fbpx
 

Países do continente africano apresentam diversidade de línguas; Brasil recebeu influências que formaram o “pretoguês”

Texto: Guilherme Soares Dias e Pedro Borges | Imagem: Reprodução

Numa manhã de domingo do último mês de outubro, moradores de Clermont Township, um bairro que fica a 24 quilômetros do centro de Durban, na África do Sul, discutiam sobre política e os problemas da comunidade – que no Brasil seria chamada de favela –, além de animosidades das últimas semanas com moradores de bairros vizinhos. A conversa era em zulu, língua que a maior parte dos moradores fala nas ruas dos bairros, nas casas e comércios do bairro.

Mesmo em um país conhecido pela língua inglesa, que está presente na comunicação oficial e placas, fiquei sem entender nada daquela conversa. Isso porque o inglês é apenas uma das onze línguas oficiais. No censo de 2011, o Zulu apareceu como a língua mais falada pelos sul-africanos em casa (24%), seguida pela xhosa (16%). O africâner era a primeira língua de 13,5% dos sul-africanos, enquanto o inglês era a língua nativa de apenas 9,6% da população. Cada região e etnia preservam sua língua, como forma de manter a cultura, a identidade e a essência de ser quem se é.

A língua, segundo a pesquisadora Iacy Correa, mestre em Comunicação e Territórios pela universidade francesa Paul Sabatier, é uma das manifestações culturais que fundamentam a identidade de um povo, uma parte essencial para a construção da subjetividade e do elo com as próximas gerações. “Na África, a língua é também um símbolo de resistência. Falar a sua língua originária é uma manifestação da herança cultural dessas comunidades”, considera.

Em todo o continente africano são falados mais de 2 mil idiomas, que correspondem a cerca de 30% de todas as línguas do planeta. São mais de mil línguas africanas. Nesse contexto do multi-linguismo, para além dos idiomas dos colonizadores, 56 línguas africanas são utilizadas pela administração pública e em torno de 60 são tratadas como oficiais por parte do sistema judiciário. Todos os países têm mais de uma língua oficial. “Isso mostra uma resistência em relação ao colonizador. Essas línguas sobreviveram por conta do povo preto africano, que continuou de pé mesmo com todas mazelas, pois significam um reflexo da identidade cultural e social”, considera Correa, lembrando que as línguas também são utilizadas como instrumento de opressão social desde a colonização.

Na África do Sul, além do inglês e do africâner, as línguas mais populares são o Zulu, Xhosa, Tswana, Sepedi, Sotho, Venda, o que faz com que o país seja conhecido como "nação arco-íris" pelo plurilinguismo.

O sul-africano Simo Nzama, 43 anos, empreendedor, comunicador e fundador do See More Possibilities, projeto que ensina novas possibilidades para a comunidade de Clermont, em Durban, recebe visitantes na comunidade para os quais explica sobre a língua zulu, que é usada principalmente na província de Kwa-Zulu Natal, onde fica Durban. “É uma língua bantu que pode ser associada ao rei Shaka Zulu e que tem muitos anos de história e de resistência desse povo”, conta.

Simo fala quatro línguas, mas lembra que o Zulu é o predominante nas conversas. “É a língua central e dominante da comunidade. Ela define quem eu sou, não me deixa esquecer de onde venho”, afirma. Na TV, na escola e nos negócios, o inglês é adotado, mas no contexto pessoal é utilizado o Zulu. O empreendedor lembra que ensina a língua para os filhos e as conversas em casa ocorrem na língua natal. “Eu protejo minha língua para que ela não seja esquecida. É minha língua mãe e quero que as próximas gerações possam se comunicar nela também”, ressalta.

Em 1996, dois anos após o fim do aparthied, a pesquisadora Penny Silva publicou o "Dicionário de Inglês Sul-Africano baseado em Princípios Históricos" que procurou definir o inglês sul-africano a partir do seu contexto histórico e político. A obra é um marco que mostra que as palavras foram instrumentos de opressão no país, durante o regime de segregação racial que adotava o africâner como língua oficial, enquanto o inglês era adotado como língua do partido de Nelson Mandela, o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês).

