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Texto: Karine Lima / Edição de Imagem: Pedro Borges

Ser negra no Brasil é renascer há cada segundo, pois a única coisa que temos certeza no nosso dia é que um olhar retorcido com certeza vai te penetrar, se caso tiver “sorte”. E eu digo ter sorte, pois os maus tratos são tão grandes que nos faz pensar que o olhar, se comparado com as outras formas de racismo, passa pela gente com menos dor. Não nos demos conta, no entanto, que o nosso inconsciente está ali e essas marcas estão sendo bem registradas por ele.

Por mais forte que sejamos não é fácil engolir um olhar ou uma fala sem que isso te atinja. Os traumas vão ficando “armazenados” e o que faremos com ele futuramente não sabemos. Talvez tenhamos a capacidade de ressignificar, mas não sou tão otimista assim. Não que eu não acredite que esse “milagre” aconteça, mas se ele realmente acontece, com toda certeza é com uma porcentagem muito baixa.

Ser mulher negra no Brasil é estar preso ao período escravocrata em que a mulher negra era destinada e associada apenas aos cuidados da casa grande e ao sexo. Após a abolição sem outras opções de trabalho a mulher foi obrigada a voltar para as casas de família, com a única diferença é que não eram mais escravas, no entanto os maus tratos acompanhados de humilhações e indignidade permaneciam e permanecem até hoje. Além disso, o estereótipo associado ao sexo e a sensualização da imagem se perdura, basta ligar a televisão em épocas de carnavais para ver que a bunda vale muito mais que a mente.

A própria existência já é um desafio, pois cada lugar novo e cada pessoa nova exigem novas estratégias de aceitação. Sim, é muito triste dizer isso, mas realmente é isso o que acontece. Em um ambiente de trabalho, os olhares e as cobranças estarão sempre voltadas para você, prontos para gargalharem do primeiro deslize, prontos para falar a famosa frase: “tinha que ser preta”, mal sabendo eles que tinha que ser mesmo, e somos felizes por ser.

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Por fim, ser negra é transgredir padrões, é ser original, é resistir para existir, é ter força, e acima de tudo é lutar contra o sistema.

“(...) O sistema pode até me transformar em empregada, mas não pode me fazer raciocinar como criada; Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo, as negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo; Lutam pra reverter o processo de aniquilação que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão; Não existe Lei Maria da penha que nos proteja, da violência de nos submeter aos cargos de limpeza; De ler nos banheiros das faculdades hitleristas, Fora macacos cotistas;(...)” Yzalú – Mulheres Negras.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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