fbpx
 

Homens e mulheres de diversas nacionalidades estão sendo vendidos como escravos na Líbia ao tentar acessar a Europa. Casos de brutalidade foram descritos pela OIM, alertando as autoridades mundias sobre o caso.

Texto: Solon Neto
Ilustração: Alma Preta

Um homem senegalês identificado como SC afirmou à Organização Internacional para a Migração (OIM) que foi comprado e vendido como escravo, e que testemunhou o funcionamento de uma rede de tráfico humano na Líbia. Além dele, diversos outros imigrantes estariam confirmando a história que parece vir direto de quatro séculos atrás.

A OIM divulgou informações afirmando que contrabandistas estão sequestrando e vendendo imigrantes às centenas em mercados de escravizados na Líbia. Segundo essas informações, as negociações chegam a ser realizadas em praça pública, lembrando os leilões dos séculos da escravatura nas Américas e Europa.

À BBC, o chefe da missão da OIM para a Líbia afirmou que os preços dos escravizados variam de acordo com as habilidades que apresentam para diversos trabalhos, e que estariam sendo vendidos pois nem sempre os sequestros resultam em resgate.
A organização afirma que centenas de homens e mulheres jovens são vítimas desse tipo de crime. Não há informações sobre desde quando essa prática tem acontecido, pois teria sido reportado poucos dias depois de ter sido flagrada.

Segundo a própria OIM, essa é apenas uma das atrocidades relatadas no país, que vive crise política, econômica e humanitária desde a queda de Muammar al-Gaddafi.

Sequestros, assassinatos, trabalho forçado, extorsão, tortura e abuso sexual

Quando SC tentava atravessar o deserto do Saara, no Níger, ele foi abordado e cobrado em cerca de 320 dólares para continuar a passagem até a Líbia. Ainda lá, passou dois dias sob os cuidados de um traficante, que providenciou moradia até a chegada do caminhão que realizaria a viagem de dois dias.

A rota é perigosa. A OIM já ouviu relatos sobre o trecho afirmando que restos mortais de pessoas deixadas para trás pelos motoristas foram vistos ao lado de caminhões esquecidos após terem seus combustíveis roubados. Apesar disso, a viagem teria sido tranquila para o grupo que SC passou a integrar.  

Na chegada à Líbia, no entanto, as coisas mudaram. Na cidade de Sabha, sudoeste do país, o motorista afirmou à SC que não havia sido pago pelo traficante, e que estaria levando os migrante para um estacionamento, em que SC viu com os próprios olhos um mercado de escravos.

Segundo o staff do Níger da OIM, migrantes da África sub-saariana estavam sendo vendido e comprados por Líbios com a ajuda de Ganeses e Nigerianos que trabalhariam para eles.


SC foi comprado e levado para um cativeiro dividido com mais de 100 outros migrantes feitos reféns. Ele relatou que os migrantes eram torturados ao telefone para que suas famílias pagassem resgate. O primeiro resgate de SC teria sido de 480 dólares. Por não conseguir pagar, foi vendido a outro Líbio, e seu preço de resgate subiu para 970 dólares.

O senagalês conseguiu juntar dinheiro através de sua família e passou a trabalhar como intérprete com os sequestradores para evitar torturas. Suas declarações descrevem peśsimas condições sanitárias e alimentação oferecida apenas uma vez por dia. Segundo SC, os prisioneiros que não conseguiam pagar eram assassinados ou deixados sem comer até a morte.

As informações do sobrevivente à OIM afirmam que quando havia mortes ou alguém saía devido a pagamento de resgate, os sequestradores voltavam aos mercados de escravos e para substituir suas perdas. As mulheres seriam compradas também por outros indivíduos e levadas para casas em que eram forçadas a ser escravas sexuais.

A escravidão não seria apenas através desse tipo de sequestro. Segundo diversos relatos colhidos pela OIM, que confirmam a fala da SC, há também migrantes sendo comprados por comerciantes que ao invés de pagá-los pelo trabalho em lojas e na contrução civil, os vendem para outros. Alguns, a maioria da Nigéria, Gana e Gâmbia, são forçados a trabalhar como guardas nos cativeiros ou até nos mercados de escravos.

Outro caso de fugitivo relatado em detalhes pela OIM foi o de Adam, nome fictício. Ele ele outros 25 migrantes da Gâmbia foram sequestrados dentro da Líbia enquanto viajavam de Sabha para Tripoli. Eles teriam sido sequestrados por homens Árabes e também da própria Gâmbia, sendo levados para um cativeiro com cerca de 200 pessoas, a maioria homens.

Os prisioneiros seriam de diversas partes da África e eram torturados todos os dias, além de serem forçados a ligar para suas famílias pedindo resgate. A família de Adam levou 9 meses para conseguir o dinheiro e libertá-lo, vendendo, inclusive, a própria casa. Ao ser libertado em Tripoli, Adam pesava apenas 35 quilos, e passou 3 semanas em um hospital se recuperando de desnutrição e feridas de tortura. Lá, funcionários da OIM foram alertados e enviaram médicos para ajudá-lo, além de enviarem roupas e garantirem proteção. Ele passou mais um mês em uma casa na cidade, graças a uma família voluntária, voltando para Gâmbia em 04 de abril, onde foi novamente hospitalizado.

O caso de uma jovem mulher também foi divulgadas pela OIM. Ela teria sido mantida em cativeiro em um depósito perto do porto em Misrata por sequestradores da Somália. É possível que o cativeiro tenha durado 3 meses. O filho e o marido dessa mulher, que viviam no Reino Unido desde 2012, recebiam ligações nesse período exigindo dinheiro. A mulher teria sofrido estupro e tortura. A família já teria pago aos sequestradores 7.500 dólares, mas o mesmo valor estaria sendo pedido novamente.

Falta de informação é generalizada

Segundo o diretor de operações e emergências da OIM, Mohammed Abdiker, afirmou ao site da organização que há valas comuns no deserto. A OIM reporta que 171 pessoas foram encontradas mortas apenas este ano nas praias do mediterrâneo, e milhares de outras haviam sido resgatadas. Já a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para refugiados (UNCHR), divulgou dados que afirmam que 5.000 pessoas morreram tentando a travessia, aproximadamente 14 por dia.

O porta-voz da OIM, Leonard Doyle, afirmou de Geneva, Suiça, que os migrantes que tentam acessar a Europa através da Líbia simplesmente não sabem do que os espera no país, e que há trabalhos para tentar espalhar a informação pelo continente. As fontes mais confiáveis são homens e mulheres resgatados pela organização que relatam os casos já brutalizados e psicologicamente destruídos.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com