Ariel Freitas é jornalista, ativista, escritor e rapper. Cria das ruas estreitas da Vila Estrutural em Porto Alegre, escreveu sobre os impactos do racismo em seu cotidiano

Texto / Ariel Freitas | Imagem / Reprodução

Há pouco tempo reencontrei um amigo da minha infância. Sabe aquelas amizades que a cada dois anos se encontram por aí e comentam sobre as novidades da vida? O nosso vínculo se encaixa perfeitamente neste tipo de caso. E seguindo o roteiro, eu comentei com ele sobre a minha, expliquei que é complicado andar pelos lugares públicos depois que a fama chega. Meu conhecido me olhou, encarou e deu risada! Com tons de deboche disse que era mentira ou que o ego tinha consumido a minha cabeça. Então, com toda calma do mundo, perguntei para o meu amigo: cara, os lugares que tu frequenta têm câmeras na sua direção e seguranças ao teu redor? Anda comigo em supermercado, shopping ou festa e verás provas da minha fama!

Esse primeiro parágrafo carrega o peso de um episódio comum na vida de um negro no Brasil: a sensação de perseguição em estabelecimentos comerciais. Câmeras que “automaticamente” direcionam-se para o seu local, vozes incessantes sendo chiadas pelo equipamento de comunicação dos profissionais de segurança e um pensamento agoniante na sua cabeça: eu preciso parecer inocente.

Por quê? Se nós não cometemos nenhum tipo de infração ou crime, por que essa angústia nos persegue? A resposta é simples, mas os motivos desse pensamento estar enraizado na nossa população não. 

O projeto de racismo estrutural no Brasil foi muito bem consolidado, pois os arquitetos dessa obra não brincaram em serviço nessa produção. O resultado foi tão satisfatório que a ideia de andar como um inocente é uma tarefa árdua de desconectar do nosso ser – até para pessoas mais politizadas e instruídas nas questões raciais.

Eu cresci nas ruas estreitas da Vila Estrutural, no bairro Morro Santana, Zona Norte de Porto Alegre. Com a morte precoce do meu pai por negligência hospitalar/racismo, onde o médico se recusou a realizar o exame de raio X, e isso literalmente resultou no seu falecimento por ruptura abdominal. Minha família recebeu depois de anos de processo um dinheiro que possibilitou a compra do apartamento que moro atualmente.

Um bairro bem localizado na capital dos gaúchos. Porém, sempre que os meus amigos do meu antigo bairro vêm para cá, eles evitam entrar sem a minha presença lá na frente do portão porque o pensamento de “vão pensar que eu sou bandido” os acompanha desde que pegam o ônibus para chegar até aqui.
Essa situação se repete em outras histórias que não são as minhas e nem as dos meus conhecidos.

Em um verso do Emicida, ele explica a situação de uma forma direta: Cê sabe o quanto é comum dizer que preto é ladrão antes memo da gente saber o que é um. A tristeza dessas linhas da música “Cê Lá Faz Ideia” é um impacto gigantesco na cabeça de uma criança que ainda busca conhecer suas características e gostos. Sem saber o significado do que é ser bandido, ela já carrega os sinônimos da palavra no seu cotidiano por causa da sua aparência. 

Como todo dilema, esse de parecer inocente é difícil de resolver. As questões envolvem muitos pilares que ainda estão firmes na estrutura do sistema capitalista e racista que administram o país. Porém, mais do que nunca, é importante cuidar da saúde mental das nossas crianças desde pequenas incentivando um olhar diferente sobre os lugares que estão inseridas. Talvez, assim, elas consigam ter uma vida semilivre dos impactos de uma cultura racista, pois depois de adultos é complicado demais solucionar esse problema. Sim, utilizo a palavra semilivre porque as estruturas da desigualdade racial ainda vão continuar por um bom tempo. Infelizmente.

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