O Alma Preta separou depoimentos relacionados às diversas formas de demonstração e sensação de afetividade da população negra. O primeiro relata a bifobia enfrentada por mulheres negras e bissexuais

Texto / Isabella Viana
Imagem / Pexels

Confesso que quando me convidaram para escrever este texto, fiquei muito confusa. Por mais que a pessoa tivesse me explicado diversas vezes o tema me vi numa dificuldade enorme de falar sobre afeto. “Como assim falar de afeto e bissexualidade?” era a pergunta que pairava na minha cabeça incessantemente. Foi então que me vi num dilema: eu mesma, como bissexual, nunca tinha parado para pensar em como me relaciono com o afeto, pois, adicionando a colherada social de melanina, esse zelo me é duplamente negado.

Como mulher negra, enfrento todos os dias o estereótipo da “mulatinha faceira”. Aquela mulata padrão Globo, sambando seu corpo e seu sexo para todos verem – e tocarem. A ideia que mulheres negras, principalmente as ditas “mulatas”, são seres sempre disponíveis para o sexo, luxuriosas e pouco confiáveis, não vem de hoje.

A desumanização e a fetichização de corpos negros, principalmente femininos, é uma ideia construída principalmente através da literatura. Uma das principais figuras que carimbou essa visão na mente do brasileiro é a Rita Baiana, personagem do livro “O cortiço” de Aluísio de Azevedo. A pesquisadora Giovana Xavier, em seu texto sobre os estereótipos de mulheres negras na literatura, já afirma:

“Esbanjando sensualidade, vitalidade e alegria, a descrição física de Rita é feita por meio da sinestesia, figura de linguagem que mistura gosto e sensações, conforme observamos em expressões como ‘peito cor de canela’ e cheiro de ‘manjerona’, atribuídos a ela por seu criador. Representação máxima da mulata sensual na literatura brasileira, Rita ‘luz ardente do meio-dia’, ‘cobra verde e traiçoeira’ era naturalmente ‘afrodisíaca’”.

XAVIER, Giovana. “Entre personagens, tipologias e rótulos da ‘diferença’: a mulher escrava na ficção do Rio de Janeiro no século XIX” in “Mulheres negras no brasil escravagista e do pós-emancipação”, São Paulo, Selo Negro, 2012.

Nesse sentido, a vivência como mulher negra se parece muito com a vivência bissexual. Enfrentamos as mesmas coisas: a hiperssexualização, o apagamento, a estereotipação, o preconceito e principalmente, a negação ao afeto. Não é segredo nenhum que dentro da comunidade LGBT os bissexuais são tratados como libidinosos, transmissores de doenças e poucos confiáveis - lembra vocês algum outro estereótipo que mencionei?

Uma pesquisa feita pela universidade em Tel Aviv, em Israel, e divulgada pelo The Journal of Sex Research, mostrou, por exemplo, que os heterossexuais resumem bissexuais somente ao sexo.

Outra pesquisa feita pelo instituto Equality Network, da Escócia, mostrou que “66% dos entrevistados bissexuais se sentem ‘pouco’ ou ‘nada’ incluídos na comunidade LGBT”. Nós, bissexuais somos visto como não confiáveis até mesmo dentro da nossa própria comunidade e consequentemente, não nos sentimentos parte dela. Nos é negado o afeto de acolhimento, do companheiros, da dor de sofrer as opressões de não ser hétero, por exemplo.

Como então sair dessa caixinha de ser sexual e ser vista como ser digno de carinho e cuidado?

A certeza da minha sexualidade, e minha primeira experiência com afeto, vieram quando me apaixonei por uma mulher pela primeira vez. Foi uma relação linda, de muito cuidado, muito afago, cafunés e gatos atrapalhando o sexo. Foi a primeira vez que senti um amor recíproco. Foi ali que me senti pela primeira vez humana. Uma pessoa amando como outra qualquer.

Era difícil para as pessoas, LGBT’s ou não, entender os casos de bifobia que sofríamos. “Mas se vocês são mulheres e namoram, é lesbofobia, certo?”. Não, não está certo. Começa então o apagamento da nossa sexualidade e do nosso afeto: éramos duas mulheres bissexuais em um relacionamento, o que não nos “tornava” lésbicas, e nem vítimas da lesbofobia. Sofríamos bifobia duas vezes, uma na entrada e outra na saída. A primeira quando não nos reconheciam como bis e a outra quando nos discriminavam nas ruas.