Moçambique

O jornalista moçambicano Rogério Ba-Senga, 40 anos, que vive no Brasil há 17 anos, cita uma frase popular em seu país de origem que diz que “a diferença entre uma língua e um dialeto é que a primeira sempre tem um exército por trás”, ou seja, é uma conquista, uma imposição.

Ba-Senga lembra que quando os portugueses chegaram ao país já existiam muitos idiomas sendo falados por lá. A língua portuguesa foi imposta e quando o país tornou-se independente em 1975 continuou sendo adotado como forma de manter a unidade nacional. “Há vários questionamentos sobre o quanto isso foi válido, com as políticas de resgate das várias línguas que foram perdendo sua função pelo fato da educação e comunicação burocrática ocorrerem em português”, contextualiza.

Vinte línguas são contabilizadas oficialmente no país, mas há uma variação de acordo com a fonte. Existem vários critérios para tentar dizer quais e quantas são, mas os estudiosos do tema preferem não cravar um número exato. “Alguns dizem que são quatro, outros chegam a 12, mas esses grupos vão se subdividir em várias outras línguas. Quando você abre esse leque pode chegar entre 40 e 50 línguas no território moçambicano”, afirma o jornalista. Entre os grupos étnicos, que têm línguas próprias estão os Xongas, Bitongas, Xonas, Marares, Macubas, Yiaos, Macondis, Swahilis e CHops. Entre as línguas mais faladas estão o Macua, Xangana, Lounhe, Suapo, Macondi.

Esse plurilinguismo torna mais desafiador temas de interesse nacional, como consultas públicas, que precisem ser feitas em todo país. “Lidar com essa diversidade é importante, uma vez que apagar essas singularidades de cada povo iria ‘empobrecer culturalmente o país’”, considera Ba-Senga.

O jornalista crava que é impossível estar em Moçambique e não ter contato com as línguas locais. Quando se percorre o país, cada região fala uma língua diferente da outra, e as famílias de cada porção do território nacional falam as línguas de suas etnias em casa. No caso de Rogério, o pai conversava em Sena, mesmo nome de sua etnia. Já a mãe fala Xangana. As duas línguas eram usadas em sua casa, junto com o português.

Ba-Senga lembra que as línguas guardam tradições seculares e que cada uma é única e importante como meio de expressão para seu povo. “A língua é a forma como a gente traduz o mundo em que a gente vive. Tem vários dilemas pessoais, sociais, que eu teria muita dificuldade em explicar em português. Há palavras/situações para as quais não existe uma tradução direta”, considera.

Para ele, a língua ajuda a traduzir o mundo, as relações sociais, interpessoais, familiares. “Quanto mais a gente preservar, vai se entender não como moçambicano, mas como parte de algo muito mais forte do que uma fronteira burocrática, algo que nos liga em comum. É uma relação social que foi construída ao longo da tradição que se perpetua pela língua”, considera.

O moçambicano Marilio Wane, que morou no Brasil, onde fez mestrado em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), reforça que o projeto de reconhecer o português como língua oficial após a independência do país e forma de unificar o país foi um processo polêmico. “A luta pela independência foi feita por moçambicanos de origens diversas, porque o país não existia, então a criação dessa unidade sufocou as particularidades regionais”, afirma ele, que é pesquisador no ARPAC-Instituto de Investigação Sócio-Cultural (o Ministério da Cultura de Moçambique).

A diversidade cultural é, segundo Wase, uma potência do país e vem sendo trabalhada nas escolas e no canal estatal de TV, que nos últimos dez anos passou a ter noticiários transmitidos nas diferentes línguas faladas em cada uma das 10 províncias do país. “Há um desafio no ensino das línguas africanas, de formar professores e do sistema de ensino se adaptar a isso”, considera.

Wase pesquisou em seu mestrado uma expressão cultural moçambicana chamada Timbila, proclamada patrimônio da humanidade em 2005. “Essa prática musical de dança é também um veículo da expressão linguística. Estamos falando de línguas que não são escritas e as canções servem como uma forma de registrar a história de determinado povo”, afirma. Os mestres de timbila cantam músicas de décadas atrás para se referir a um determinado fato histórico ou situação, uma forma de preservação da identidade local.

