Se estivesse vivo, Madiba completaria 100 anos nesta quarta-feira (18); seu legado é inspirador para a luta antirracista e para a humanidade

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Getty Images

O centenário de nascimento de Nelson Rolihlahla Mandela, um dos maiores ícones da luta antirracista e uma das maiores personalidades do século XX e da história contemporânea, é comemorado nesta quarta-feira (18).

Para alguns, a história de Madiba, modo como era conhecido em virtude do clã do qual ele fez parte, é resumida à história de um ser que tinha a conquista da paz mundial como principal bandeira, independentemente de raça ou etnia. Mas, como se imagina, a história de Mandela vai muito além disso.

A causa que Mandela defendeu em vida faria muitos de seus admiradores, que publicam frases e fotos dele nas redes sociais, dizerem que ele era vitimista ou, como uns e outros gostam de dizer, estava de “mimimi”. Afinal, a luta do líder sul-africano até os seus últimos instantes de vida era em favor da igualdade racial e, como consequência, o combate ao racismo estrutural, inclusive quando foi usado como política de Estado por meio do apartheid, regime segregacionista instaurado pelo Partido Nacionalista no qual os direitos da população negra foram cassados por governos formados por pessoas brancas.

Vida e luta

Nelson Mandela nasceu na cidade de Mvezo como membro do clã Madiba, em uma família da nobreza tribal. Todavia, o futuro líder da luta antirracista abriu mão do que poderia ter sido uma trajetória de certa maneira confortável ainda jovem, quando optou por estudar direito em Joanesburgo no fim dos anos 1930. Inclusive, ele conheceu personalidades com as quais viria formaria anos depois o núcleo de comando do CNA (Congresso Nacional Africano).

Vale dizer que Mandela se deu conta, neste momento da vida, sobre a estrutura racista da sociedade sul-africana à época.

Em 1944, Mandela se tornaria um dos criadores da Liga Juvenil do CNA e em 1949, ele passaria a ser conselheiro-executivo do partido enquanto o Partido Nacional, cujas demandas dialogavam com a população branca da África do Sul, dava os primeiros passos para criar o apartheid.

Alguns anos depois, em 1952, Madiba abriu, ao lado de Oliver Tambo, uma das figuras fundamentais do CNA, a Mandela & Tambo, escritório de advocacia voltado à defesa de pessoas. Ainda, no mesmo ano, o futuro líder da luta antirracista tornou-se porta-voz e uma das pessoas à frente da organização do Dia do Protesto, manifestação feita em 26 de junho daquele ano, na qual negros usaram espaços destinados a pessoas brancas. Mandela foi preso e recebeu ordem de restrição, pela qual estaria proibido de participar de atividades políticas, naquele ano.

Nelson Mandela, em 1953 (Imagem: Herbert Shore, cortesia da Fundação Ahmed Kathrada)

Em 1958, Mandela casou-se com Winnie Madikizela Mandela, que seria a sua segunda esposa – ele e Evelyn Mase estiveram casados de 1944 a 1956. Winnie, que faleceu este ano, tornou-se outra figura emblemática na luta antirracista na África do Sul e, como consequência, protagonista do CNA anos depois. Winnie faleceu este ano, aos 81 anos.

Após o Massacre de Sharpeville, promovido pela polícia local contra pessoas negras na cidade de Sharpeville, tragédia na qual 69 pessoas foram mortas e 180 ficaram feridas, Mandela tornou-se líder da MK (Lança de uma Nação), braço armado do CNA – para Mandela, a tragédia mostrou que não seria mais possível combater o apartheid por meios pacíficos.

Madiba recebeu treinamento militar na Etiópia e em Marrocos, e voltou à África do Sul em 1962, quando foi condenado a cinco anos de prisão por ter deixado o país sem permissão e por ter incitado a classe trabalhadora a entrar em greve. Posteriormente, em 1964, ele seria condenado à prisão perpétua.

À época, Mandela revelou ter lutado contra a dominação branca. “Eu amei o ideal de democracia e de sociedade livre na qual todas as pessoas pudessem viver juntas, em harmonia e com oportunidades iguais. Esse é um ideal que espero estar vivo para ajudar a alcançar. Mas, se necessário for, esse é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.”

Diário do detento 46664

Após ser levado à prisão da Ilha Robben, na qual teria de cumprir sua pena, Nelson Mandela teve pouco contato com informações do mundo exterior – para se ter uma ideia, ele não pôde ir aos funerais de sua mãe, falecida em 1968, e de Thembi, seu filho mais velho, vítima de desastre automobilístico no ano seguinte.

Em 1982, Mandela foi transferido para o presídio de segurança máxima de Pollsmoor, na Cidade do Cabo; e em 1988, após ter passado meses internado por causa de tuberculose, ele foi encarcerado em Victor Verster, presídio de segurança mínima.

Liberdade e ponto de virada

No ano seguinte, após negociações sobre a sua libertação com o então presidente, Frederik de Klerk, Mandela conseguiria sair da cadeia em 1990. O episódio deu início a um novo capítulo na história da África do Sul.

Mandela torna-se presidente do CNA em 1991; recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1993 juntamente com de Klerk; e seria eleito presidente sul-africano em 1994, com 62% dos votos. De modo resumido, o seu mandato foi marcado pela tentativa de reconciliação entre povos negros e brancos, mas Madiba recebeu críticas do CNA por não ter sido mais efetivo na promoção de reformas estruturais.

Após o término de seu mandato, Mandela continuou a ser uma influente figura política e aposentou-se em definitivo aos 85 anos, em 2004.

Apesar de ter se afastado da vida política, Nelson Mandela continuou a ser um ícone e lenda viva da luta antirracista, assim como uma voz a ser sempre respeitada, até a sua morte, em 5 de dezembro de 2013.

Contudo, sua morte não representou o seu fim. Se homens se vão, mas suas ideias ficam, é possível dizer que Nelson Mandela está vivo entre nós por meio do combate ao racismo estrutural e pela luta por um mundo igualitário e sem discriminação racial.

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