Francy Silva é autora da tese que discute o conceito de “Ferocidade Poética” a partir da análise de contos das escritoras Conceição Evaristo, Miriam Alves e Cristiane Sobral

Texto / Redação
Imagem / Divulgação

Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa, Francy Silva se prepara para mais uma aventura na carreira acadêmica: levar para os Estados Unidos sua tese em que discute o conceito de “Ferocidade Poética” a partir da análise de contos das escritoras negro-brasileiras Conceição Evaristo, Miriam Alves e Cristiane Sobral.

Silva foi convidada para participar do 37º Congresso Lasa - Nuestra América: Justice and Inclusion, em Boston, Massachusetts (EUA), entre os dias 24 a 27 de maio. Lá ela fará exposição da tese "Corpos dilacerados: a violência em contos de escritoras africanas e afro-brasileiras". 

Para cruzar as Américas, Silva iniciou uma campanha de financiamento coletivo. A doutora também escreveu ao Alma Preta sobre a sua trajetória e sobre a importância deste momento em sua vida. Confira o texto abaixo:

AJUDE UMA PESQUISADORA NEGRA A VOAR MAIS ALTO

Aos nove anos de idade, eu era a única menina, entre um grupo de meninos que vendiam frutas no asfalto. “Olha a pinha aí, tia! Olha a pinha!”, dizia. Aos onze anos, de manhã bem cedo, buscava a vasilha cheia de leite na fazenda vizinha, colocava no carrinho de mão e saia gritando de porta em porta: “olha o leite, olha o leite!”.

Aos doze anos, acordava todos os dias às cinco da manhã para ir vender café, bolo, salgadinhos. Madrugava para atender minha clientela fiel, homens e mulheres que, antes do sol nascer, partiam para o trabalho estafante nas fazendas alheias.

Aos treze anos, trabalhei num bar minúsculo de um amigo da família. Trabalhava vendendo bebidas a homens-velhos-cansados, amargurados homens que se afogavam no álcool, fugindo de um horizonte sem perspectivas.

Aos quatorze anos, trabalhei vendendo frutas e verduras na feira, debaixo de um sol escaldante. O dinheiro das vendas era para ajudar a pagar as contas de casa, mas rezava baixinho para sobrar algum trocado que desse para eu comprar um caderno de capa dura com adesivos e folhas perfumadas. Guardava bem escondido o meu sonho mais audacioso: ter uma calça jeans.

Aos dezesseis anos, lecionava numa escolinha infantil pela manhã, cursava o Magistério à tarde e dava aulas num programa de alfabetização de jovens e adultos durante a noite. Aos dezessete anos, passei a trabalhar doze horas diárias como atendente do caixa de um supermercado.

Aos vinte anos, comecei a graduação em Letras na UESC. Primeira pessoa da imensa família materna e paterna a entrar numa universidade. Conciliava a graduação com quarenta horas de trabalho semanais em duas escolas públicas. As águas correm nos mares agitados da história: Graduação, Mestrado, Doutorado.

Formação, informação, país em colapso. Mais uma doutora desempregada. Sem tempo para desespero. Há de ser uma crise passageira. As oportunidades irão surgir. “Olha a oportunidade, olha a oportunidade”. Palestrar em um congresso nos Estados Unidos. Oportunidade de defender a causa que tanto me mobiliza: falar da produção literária de escritoras afro-brasileiras para pesquisadores e pesquisadoras de várias partes do mundo.

Pesquisadora-militante ecoando a insubmissa negra-voz na terra do Tio Sam. Oportunidade grande, grana curta. Sem dinheiro para custear a viagem, pensei em desistir. “Não desista. Peça ajuda! Faça uma campanha de financiamento coletivo”, me disse uma querida amiga.

“Você é uma doutora, não tem vergonha de pedir? Isso é feio. É humilhante”, me disse uma (des)conhecida. É vergonha pedir ajuda?, perguntei. Mãe respondeu com a altivez de quem tantas vezes ‘comeu o pão que o Diabo amassou’: “Oxe! Vergonha de quê? Deixa de bestagem. Melhor pedir do que roubar. Vergonha é ser desonesto”.
Com a mesma altivez que vendia fruta no asfalto, lanche aos operários, cachaça aos bêbados, eu peço ajuda para dar mais um grande passo em minha trajetória. Com a mesma altivez que defendi a minha tese de doutorado, aprovada com louvor, eu peço ajuda para realizar um sonho bonito.

Enquanto escrevo essas linhas de resistência, a recordação de Vó Carminda me toma por inteira. A despeito do contexto de carências no qual vivíamos, Vó insistia na esperança e enxergava em mim um horizonte de expectativas: “Você vai longe. Mais longe do que pode imaginar”, ela dizia. Vó, ausência presente em mim - a quem dediquei a minha tese - me incentiva a prosseguir. Encorajada por Vó, acolhida por Mãe, sigo altivamente. Semente germinando frutos.

Como ajudar

No site da campanha de financiamento, o/a colaborador/a pode doar qualquer valor a partir de R$ 5, através de cartão de crédito ou boleto.

As doações também podem ser feitas diretamente em minha conta bancária:
Banco do Brasil | Favorecida: Franciane Conceição Silva
Agência: 1673-X | Conta corrente: 9874-4

Caixa Econômica Federal | Favorecida: Franciane Conceição Silva
Agência: 1558 | Conta Poupança: 65064-0 | Oper: 013

Conta Paypal: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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