“O que ocorre com a Timbila se aplica a outros estilos de música e dança ao longo do país, com as suas variações e diversidades. A música funciona como uma forma de preservar a memória, de crítica social e do próprio povo interpretar os fatos da realidade cotidiana”, afirma. Um exemplo citado por ele é o de um músico que gravou um timbila para alertar sobre o coronavírus. “Foi a forma mais eficiente de comunicar essa ideia nas comunidades rurais sobre a região onde existe esta prática cultural”, considera.

Além das 20 línguas nacionais e o português, o árabe é bastante falado no país, uma vez que 30% da população moçambicana é muçulmana. A língua inglesa também está presente, já que o país é cercado de ex-colônias britânicas e o português brasileiro também faz parte do cotidiano, por meio de novelas, internet e mesmo das igrejas evangélicas.

Brasil

No Brasil, onde apenas o Português e a Libra são línguas oficiais, a comunidade negra tem expressões próprias e a criação de formas de falar de expressões usadas nas periferias.

“A língua é um objeto vivo. Ela vive em constante mudança. Entre amigos, temos nossas próprias palavras, expressões, que revelam sentimentos característicos da nossa comunidade, de como a gente viveu, dos nossos contextos. É importante que essa força criativa dos grupos sociais, da sua própria maneira de se expressar”, considera Iacy Correa.

A recusa da variedade linguística existente no Brasil feita pela elite é uma forma de preconceito. “Quando a gente houve alguém falar do sotaque nordestino, isso faz parte do preconceito linguístico. Quando a gente julga alguém que dentro da periferia tem a sua maneira de falar, isso também é preconceito linguístico”, exemplifica a mestre em Comunicação e Territórios pela universidade francesa Paul Sabatier.

A maneira de falar faz parte da identidade social das pessoas e carrega reflexos do racismo estrutural do Brasil, de acordo com Iacy Correa. “A nossa elite importou modelos europeus e nunca valorizou a cultura e a identidade cultural brasileira. Por isso, existe uma rejeição do português brasileiro, dessa mistura linguística que vem do povo indígena e dos africanos escravizados e trazidos para o Brasil. O nosso português carrega essas influências e as elites recusam isso”, afirma.

O professor, linguista e escritor Gabriel Nascimento, doutor em Estudos Linguísticos pela Universidade de São Paulo (USP), autor do livro Racismo Linguístico, lembra que a discriminação racial se constitui por meio da língua. “Estudo como a prática linguística permite esse racismo. Nós só existimos por meio da língua, não é apenas uma forma de dizer o real, mas de existir”, ressalta.

Ele lembra que quando os colonizadores chegaram ao continente africano esses povos já falavam suas línguas, que passaram a ser denominadas como dialetos. “Quando não está na normas do padrão branco, passam a classificar como dialeto”, ressalta. Já a Europa cria o conceito de língua nacional. “É um conceito racista. Eles tentam fazer uma padronização por meio de sua identidade branca, uma vez que diversos povos falavam diferentes línguas e essa definição é constituída pelo ideal europeu”, explica.

O racismo linguístico, segundo Nascimento, se dá por meio da língua, quando alguém chama o outro de macaco, por exemplo; mas também está na língua, quando a língua permite situações de racismo como a palavra “denegrir”, que significa tornar algo negro do ponto de vista negativo.

O professor, linguista e escritor cita ainda a importância do “pretoguês”, que leva em conta a influência dos povos escravizados de diversas formas por meio das palavras, dos sons. “Os povos africanos trouxeram a harmonização vocálica para o Brasil, percebida pela antropóloga Lélia Gonzalez, que já falava do pretoguês na década de 80. Mas isso é negado, o que é mais uma forma de racismo”, afirma.

Nascimento lembra que no Brasil fomos ensinados a ser monolíngues, mas carregamos essa herança ancestral de falar várias línguas. “Os movimentos africanos criam uma diversidade própria de povos que não se enxergavam pela cor da pele, mas pela etnicidade, pelo conceito de família. Essa diversidade de línguas não pode ser numerada”, considera. O pesquisador finaliza lembrando que a “língua é um marco que nos faz existir no mundo, com manutenção de tradições, sabedorias e que o multilinguismo mostra a diversidade dos povos africanos”.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com