Ariel Freitas e Camila Silva* escreveram artigo para pensar a beleza nos corpos negros

 "Perceber como bonito algo negro é uma pedra que nos atinge. E como atinge…"

Quantas vezes vocês já ouviram que beleza é um gosto pessoal e cada indivíduo tem o seu? Aposto que escutaram em incontáveis momentos. Escurecendo desde cedo: a intenção desta publicação não é impor o que devemos considerar belo ou não, mas apresentar as problemáticas de um discurso tão raso.

Essa linha de raciocínio é falha e bem preguiçosa pelo simples motivo de estarmos inseridos em uma sociedade capitalista que sempre apoiou-se em pilares racistas para não desestruturar o seu sistema. Com isso em mente, a estética do que é considerado digno de beleza sempre foi direcionada aos corpos brancos, pois o risco de desequilibrar a balança apresentando negros como referência nessa área era algo desnecessário.

Se o mundo conecta a imagem de algo bonito como sinônimo branco, automaticamente a nossa cabeça estará alinhada com isso, sem ao menos se questionar nos porquês.

Não estão achando isso desesperador? Então, vamos fazer um exercício. Imaginem a cena: você é uma criança negra que a todo momento está sendo bombardeada de estímulos visuais onde tudo é branco. Atores, modelos, artistas, personagens de desenhos… Tudo!

Com o passar do tempo, você começa a questionar se a tem algo errado contigo, pois não consegue se ver representado em quase nada. A semente do desejo de parecer igual aos demais é plantada em você. E agora? O que fazer?

Tentar embranquecer a pele lavando com sabão de lava roupas porque alguém disse que ajudaria? Diminuir suas características negras, como o nariz, com objetos tipo prendedor de roupas? Raspar o cabelo porque o seu é considerado feio ou exótico? Esconder suas orelhas com medo de compararem com frutos de uma árvore que são chamados de orelha de macaco? Ser uma pessoa quieta na escola até que pensem que você é mudo porque tem medo que te notem? Ou mandar tudo isso para o ar e ser o cara violento da turma, pois com o valentão ninguém se mete?

Essa poderia ser a história de qualquer outro preto que está lendo este texto, mas é apenas a minha trajetória no ensino fundamental. Porém, o texto de hoje está focado no nós e na pluralidade e manteremos isso até o final.

Esse cenário é complicado, pois até quando somos considerados dignos de elogios por nossa aparência existem inúmeras problemáticas atrás disso.

Homens negros nos conceitos de uma beleza branca

Nos últimos anos percebemos uma atenção maior das grandes mídias, como emissoras de televisão, universo cinematográfico e até no cenário musical nos corpos negros. A exaltação desses meios é super importante porque traz a representatividade que foi citada no início, mas até que ponto é realmente uma representação de algo que nunca foi representado?

A maioria dos corpos que ganham atenção nesses moldes seguem o padrão idealizado por uma cultura eurocêntrica e o sobre o que eles esperam de nós, homens negros. Exemplos? Temos vários.

Nas televisões, os atores que aparecem sempre carregam consigo o estereótipo de homem violento, vagabundo ou infiel. Nós não podemos considerar isso uma representação, pois afeta diretamente a nossa imagem e o conceito que nossas crianças estão construindo sobre si.

No universo cinematográfico, o filme Pantera Negra trouxe um elenco repleto de atores negros e muita gente se sentiu representada. Porém, nós precisamos pensar no tipo de beleza e corpo ideal que eles trouxeram: homens negros com muitos músculos e com muitas cenas sem um tipo de figurino no corpo — podemos chamar de objetificação e representação de homens negros que não são reais. Por acaso, vocês lembram de algum ator plus size? Se sim, quantos?

No cenário musical a história é a mesma… Se for no ramo musical do rap, os artistas, no primeiro momento, necessitam demonstrar um perfil agressivo e polêmico nas letras. Caso ao contrário, não terão espaço no cenário. No pagode, uma boa parcela precisa reproduzir estereótipos racistas em sua música e por aí vai.

O resultado disso está aí: homens negros sendo chamados de bonitos por terceiros, mas não conseguindo enxergar a tal beleza em si.Desculpa por sair do plural de novo, mas é foda procurar um pedaço de belo quando se olha no espelho só para comprovar para si que os comentários de quem te elogia é verdade.

