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Na data em que uma das maiores lideranças antirracistas do mundo completaria 95 anos, em artigo o historiador Henrique Oliveira faz uma análise de como os jornais brasileiros repercutiram de forma racista a morte violenta

Texto: Henrique Oliveira* | Imagem: Three Lions/Hulton Archive/Getty Images

Neste dia 19 de maio de 2020 completam-se 95 anos de nascimento de Malcolm X, batizado como Malcolm Little em 1925, na cidade de Omaha, no estado de Nebraska, EUA. Malcolm foi o quarto entre os oitos filhos da dona de casa Louise e do pastor da Igreja Batista, Earl Little. Desde muito cedo Malcolm e sua família experimentaram o terror racial da supremacia branca. Em 1926, eles tiveram que se mudar após receberem ameaças e terem a casa incendiada por membros de um grupo chamado “Legião Negra”, uma espécie de Klu Klux Klan, do estado de Nebraska. O atentado foi uma represália aos sermões a favor da igualdade racial que seu pai realizava.

A família de Malcolm fugiu primeiro para Wisconsin e três anos depois para uma fazenda em Michigan, onde os vizinhos eram todos brancos e venceram uma ação judicial que exigia que a família se mudasse para uma região onde só houvesse negros. A família se recusou e a casa foi novamente incendiada. O pai de Malcolm pediu ajuda à polícia, mas acabou preso acusado de forjar o incêndio para fraudar um seguro do imóvel. Em 1931, o corpo de Earl Little foi encontrado mutilado nos trilhos de uma estrada de ferro. Sem nenhum tipo de investigação as autoridades concluíram que ele se suicidou.

A perseguição racial contra a família do ativista negro era uma das consequências do período denominado como “Verão Vermelho”, quando milhares de afro-americanos foram mortos em uma onda de linchamentos, assassinatos e incêndios de suas casas, o que fez grande parte da população migrar para a região norte dos EUA, nas primeiras décadas do século XX.

Aos 17 anos, Malcolm começou a alisar o cabelo e a pintá-lo de vermelho. Sem perspectiva de vida dada a brutalidade do racismo, ele se envolveu com gangues de roubo, tráfico de drogas, prostituição e jogos de azar e ganhou o apelido de “Red”. A vida no crime o levou à condenação de dez anos de prisão em regime fechado. Dentro da cadeia, Malcolm conheceu a Nação do Islã através dos textos de Elijah Muhammad, líder da religião nos EUA. Após cumprir seis anos e meio da pena, o ativista foi solto e se tornou membro da Nação do Islã, transformando a sua percepção sobre ser negro deixou de alisar o cabelo e adotou o X para simbolizar a sua identidade desconhecida, deixando para trás o sobrenome Little, o qual ele dizia que foi dado por aqueles que escravizaram os seus ancestrais.

O assassinato nos jornais brasileiros 

“Líder extremista” e “racista” foram os termos utilizados pelos jornais brasileiros para descrever Malcolm X quando o ativista foi assassinado enquanto discursava no Harlem em 21 de fevereiro de 1965. Ao pesquisar o acervo digital de periódicos disponibilizado na Hemeroteca Digital Brasileira, da Coleção Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional, é possível perceber como os jornais brasileiros repercutiram o assassinato de uma das maiores lideranças negras antirracistas do século XX, bem como as notícias foram construídas permeadas pelo racismo para desmoralizá-lo.

A maioria dos jornais presentes no acervo digital, no entanto, não noticiaram a morte de Malcolm X. Alguns por não terem edições no período, outros por não terem dado a devida importância. Apesar de nas décadas iniciais do século XX, o estado de São Paulo ter tido uma imprensa negra composta por publicações como O Kosmos, O Alfinete, O Propugnador, A Sentinela e O Menelik e A Rua, cujas edições não ultrapassaram a década de 1930. Os jornais que publicaram notícias referentes ao assassinato de Malcolm X eram dos estados do Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

jornal Diário Carioca de 23 de fevereiro de 1965

Edição de 23 de fevereiro de 1965 do jornal Diário Carioca. (Foto: Coleção Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional)

Paraná

O jornal Correio do Paraná, que se apresentava como um órgão do Partido Liberal Paranaense, não chegou a noticiar a morte de Malcolm X em si, mas no dia 3 de março de 1961 publicou uma matéria sobre a realização de um comício da Nação do Islã em Chicago, com a seguinte manchete: “Muçulmanos de cor realizaram comício monstro em Chicago”.

A matéria, que parece ter sido traduzida de alguma agência norte-americana, diz que a seita política-religiosa defendia a separação de brancos e negros, além de atacar a integração racial. O texto diz ainda que a Nação do Islã preocupava a polícia dos EUA por propagar “ódio contra brancos” e que era uma espécie de “Klu Klux Klan negra”. Segundo a matéria, Malcolm X, chefe do movimento em Nova York, fez a abertura do comício e apresentou Eiljah Muhammad ao público.

Já o jornal Diário do Paraná publicou no dia 23 de fevereiro de 1965 que o assassinato do ativista abriu uma guerra entre negros em Nova York, e se referiu ao caso como “os partidários do líder extremista negro Malcolm X assassinado anteontem”. A matéria basicamente deu mais enfoque na divisão ocorrida no seio da comunidade negra muçulmana do que no assassinato do ativista.

