e inclusiva, comprometida com o respeito, com a justiça e com a igualdade.

Fontes: 
CAVALLEIRO, Eliane. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil. São Paulo: Contexto, 2014.

Literafro - o portal da Literatura Afro-brasileira. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/. Acesso: 25 jul de 2018.

MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 1999. p. 15-21.

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