Mulheres negras e as amarras cruéis de um padrão estético branco

“Tenho dificuldade de me achar bonita sem maquiagem e com o cabelo natural” - Camila Silva

Era uma quarta-feira. Fazia frio em Porto Alegre e eu tinha um show para ir da maravilhosa Larissa Luz. Entretanto, havia esquecido minha bolsa de maquiagens no trabalho, cogitei não sair de casa naquela noite. Esse foi apenas um dos dias em que me questionei sobre a minha dificuldade de enxergar beleza, principalmente, no meu rosto “limpo”.

Vale ressaltar que, sou uma mulher negra de pele clara, porém, meu nariz é largo, meus lábios são grossos e o meu cabelo é crespo e armado. Ao me olhar no espelho parece que, a soma desses fatores, altera sim o resultado. Já que isso não ocorria quando meu cabelo era alisado — passei pela transição capilar há três anos.

A minha visão é bem pessoal, esses são fatores que me fazem ter dificuldade de me achar bonita, entretanto, a discussão é universal entre mulheres negras.

Por que temos dificuldade de enxergar beleza em nossos rostos e corpos? Eu sei, você sabe, o Ariel que assina este texto junto comigo também, nós sabemos. O padrão é branco e europeu. Nos últimos anos, enfrentamos uma série de processos — ligados principalmente à aceitação do cabelo natural — que auxiliaram pessoas negras a enxergarem a sua beleza.

Porém, apesar de termos avançado muito nessa questão, sabemos que esse processo é lento e gradual. Nas últimas semanas, viralizou nas redes sociais uma sugestão de busca no Google, com uma proposta simples: digitar tranças feias e tranças bonitas na aba de pesquisas. O resultado? As de pessoas negras são feias e de pessoas brancas são bonitas. O que comprova que ainda temos muito no que avançar em relação aos cabelos naturais.

Os padrões de beleza sociais são reproduzidos nas produções midiáticas, que possuem grande influência na formação de opiniões das pessoas. Como achar um nariz largo bonito se as modelos, as atrizes, as apresentadoras de televisão tem um nariz fino? Como achar bonito o cabelo crespo natural se por anos fomos ensinado que bonito é o cabelo liso e escorrido? Apesar de sermos a maioria da população.

Desde pequena aprendi que cabelo com muito volume é feio, errado, fora dos padrões. Diariamente tenho que fazer um exercício para ir contra o que me foi imposto por, pelo menos, 20 anos da minha vida. É difícil. Nós precisamos falar sobre isso.

A estética é um dos principais mecanismos de “empoderamento” (uso aqui a palavras entre aspas, pois é uma expressão correta que foi banalizada). Além de enxergamos beleza em nós, é preciso observar nos homens negros.

O astro do filme Pantera Negra Michael Jordan é utilizado em postagens, matérias, conteúdos publicitários como referência de estética. Entretanto, ele tem um rosto e um corpo “padronizado”, o perfil que pessoas brancas consideram aceitável e fetichizado. Mas e quanto aos homens negros que não têm corpo padrão, usam cabelo natural, tem a pele retinta?

Até entre nós, pessoas negras, é preciso desconstruir o padrão ideal, que em geral está ligado a traços finos e corpos magros e rever as nossas referências. Se a maioria de nós não descende de europeus, não têm o mesmo fenótipo e genótipo que essas pessoas, por qual motivo elas seguem sendo nossas referências?

Na noite em que finalizava este texto, estava lendo “Todos contra Todos”, livro do historiador Leandro Karnal. Apesar de ser um homem branco, abrirei uma cota nesse texto para ele, pois o trecho vai de encontro com a proposta desta publicação:

O Brasil ser o país do cabelo liso como padrão de beleza diz muito sobre nós, como diz muito o fato de escolher como símbolo da beleza nacional, na Olimpíada do Rio, uma mulher como Gisele Bündchen.

É nossa uber model, linda e extremamente profissional e competente no que faz. Mas quando decidimos pegar uma exceção — uma mulher bonita de origem alemã — para simbolizar beleza nacional é porque a nossa identidade estética ainda é estrangeira, baseada num determinado modelo do norte da Europa.

Como leitura complementar recomendo o texto “Somos feias, mas estamos aqui” da escritora estadunidense de origem haitiana Edwidge Danticat.

É complicado para nós porque até quando somos considerados bonitos precisamos absorver características brancas em nossas características.

*Ariel Freitas e Camila Silva fazem parte do coletivo Movimento Negritude nas Mídias (MONEMI), um espaço onde negros da capital da desigualdade racial — vulgo Porto não tão Alegre assim — debatem sobre questões de racismo na sociedade.

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