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Van Sena Omoloji, pensador das espiritualidades negro-africanas e professor de dança afro-terapêutica, escreveu sobre o sexo e a sexualidade do homem negro ainda associados a uma relação escravagista com as "sinhás"

Texto / Van Sena Omoloji
Imagem / Divulgação

Este texto não visa, obviamente, ensinar homens pretos a transar. O sexo pode ser experienciado como ele bem quiser e houver espaço com sua parceira ou parceiro.

Tão pouco essa discussão visa ser manual ou ideal de verdade. Propõe-se, contudo, a ser a construção de um olhar, a partir da perspectiva do seu autor e da sua experiência, podendo contribuir na reflexão daqueles e daquelas que o lê.

Venho há algum tempo refletindo sobre as narrativas e comportamentos sexuais dos homens negros. Essa observação advém dos pretos que eu tenho e tive contato pessoalmente, dos amigos das redes sociais, das leituras de alguns livros e da sua representação em filmes, séries, vídeos pornográficos e propagandas de televisão.

O homem negro vivi sua sexualidade, ainda, a partir da construção de um imaginário de ser sustentado pela branquitude. O negro vigoroso, cavalão, mulato, saciador dos desejos lascivos das sinhás. É também aquele ativo incansável dos vídeos pornográficos gays.

Saindo dum viés fetichista e pensando na identidade do ser, podemos fazer algumas leituras do comportamento sexual de alguns homens negros. Por que o falocentrismo ainda sustenta tanto a nossa sexualidade e performance sexual?

O preto, o preto imaginado, é o preto fálico. Esse preto não existe para dar conta dos seus desejos sexuais e da sua afetividade. Esse preto fálico existe para responder às demandas da sinhá-lasciva - essa figura metafórica sugadora da parte da subjetividade do homem negro correspondente a autonomia sexual e afetiva.

Assim sendo, o homem preto não é dono do seu sexo (da sua sexualidade e do seu corpo objetivo e subjetivo) e não se relacionará com sua companheira (ou companheiro) negra(o) como ser capaz de oferecer afeto. Ele é o preto fálico da sinhá branca. Mesmo com a mulher negra (ou com o homem negro) a conexão se estabelecerá a partir dessa subjetividade do preto-fálico, organizada para dar conta dos desejos da sinhá-lasciva.

O homem preto possui deficiências de experienciar sua sexualidade fugindo dessa condição limitadora. É preciso atrofiar o preto-fálico para fazermos emergir o preto-afeto.

Não obstante, diversas das nossas músicas populares como funk carioca e pagode baiano incentivam o movimento pélvico com vigor. Excitam o homem preto a extravasar a sua energia, imitando o ato sexual de um cavalo ou outro ser animalescos. Tal vigor ocupa a complexidade do sexo. Por vezes isso se resume a penetrar com força. Não importa se gera prazer ou não. Importa o fetiche e a manifestação do preto-fálico que dar sentido a sua masculinidade.

Como reconstruir essa subjetividade desencadeadora do preto-fálico que gera uma sexualidade desligada do ser e focaliza no fetiche da sinhá-lasciva?

É preciso matar a sinhá-lasciva. Retirá-la do nosso corpo negro. O homem preto não pode condicionar a sua sexualidade, o seu sexo, à suprir os fetiches da branquitude, mesmo quando essa branquitude não está presente, já que a sinhá-lasciva é o seu desejo de dar conta, sexualmente, do condicionamento dos brancos, que o coloca em grandeza e o estimula a exaltar seu vigor pela pulsão sexual.

Existem várias maneiras de fazer e realizar fantasias sexuais. Minha ressalva é apontar como o fetiche do homem negro é construído a partir do imaginário branco. Daí temos diversas mulheres e homens pretos gays, reclamando dos seus parceiros, da falta de abertura para se explorar o corpo, sem focalizar na genitália ou reproduzir o modelo animal dos vídeos pornôs que enfeitam ações que mais parecem estupros e não dão conta de, transportado para a realidade, experienciar relações sexuais satisfatórias.

Essa dificuldade de buscar outras possibilidade se dar pelo aprisionamento do homem negro a um único modo de se relacionar sexualmente. A sinhá-lasciva está bem alimentada. Ela nunca requereu dele afeto, beijos, abraços e ter seu corpo explorado. A sinhá-lasciva queria penetração. O vigor do macho-animal não encontrado no seu marido português.

Matar a sinhá-lasciva é construir formas próprias de se relacionar sexualmente fora desse condicionamento racista. O sexo deve ser fruto do modo como o casal quer explorar seus corpos e encontrar prazeres. Se esse sexo for também mais intenso, que seja como escolha do casal e não como única opção disponível, nem pela fala de curiosidade do homem preto em entender como o prazer emerge não centrado em seu pênis, da compreensão da sensibilidade de todo corpo (seu e do outro) e da libertação do metodismo sexual histórico propagado pelos estupradores da Casa Grande.

Reforço que esse texto pretende abrir o debate a respeito da sexualidade hipererotizada e do modo como os homens pretos vem se relacionando sexualmente, buscando apontar caminhos para desconstrução desse fetiche branco impregnado em seu corpo (a sinhá-lasciva) e abrir perspectivas para neste processo de descolonização a afetividade negra masculina, inclusive no campo sexual, fazer-se presente.

O homem negro deve ser protagonista de si mesmo e afirmar um projeto de existência com referências africanas que contemplem as demandas do nosso tempo e lhe ajude a fortalecer a concepção ancestral de comunidade e povo.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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