Em artigo, escritor Hamilton Borges expõem as contradições do caso que viralizou nas redes sociais; “Aqui [na Bahia] é natural e quase orgânico o lugar que nos reservam de subalternidade, desumanidade e silêncio”

Texto / Hamilton Borges
Imagem / Reprodução / Agência Brasil

A farra neocolonial de uma branquitude estúpida e sem noção, nostálgica da escravidão, servidão e zombaria pode ser novidade e comover pessoas de qualquer lugar do mundo, menos de Salvador (BA).
Aqui não. Aqui é natural e quase orgânico o lugar que nos reservam de subalternidade, desumanidade e silêncio. Se você rompe esse círculo vai ser acusado de intransigente, atrasado, polêmico e pregador de ódio racial.

Enquanto isso, quem odeia de verdade merece toda a defesa de outros pretos e pretas mentalmente domesticados e, claro, também de toda elite branca.

Quando soube da festa de aniversário de Donata Meirelles, fui escrever, e logo apareceu a informação de que ela é uma antiga compradora de produtos da DASLU, império fraudulento do consumo. Ela era membro do grupo criminoso de Eliana Tranchesi e participava de seu lucrativo negócio de vestir as elites e faturar dobrado, sonegando imposto.

Fiquei intrigado com a posição de músicos esquerdistas como Caetano Veloso, que vê tanto retrocesso no fascismo de Bolsonaro, mas é conivente e colhe os frutos do atraso das relações raciais que se pratica na Bahia, do genocídio, da violência e do terror racial.

Soube do conteúdo criminoso do tema da festa e não acreditei que os brancos baianos podiam ir mais longe com seu profundo ódio contra os pretos e suas tradições. Mas o que me chamou atenção imediatamente foi a posição dos pretos e pretas nessa zorra toda.

festa volgue alma preta

Essa mesma turma que reclama a nossa morte, mas elegeu Rui Costa duas vezes, a despeito de todo terror que ele comanda com sua polícia truculenta. Na festa de Donata, Rui Costa dançava feliz entre cosplays de Mucamas ao som da Banda Rupilezz e da voz tremida de Caetano Veloso.

Tinha preto cantor e sua filha subcelebridade. Esses foram os primeiros a apelar para a paciência das massas virtuais. Tinha preto presidente de bloco afro. Tinha afro empreendedor. Havia filhos de santo de terreiros de candomblé com séculos de chicote nas costas para saber exatamente o que é representação de subalternidade e racismo e uma “ingênua” festa de cinquenta anos de uma socialite dondoca envolvida até os ossos com crimes de evasão fiscal nas compras da antiga Daslu.

O Hotel Fasano lotou de gente branca e rica. Parecia um encontro de eugenia do começo do século XX, todos em ternos chiques e vestidos de marca estrangeira; todos arrotando elegância e impropérios contra a militância preta baiana que saiu dessa zona de controle. A maioria com milhões de dígitos em suas contas bancárias e suas mentes de ervilha e manteiga.

Ivete Sangalo, Preta Gil e um tal de Raull Pompeu saíram em defesa de Donata Meirelles e daquela festa com rigores de humor da Ku Klux Klan. Fizeram sua ladainha de coitadismo de uma senhora magoada porque “ela é boazinha” e até dá oportunidade de serviços a pretos da Bahia, vestidos de serviçais enquanto ela senta num trono de sinhá.

O casal anfitrião confortável com seu séquito de amigos das religiões afro-brasileira que não viram nada de mais no aniversário de Donata. Devem, inclusive, ter feito uma oferenda no terreiro que iria recepcionar a sangria de nossa dignidade coletiva.

Olhe, na moral, eu só digo uma coisa: “eu não digo é nada”! Porque diante dessa indignação de internet, essa comoção de rede social, muita gente ainda estranha quando a gente fala que existe um sistema de supremacia branca que precisa ser combatido de forma direta e sem tréguas.

Quando anunciamos que não precisamos dessa representação fajuta de ter meia dúzia de pretos com os mesmos trejeitos da elite, provando que “podemos chegar lá”, quando optamos por fazer uma militância desde o chão das ruas, das cadeias e favelas, muita gente franze a testa.

Começamos agora a recrutar inimigos para perto de nós, mais interessados com a festa do carnaval e com a possibilidade de desfilar riqueza e representatividade no camarote de Lícia Fábio do que em combater nossas batalhas.

A polícia militar também desfilou na Senzala do Barro Preto (Ilê Aiyê) com seus uniformes das unidades mais cruéis da PM Bahia. Seus membros cantando músicas de bloco e executando passos de Deusa do Ébano. A gente achou aquilo o maior esculacho porque, na mesma hora, na Engomadeira, a RONDESP tocava o terror com os familiares dos mortos da Chacina do Cabula.

Essa semana o promotor do Caso Cabula anunciou que se retirou do feito jurídico porque se sente ameaçado pelos policiais que ainda estão em serviço. Imagina as ameaças que o povo da Organização Reaja ou Será Morta / Reaja ou Será Morto não recebe...

Agora a gente vai ficar queimando neurônio por conta da festa de Donata Meirelles da Vogue e de uma turma de gente preta que não se importa em ver sua gente como mucama? Que bobagem!

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