fbpx

Nossa história está baseada na ótica e ponto de vista dos nossos ancestrais ou daqueles que os submeteram aos processos de escravidão, colonização e colonialismo?

Texto / Luanda Ribeiro do Nascimento
Foto / Reprodução

Em uma série especial, o Alma Preta traz três textos da cientista social e pesquisadora Luanda Ribeiro do Nascimento que discutem sobre as questões da ancestralidade e gênero. Confira a terceira e última parte do especial. A segunda parte do texto você pode conferir aqui

Ancestralidade e gênero

Avançando para um diálogo pluriversal sobre como a genealogia dos povos, então, constrói diferentes sentidos de mulheridade e como a sociedade ocidental pseudo-universal circunscreve gênero através da categorização racial, faz- se necessário revisarmos a ideia , presente no feminismo e estudos de gênero de escolas ocidentais dominantes, de uma experiência universal ou mesmo comparável de gênero entre mulheres com diferentes origens raciais/culturais. Uma vez que a experiência de gênero perpassaria uma remanescência desta genealogia dos povos na presente estrutura social colonial ainda ativa na experiência de ser mulher na contemporaneidade.

Ou seja, a matrilinearidade e o matriarcalismo do berço civilizacional africano são apenas no sentido de equilíbrio, leveza, harmonia entre os papéis sociais de homens e mulheres, uma outra noção de “mulheridade” e masculinidade, logo de Humanidade. A mulher é o centro nesta perspectiva cultural, mas não hierarquicamente maior ou melhor que o homem e vice-versa como ocorre no modelo patriarcal ocidental. Podendo por isso inclusive conviver com arranjos patriarcais lado a lado, de outros povos vizinhos, ou em convivência num mesmo povo como um sistema de contrapesos. Neste sentido compreendemos que os conceitos, papéis sociais e vivências de mulheridade são pluriversais e centrados culturalmente.

Como a entrada de seres humanos africanos na sociedade do projeto ocidental é via classificação racial oriunda da sua origem civilizacional, a raça é assim a categoria colonial que passa a circunscrever as experiências de gênero e não o contrário. Daí os conflitos identitários da mulheridade negra.

Há assim na contemporaneidade uma sobreposição dos papéis original/ genealógico de centralidade e poder realizador e colonial de submissão feminina circunscrita pela categorização racial vivida pela mulher negra na sociedade contemporânea no geral, e especificamente, na sociedade contemporânea brasileira. Cabe a nós através da assunção da agenda do renascimento africano agenciar nosso recentramento, nossa genealogia cultural africana e reivindicar uma identidade de gênero desobediente dos termos de categorização racial ao qual o Ocidente relegou a nós, as mulheres negras, porque como diz outro provérbio africano “ quando se educa uma mulher, educa-se todo um povo”, ou seja, quando a mulher negra reclama sua centralidade ancestral toda a comunidade negra global e local pode se emancipar do subjugamento colonial ocidental e reconstruir um novo paradigma cultural, político e social de vida para o povo negro no Brasil e no mundo.

Luanda Ribeiro do Nascimento é cientista social formada pela PUC-Rio e pesquisadora independente de Estudos Africana.

Bibliografia:

ASANTE, Molefi Kete. Maat e comunicação humana : Apoio à Identidade, Cultura e História Sem Dominação Global. Tradução : Luanda Ribeiro do Nascimento. Material do curso de extensão África e Diáspora: Encontros e Reencontros, Rio de Janeiro : UFRJ, 2018.
ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricidade Raça e Razão. Tradução : Domínio público.
BA, Hampatê. A Tradição Viva. In : História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África / editado por Joseph Ki-Zerbo. – 2.ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com