Marcell Machado, mestrando em Sociologia (UFRJ) e integrante do Coletivo Negro Carolina de Jesus (UFRJ), escreveu uma resenha crítica sobre a obra Angola Janga, de Marcelo D'salete, um dos principais quadrinistas brasileiros.

Texto / Marcell Machado
Imagem / Marcelo D'salete

Amo minha raça, luto pela cor
O que quer que eu faça é por nós, por amor
Racionais MC’s – Jesus chorou

Pois na era Cyber, cêis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer
Emicida – Boa esperança

Angola Janga é uma história em quadrinhos escrita e desenhada por Marcelo D’Salate (Cumbe, Encruzilhada), que mostra as últimas décadas de existência de Palmares. Ao escolher retratar a maior experiência de organização autônoma e resistência negra ocorrida no Brasil, D’Salete confronta a narrativa da formação nacional que se sustenta até hoje, tanto no senso comum como nos altos círculos intelectuais, cujo alguns princípios são: um caráter mais benigno da escravidão perpetrada pelos portugueses; a não-resistência dos negros durante o regime escravocrata; miscigenação como um fator para interação menos violenta do branco para o negro e o indígena .

Ao mostrar os diversos modos de resistência dos negros às brutalidades sofridas por meio dos colonizadores, cujo exemplo principal na obra é Palmares, o autor cria uma contra-narrativa negra ao discurso racista hegemônico sobre o Brasil escravocrata. Mostra que os africanos e seus descendentes não foram sequestrados e escravizados sem reação, mas resistiram. Essa HQ mostra as últimas décadas de Palmares, que era um conjunto de quilombos existente na América portuguesa durante o período colonial, que durou cerca de cem anos, cujo marco final é o assassinato de Zumbi em 1695, no dia 20 de novembro.

A construção da contra-narrativa por D’Salete começa já no título, Angola Janga, que remete ao nome utilizado pelos negros aquilombados para se referir a Palmares, que significa “pequena Angola”. Apenas isso já demonstra a dimensão, tanto demográfica como política, que Palmares tomou. Outro ponto é que a obra não suaviza em nenhum momento as diversas violências cometidos pelos colonos brancos contra os escravizados, pois isso está entranhado no regime escravocrata do qual os palmarinos aquilombados queriam se libertar.

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Capa do livro de Marcelo D'Salete, Angola Janga (Imagem: Marcelo D'Salete)

Em Angola Janga não há espaço para uma interação amistosa e adocicada entre os colonizadores e os escravizados, quadro pintado com tintas freyrianas que continua bastante vivo no imaginário nacional. Pelo contrário, os brancos escravocratas são mostrados da forma mais crua e real possível. Um exemplo emblemático é da primeira aparição de Domingos Jorge Velho, líder bandeirante presente na derrocada de Palmares: ele está sentado em uma cabana coberto pelas sombras, com três mulheres indígenas encolhidas ao seu redor, sendo que uma delas ajoelhada ao lado de sua cadeira. Em apenas um quadro, Marcelo D’Salete consegue sintetizar toda a violência perpetrada ao longo pelos bandeirantes ao longo de sua história. Bem diferente da imagem glorificada estabelecida na história oficial de exímios desbravadores, que os habilitam a serem homenageados com estátuas e em nomes de vias expressas.

Os personagens negros de Angola Janga são desenvolvidos muito bem, eles não pensam nem agem de forma homogênea, nem construídos de forma romântica. Isso quer dizer que terão momentos nessa história em que negros irão conflitar com outros negros. Isso leva a uma decisão de roteiro específica de Marcelo D’Salete que eleva a outro nível seu desenvolvimento de personagens (spoilers daqui até o fim do parágrafo): o responsável pela morte de Ganga Zumba por evenevamento foi Zumbi, para que o grupo liderado pelo primeiro, que decidiu se aliar aos colonos, se enfraquecesse. Ao fazer isso, Marcelo D’Salete constroi Zumbi como um personagem multifacetado, que está disposto a tomar decisões extremas para proteger Palmares, inclusive assassinar seu antigo lider. O autor abre mão de maniqueísmos para desenvolver Zumbi como um líder que faz o necessário para manter Angola Janga de pé – remetendo a primeira epígrafe desse texto. A decisão que ele toma é a realidade de qualquer levante de libertação negro ao longo da história da humanidade (fim dos spoilers).

O final da HQ mostra que mesmo após a destruição de Palmares, os negros continuaram a resistir, se aquilombando para serem livres. A derrota é seguida pela esperança de liberdade, que não pode ser destruída. Ainda que Palmares queime mil vezes, será reconstruída mais mil. Marcelo D’Salete nos presenteou com essa obra artística que rememora nossa resistência. Que venham outras!

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