Depois da apuração do carnaval 2020, peço licença pra contar minha percepção

Texto / Lívia Martins I Edição / Pedro Borges

O carnaval 2020 em São Paulo se encerra e depois da apuração das notas dos desfiles das escolas de samba, a reflexão aparece. Para onde vamos? Apesar do retorno do Vai-Vai para o especial, os cuidados para não retornar ao grupo de acesso I devem ser levados à risca para que a tradição não fique apenas no baú de memórias da folia. Cantaram e pularam com o troféu em mãos, com olhos que apontavam o alívio da alma.

Outra tradicional que deve abrir os olhos é a Nenê de Vila Matilde, que foi para o acesso II, último grupo de escolas que desfilam no Anhembi. A agremiação já esteve na elite de escolas e venceu por onze vezes o campeonato da cidade, mas atualmente vive uma situação extremamente diferente do seu passado.

Na apuração, a mesa onde se encontravam os membros da escola logo se entristeceu no cantar das notas, pois desde o primeiro quesito, a azul e branco ocupou a última posição.

O Camisa Verde e Branco bateu na trave e o quinto lugar teve um gosto amargo para a diretoria que estava no Anhembi. Décimos importantes e extremamente disputados escaparam das mãos do trevo. A revolta veio, mas não deve ser motor para retrocesso do modo como a escola se organizou para colocar o carnaval na rua. O caminho é esse.

Se ao final da cobertura especial dedicada ao Alma Preta posso afirmar algo é que nossos quilombos urbanos estão indo embora. Se a ganância e o ego continuarem na frente do amor ao pavilhão e do patrimônio conhecido como samba, a cultura vai se transformar e, talvez, não comporte os 35 títulos, a soma de vitórias dessas três escolas, que ajudaram a desenhar o carnaval paulistano.

O nome de uma escola não tem mais peso. Saber equilibrar e usar a verba que vem é fundamental. Seja no especial ou acesso. Atualmente, no grupo especial tem acontecido surpresas nos primeiros lugares e escolas estão ganhando títulos pela primeira vez.

Um dos segredos está na técnica de uma harmonia com alas alinhadas como marcha militar e evoluções que explodem nos cantos entoados nas paradas da bateria. É, o carnaval mudou e enquanto o manual julgador não for modificado, é melhor levá-lo embaixo do braço sem perder o suingue.

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