Aza Njeri e Sol Miranda são artistas e produtoras culturais do Rio de Janeiro. Organizadoras do 2aBlack e do I Fórum Estadual de Performances Negras-RJ, as duas começam a produzir e escrever para o Alma Preta como parceiras e colunistas; No primeiro texto, trazem uma reflexão sobre a potência da arte negra e as ações desenvolvidas no Rio de Janeiro

Texto / Aza Njeri e Sol Miranda I Imagem

O século XXI está se mostrando como um momento de tensões e crises de diferentes ordens, mas todas, de alguma forma, ligadas à crise da humanidade, em que experiências periféricas exigem centralidade para debate das questões humanas relacionadas ao Outro, ou seja, aquele que não hegemonicamente branco, ocidental e patriarcal. Desta forma, a arte, imbuída de seu papel-refletor-coletivo, age como potente ferramenta para o questionamento do status quo, para a luta pela emancipação, anti genocídio e antirracismo da população negra.

O artivismo, como bem define Sueli Carneiro, cria audiência para a discussão das questões cernes para o povo preto e partindo da nossa agência negra, usaremos o espaço do Alma Preta para refletir e abordar o nosso fazer artístico no âmbito da dramaturgia, performance e dança, criando espaço de presença para a criticidade de nossos fazeres, demarcando e estabelecendo o nosso lugar no cenário das artes que exclui a estética e o fazer negro do panteão artístico teatral hegemônico brasileiro.

Derramando emú no chão para Esu, trazemos o movimento desta energia ancestral para as encruzilhadas do fazer teatral negro, reverenciando, laroyê!, aquele que faz vibrar a energia criativa de kuumba em nossos úteros-cênicos e nos possibilita plantar a nossa permanência, conforme o fizeram aqueles que nos antecederam. Assim, inicia-se com este texto-ebó, pedindo passagem a ancestralidade, a nossa parceria - Sol Miranda do Grupo Emú e Aza Njeri -, com o site Alma Preta.

O Grupo Emú, é formado por artistas e intelectuais, cuja iniciativa tem como diferencial a elaboração, produção e manutenção de projetos conectados pelo pensamento artístico e criativo, criando zonas poéticas para transmissão e compartilhamento de seus conteúdos. Buscando caminhos de autodeterminação dos fazeres negros, o Grupo Emu desdobra-se também na Emú Produções, Cia Emú de Teatro Negro e Núcleo de Estudos Geracional sobre Raça, Arte, Religião e História (Negrarh), este último coordenado por nós, Sol e Aza.

A nossa cooperação começou em 2016, quando o grupo, na figura da Sol, me convidou a ser a pesquisadora teórico-reflexiva da produção ética e estética do teatro elaborado pela Cia Emú de Teatro Negro, que é formada para investigação de linguagem teatral através de um diálogo com a questão racial na contemporaneidade, apontando caminhos para se pensar o eu-subjetivo e o eu-coletivo que entremeia as nossas experiências. Além disso, pensando em fomentar massa crítica sobre a dramaturgia e performances negras, passo também a integrar, como interface crítica, do bem sucedido 2aBlack.

Este surge, em fevereiro de 2018, a partir da compreensão e articulação dos eixos do Emú e em parceria e diálogo com vários fazedores negros de arte. Idealizado por Licínio Januário, Paulo Mattos, Reinaldo Junior, Rodrigo França e além da Sol, e inspirado, principalmente, no Segunda Preta (BH), Segunda Crespa (SP) e A Cena Tá Preta (SA), é a prática organizada de produção dramatúrgico-performática negra totalmente construída por negros fomentando caminhos para o Kawaida, isto é, renascimento cultural negro, baseado em kujichagulia (autodeterminação), ujima (trabalho coletivo e responsabilidade), ujamaa (economia cooperativa) e kuumba (criatividade).

Formado por diversos coletivos e artistas de arte, o mineiro Segunda Preta, preocupava-se, entre outras, em fomentar a agência negra de permanência e produção dos nossos fazeres artísticos; este, por sua vez, inspira-se no A Cena Tá Preta do Bando Teatro Olodum de Salvador. Antecede também o 2aBlack, o Segunda Crespa em São Paulo, encabeçado pelo Coletivo Os Crespos. Assim, desenha-se uma movimentação mobilizadora e organizadora performática negra que eclode em diferentes territorialidades, mas que convergem para a mesma discussão, pois possuem a mesma consciência da agência em comum e das ferramentas para praticá-la no âmbito das artes.