No dia seguinte, 24 de fevereiro de 1965, o Diário do Paraná publicou uma matéria da agência de notícias United Press International com o seguinte título: “Seguidores de Malcolm X iniciam represália contra negros da seita muçulmana”. Segundo o texto, “aparentemente para vingar o assassinato do líder racista negro Malcolm X, foram provocados incêndios em duas mesquitas”. No dia 2 de março, o mesmo jornal publicou uma coluna sobre o sepultamento do líder antirracista, com informações sobre o local do funeral e o não comparecimento dos filhos e de dois irmãos de Malcolm.

Rio de Janeiro

No estado do Rio de Janeiro, o consagrado JB, Jornal do Brasil, no dia 23 de fevereiro de 1965, publicou uma matéria sobre a prisão de Thomas Hagan como suspeito do assassinato. O texto trazia a manchete “Negro preso pela morte Malcolm X”“Um jovem negro de 22 anos, Thomas Hagan, foi preso ontem como culpado do assassinato do líder extremista dos muçulmanos negros Malcolm X, junto com outras cinco pessoas implicadas no crime cometido domingo durante um comício”.

No dia 24 de fevereiro de 1965, o JB publicou uma coluna acerca dos incêndios que ocorreram nas mesquitas. “Duas mesquitas dos Blacks Muslims foram destruídas ontem por incêndios provocados em represália ao assassinato do líder extremista negro Malcolm X”. No dia posterior, 25 de fevereiro, o mesmo jornal republicou uma matéria da United Press International sobre as ameaças que Elijah Muhammad sofria em decorrência da morte de Malcolm X, com a manchete “Líder dos maometanos pretos marcado para morrer amanhã”.

O JB encerrou a cobertura do assassinato do ativista no dia 26 de fevereiro com uma abordagem das investigações policiais sobre a existência de um suspeito, além da vigilância realizada pela polícia ao corpo de Malcolm, que havia recebido mais de 7 mil visitas nas 48 horas posteriores ao assassinato.

O Jornal do Comércio republicou uma matéria da agência de notícia Reuters com o seguinte título: “Negros fanáticos nos EUA deixam cidades sob tensão”. A notícia fazia referência às ameaças que Elijah Muhammad sofria daqueles que prometeram retaliação pelo assassinato de Malcolm X. No dia 23 de fevereiro de 1965, O jornal também republicou uma matéria da agência United Press International que repercutia o assassinato de Malcolm, mas que também falava sobre as ameaças de morte que Martin Luther King sofria: “Pastor King jurado de morte e terror negro à solta no Harlem”

Segundo o texto, Elijah Muhammad disse que “sua agremiação era inocente na morte do líder racista Malcolm X”, que o ativista “morreu de acordo com suas previsões pela mesma violência que preconizava”, e que por isso ele havia sido expulso do movimento quando era chefe de uma mesquita em Nova York. Sobre Martin Luther King, o texto diz que ele recebia várias cartas com ameaças de morte enviadas às lideranças do movimento pelos direitos civis no Alabama.

O jornal Correio da Manhã, na coluna “Internacionais”, trouxe uma foto do momento em que Thomas Hagan foi preso pela polícia após deixar o ginásio em que Malcolm X discursava quando foi assassinado. “A polícia de Nova York prendeu o negro Thomas Hagan, de 22 anos, acusado de haver baleado, domingo, nessa cidade, Malcolm X Earl Litter, mais conhecido como Malcolm X, líder racista negro, presidente – fundador da Unidade Afro Americano”.

O jornal Última Hora, na página seis em 22 de fevereiro, publicou a manchete “Malcolm X abatido a tiros num comício em Nova York”. A matéria afirmava que “o ex dirigente da seita dos muçulmanos negros, Malcolm X, foi assassinado ontem durante um comício em Nova York. Segundo um dos organizadores da reunião, três balas de revólver alcançaram Malcolm X na cabeça quando pronunciava um discurso perante quatrocentas pessoas”.

Rio Grande do Sul

O jornal Diário de Notícias, no dia 24 de fevereiro de 1965, trouxe a manchete “Incêndios em duas mesquitas nos EUA para vingar líder negro morto”. Essa foi mais uma matéria cuja fonte foi a United Press International, que dizia “aparentemente para vingar o assassinato do líder racista negro Malcolm X, foram provocados incêndios em duas mesquitas do movimento muçulmano negro”.

Por sua vez, o jornal O Dia, em 22 de fevereiro de 1965, publicou a manchete “Assassinado o líder dos negros muçulmanos dos Estados Unidos”, cuja fonte foi a agência francesa Agence France Presse (AFP), dizendo: “foi assassinado domingo no Harlem o líder negro norte americano, conhecido por sua posição radical na questão racial, Malcolm X. Continuam as investigações sobre a morte do líder extremista dos muçulmanos negros, Malcolm X, morto quando ia pronunciar um discurso”.

* Henrique Oliveira é historiador e militante do coletivo negro Minervino de Oliveira, em Salvador, na Bahia.

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