Eventos sociais da capital baiana retratam contradições de cidade majoritariamente negra, historicamente governada por brancos

Texto / Redação I Imagem / Valter Pontes/Secom

A história conta que nos séculos 18 e 19 cerca de 90% da população de Salvador era negra. A maior parte escravizada, mas haviam alguns homens libertos, que costumavam fazer parte de coletivos como a Sociedade Protetora dos Desvalidos ou Irmandade dos Homens Pretos. Eles muitas vezes eram consultados ou participavam de alguma forma da vida política, uma forma encontrada pelos brancos para validar o status quo e manter o poder.

Os anos passaram e a situação parece não ter mudado. Em 2020, a população negra de Salvador chega a cerca de 80%. Prefeito branco e seu secretariado idem. No governo do Estado a situação não muda muito. Na Assembleia Legislativa, a primeira e única mulher negra foi eleita em 2018: Olívia Santana (PCdoB). A população negra continua sendo governada pelos brancos e escanteada das decisões, espaços de poder e política. O prefeito Antônio Carlos Magalhães (ACM) Neto (DEM) tem feito um esforço hercúleo para transformar a cidade em canteiro de obras e eleger seu vice Bruno Reis (DEM) como sucessor e se eleger governador em 2022.

Ele conseguiu o feito de fazer o Centro de Convenções Salvador em 15 meses. A cidade não tinha um espaço para receber grandes eventos de negócios. O local que fica na Boca do Rio, à beira mar, será gerenciado pela empresa francesa GL Events e tem 38 mil metros quadrados construídos numa estrutura que parece de um shopping. O espaço abriga até 14 mil pessoas na área interna e custou R$ 130 milhões.

A inauguração para convidados ocorreu no último 23 de janeiro e para o público geral em 26 de janeiro. A festa para convidados reuniu cerca de 1 mil pessoas, representantes dos 20% de brancos da cidade - como tantas outras feitas pela elite política e econômica da cidade. É verdade que tinha alguns poucos negros por lá, entre eles dois dos cantores mais famosos da cidade e dois presidentes de blocos afros. Eles não estão nominados por não serem os alvos da crítica desse texto, mas pareciam estar ali apenas para validar tudo e ser uma espécie de cota. Parece não haver empresários e mais pessoas negras relevantes na sociedade soteropolitana que pudessem estar naquele espaço.

Quem servia, é verdade, eram pessoas negras. Mulheres com o vestido preto e o avental branco, lembrando as cenas de “casa grande” de século passado. Também tinha uma orquestra acompanhada por berimbaus, com vários músicos negros. O prefeito fez coletiva de imprensa, liderou a queima de fogos e fez um discurso no palco de cerca de 40 minutos, a la Fidel Castro. ACM Neto citou versos da música “we are carnaval” e “canto da cidade”, lembrou do avô, Antônio Carlos Magalhães que dá nome ao centro de convenções, assim como a uma das mais importantes avenidas da cidade a um bairro.

Na coletiva de imprensa, nenhum veículo questionou o fato dele dar o nome do espaço ao avô e não a Luiz Gama, Mãe Stella de Oxóssi ou qualquer figura negra que tenha feito história na cidade. “(O Centro de convenções) Não é vitrine para contemplação de poucos, mas oportunidade para que toda a população tenha melhores condições”, garantiu Neto em seu discurso, tentando contradizer todas as mensagens que a própria festa e o lugar passavam.

Entre os jornalistas somente pessoas brancas, assim como ocorre na TV Bahia, a Globo local, da qual Neto tem participação. Até houve um esforço de aumentar o número de repórteres negros e negras nos últimos anos, mas entre aqueles que são a cara dos telejornais isso ainda não ocorreu.

Enquanto Neto discursava uma mulher negra vestindo branco e de turbante, identificada como "baiana", sorria de braços abertos numa imagem projetada atrás dele. A dúvida que surgia é quando essa mulher negra vai sair das imagens e desse folclore para governar a cidade.

O movimento #euqueroela e #agoraéla, que tenta eleger uma mulher negra para a prefeitura e mudar essa história, parece distante de se tornar realidade. Olívia Santana (PCdoB), Vilma Reis (PT), Fábia Reis (PT) não ganharam apoio nem mesmo do governador Rui Costa (PT). Ele até estaria disposto a ter uma mulher negra candidata, mas preferia alguém como Major Denice, que responde aos anseios militaristas atuais.

A música “Pra que me chamas”, da cantora baiana Xênia França, foi a primeira a tocar no set do DJ após a queima de fogos. A própria Xênia e tantos outras figuras negras importantes no cenário local e nacional sequer foram cogitadas para a festa. A atração principal foi a cantora Maria Bethânia que tem um histórico de cantar nas festas promovidas pelo “carlismo”, movimento político liderado pela família ACM. Ela inclusive lembrou que o avô de Neto deveria estar feliz com a realização. Quem deve estar triste são figuras negras históricas que veem a narrativa de exclusão se repetir. Já no domingo (26), quem se apresentou foram duas loiras: Claudia Leitte e Lore Improta. Nada de blocos afros ou de cantores negros como atração.

Um dos eventos que deve ocupar o Centro de Convenções é o Afropunk, maior festival de cultura negra do mundo, que desembarca em Salvador em novembro com a missão de levar as pessoas negras ao protagonismo nos palcos, na produção e no público.

A meta é ousada numa cidade em que as pessoas negras parecem fadadas a sorrirem, servirem e serem decorativas em projeções que mostram a feitura do acarajé, o trançar de cabelos, o jogo da capoeira e os tambores dos blocos afro. Só imagens. Os brancos continuam se validando a governar a cidade e colocam a cultura negra apenas como decorativa.

Basta saber se as pessoas negras seguirão aceitando se dominar pelos brancos ou farão novos levantes, como a Revolta dos Búzios e a Revolta dos Malês. Afinal, para além do turismo e de obras suntuosas como o Centro de Convenções, a cidade portuária continua "povoada pela pobreza, violência, desigualdade social e racial. Poucos brancos com muito, muitos negros com nada. Um barril de pólvora das desigualdades e hierarquias coloniais que a gente espera um dia explodir", diziam os rebeldes dos búzios. Sendo assim, a convocação feita pelos líderes da Revolta dos Búzios pelas ruas de Salvador continua atual: “Animai-vos, povo bahiense, que está para chegar o tempo feliz da liberdade. O tempo em que todos seremos irmãos. O tempo em que todos seremos iguais”.

Será que é por conta de textos como esse que colocam o dedo na cara da branquitiude e de seus privilégios históricos que não somos convidados para eventos como esse?!

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