Em duas edições no Terreiro Contemporâneo, uma no Olabi e uma Mostra na Arena do Sesc Copacabana, além do laureamento com os Prêmios Shell e Questão de Crítica, o 2ablack se consolida como mais um projeto de atualização da produção, fomento e difusão de arte negra no cenário carioca, fazendo com que a roda, construída pela Teatro Negro de Revistas, Teatro Experimental do Negro, Cia dos Comuns e muitos outros continue em resistência artística.

A partir desta segunda-feira, dia 12 de agosto, teremos mais uma edição do 2aBack, agora no espaço Sérgio Porto, no Humaitá. Serão três segundas-feiras (12, 19 e 26) em que respiramos arte, refletindo, estabelecendo fruição e debate sobre temas que vão da subjetividade à coletividade em meio ao seu relacionamento com o mundo.

Em um cenário hostil na cidade do Rio de Janeiro, que vilipendia os artistas de rua por meio do silenciamento e do impedimento de nos apropriarmos do nosso maior palco, esta edição dedica-se a pensar a arte da urbes. Oprimidos pelo racismo estrutural e o genocídio epistêmico, a supremacia controlada por trinetos de escravocratas que se perpetuam no poder, quer nos tirar a nossa maior garantia de fazer e viver da arte, impedindo não apenas o acesso à rua, mas também aos vagões de trens e metrôs e demais espaços não institucionais. Para muitos de nós, artistas negros, somente esses lugares nos possibilitam a voz e a aprendizagem estética necessárias para a permanência e sofisticação de nossos fazeres.

Sensíveis da problemática, esta edição do 2aBlack chama não só os artistas negros dos palcos da vida, mas também o público, para fomentar a nossa permanência, construindo de forma sadia o nosso lugar de resistência. A rua é nóis. E sempre foi nóis, principalmente diante das portas cerradas que nos impedem o ingresso aos espaços de teatro, centros de artes, museus e casas de espetáculos, além da constante falta de investimento para os nossos fazeres. A rua, então, se materializa como espaço autônomo de criação e reinvenção de um palco, permitindo o autoagenciamento das nossas construções e narrativas estéticas. Reivindicamos a rua como o nosso mais genuíno espaço de construção e resistência.

Em outubro de 2018 também iniciamos um novo caminho de ação autodeterminadora das artes negras, em que fazedores negros de artes do estado do Rio de Janeiro, atendendo as demandas do Fórum Nacional de Performance Negra - iniciado pela Cia dos Comuns e pelo Bando de Teatro Olodum -, vão se organizar, mobilizar, articular e fazer o I Fórum Estadual de Performances Negra-RJ. Este ocorrido, após 9 meses de encontros e discussões (sim um filho gestado pelas nossas potências criativas!), em junho de 2019 no Museu de Arte do Rio.

Neste encontro debatemos temas relevantes para a estrutura, resistência e permanência do fazer, pensar e ser artístico negro em um cenário regional e nacional. Agentes negros das artes dedicaram-se durante dois dias a estabelecer caminhos e medidas que possibilitem a nossa produção artística de forma digna e humana, pautando espaço para uma arte genuinamente pensada por corpos negros e suas experiências cênicas, que não estão entendidas na subjetividade ou legitimadas pelo status quo.

Portanto, entendemos a arte e seu poder movimentador, pois desperta para um estado de fruição que dialoga diretamente com duas partes fundantes do ser humano: okan (coração) e emi (essência divina), e por estar em diálogo com essas áreas, torna-se uma potente ferramenta de tensionamento do cenário em que está inserida. Assim, iniciamos essa parceria, em que, periodicamente, discutiremos criticamente a produção artística-performática negra a fim de difundir, apoderar e fomentar massa crítica a partir de nossa centralidade enquanto negros da diáspora brasileira que produzem essa arte estruturadora de mundos.

Sol Miranda é atriz, produtora e pesquisadora. Formada em Letras, é coordenadora do NEGRAR Linha de Pesquisas sobre Arte negra e História, da UFRJ. É co fundadora do Grupo Emú e da premiada Segunda Black

Aza Njeri doutora em literaturas africanas, pos doutoranda em filosofia africana, crítica literária e teatral, poeta, mãe, digital influencer.

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