“Mas até agora você não falou de afeto!”. O afeto em si, não tem a ver com minha sexualidade. A maneira como recebo e encontro esse afeto sim. Sair desses dois rótulos de negra fogosa e bissexual traiçoeira é um trabalho diário. Não tem como não desconfiar de cada carinho, cada gesto, cada “vamos tomar uma breja hoje?” de ambos os sexos que flertam comigo.

Enxergar além das correntes que me prendem significa enfrentar uma das barreiras mais difíceis que alguém pode encontrar: a si mesmo. Não, não estou culpabilizando os bissexuais pela falta de afeto e por todas as opressões que sofremos.

Porém, enumerei acima a carga de conceitos prévios que recaem sobre nós, como negros e como bissexuais. A pressão social para internalizar esses estereótipos é muito grande. Quantas vezes você não falou para si mesmo que se ninguém quer me namorar vou tacar o terror? Quantas vezes você queria algo a mais da relação e se bastou só com um sexo? Quantas vezes você se privou de trocar carinho por medo de não receber de volta?

Quantas vezes você se iludiu que era algo a mais mesmo vendo que era tratada como uma foda qualquer? E isso não é sua culpa, isso é sua defesa, é sua auto-proteção, é uma forma de cuidado consigo mesmo. E está tudo bem: não encontramos refúgio dentro da comunidade LGBT e somos vistos somente como sexo pelo resto da sociedade.

Não à toa é tão pesada essa solidão bissexual que, uma pesquisa de 2015 feita pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e publicada na revista científica “Journal of Public Health”, mostra que “mulheres bissexuais sofrem mais problemas de saúde mental do que as mulheres lésbicas”.

Quantas vezes você já ouviu “se fosse lésbica, eu beijava”? Quantas vezes você já ouviu “mas você topa fazer a três”? Quantas vezes já te colocaram nessa posição de uma hora fetiche outra hora escória transmissora de doenças? Quantas vezes você não assumiu para pessoas que gostava que era bi por medo desta pessoa desconfiar de você?

Queria eu ter uma resposta pronta para resolver essas questões. Minha vida afetiva inteira é rodeada dessas questões. Já me orgulhei muito – tanto quanto um homem hétero – de ser a “fodelona”, a “pegadora”, a “mulher fatal, “comedora de corações”. Até um momento na minha vida que me percebi carente de afeto, carente de um pouco de algo além das quinas do colchão. Cansada de não ser levada à sério por ser bi, cansada de só ser levada como sexo, por ser negra – ou vice e versa. O afeto não estava presente na minha vida. Eu internalizei todos aqueles – malditos – rótulos e os assumi como meus, como minhas escolhas. Talvez para me proteger, talvez para não sofrer tanto.

Perdi a humanidade, e percebi que estava apenas sobrevivendo. Não que sexo seja ruim, mas ser só sexo em todas as relações não é o melhor dos mundos. Ainda mais quando é isso que a sociedade quer, espera e “oferece” para você.

Nossa maior luta como bissexual e negra, como alguém que busca o afeto, como alguém que quer ser vista como uma pessoa qualquer além das etiquetas que nos cercam, é não perder a humanidade. É não nos tornarmos nosso duplo esteriótipo da hiperssexualização, do fetiche, do “ser para transar”. É não nos resumirmos àquilo que nos resume. É sabemos que somos confiáveis, que não somos transmissores de doenças. É sabermos também que somos humanos e merecemos todo cuidado, amor e carinho do mundo.

Não achem que por estar dizendo isso, sou muito bem resolvida e minha vida afetiva segue essa premissa. Pelo contrário, após cinco anos solteira, anos de muita farra e beijo na boca, apenas agora me sinto numa relação em que sou vista como pessoa e não como “um buraco para meter”.

Não percamos a nossa humanidade, os nossos sentir além do carnal, a nossa pessoa além do corpo. Não precisamos ser a Rita Baiana do século XXI para sermos merecedores da atenção de alguém. Podemos ser personagens da nossa própria história e se retomarmos nosso lado humano, talvez nos encontremos mais plenamente nas relações com homens e com mulheres.

Ainda acho esse texto e essa conclusão muito pouco para a imensidão desse assunto. Mesmo sendo bi, mulher, negra, sou humana - não tenho resposta para tudo. Estou começando pelo básico: recuperar minha humanidade, tentando sobreviver ao mundo e ser reconhecida na comunidade LGBT. Ser negra e ser bissexual é ser duplamente rebaixada e tratada como apenas sexo. Se esse papel, essa personagem eu já tenho, me resta agora saber que outros mil papéis eu posso – e quero – ser.

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