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Oposição considera como golpista a ação do atual presidente, que se autoproclamou em 27 de fevereiro em meio a recontagem de votos no Supremo Tribunal de Justiça; profissionais da saúde alertam sobre a estrutura para enfrentar a crise do coronavírus

Texto / Pedro Borges | Edição / Simone Freire | Imagem / Reprodução

O presidente da Guiné-Bissau, Umaro Embaló, decretou estado de emergência no país pelo período de 15 dias, para conter a disseminação do Covid-19, o novo coronavírus. Até o momento, o país tem dois casos confirmados de coronavírus, ambas de outras nacionalidades.

Com a medida, proíbe-se a circulação do transporte público e limita-se o deslocamento de pessoas para profissionais de saúde, jornalistas, segurança pública e outras profissões descritas como essenciais. Farmácias, mercados, comércio, postos de gasolina, entre outros serviços, seguem abertos apenas entre as 7h e às 11h da manhã, quando é permitido trânsito de cidadãos para a compra e venda de produtos essenciais. A decisão foi anunciada pelo Ministro do Interior, Botche Candé, no dia 28 de março.

Apesar de ter oficialmente fechado a entrada e saída de pessoas para os países vizinhos desde o dia 18 de março, há dificuldades para esse controle por falta de infraestrutura e agentes de segurança, em especial na fronteira de países como Senegal. A carência no controle gera preocupação, pois Senegal tem 142 casos confirmados e a maior entrada de pessoas do país vizinho poderia aumentar a disseminação do Covid-19 em Guiné-Bissau.

O primeiro caso confirmado no país foi de um empresário indiano e residente em Bissau, e o outro foi de um congolês, funcionário das Nações Unidas. Há um terceiro suspeito, de um jovem que estudava em Senegal e retornou recentemente ao país.

Idrissa Djalo, líder do Partido da Unidade Nacional (PUN), pediu a construção de uma unidade nacional para enfrentar a pandemia. Um dos objetivos é o de apresentar para a comunidade internacional a existência de um governo organizado e conseguir apoio financeiro e médico com outras nações. Até o momento, Cuba se apresenta como um dos parceiros da Guiné-Bissau, com a presença de 43 médicos, todos colocados a disposição para contribuir no contingenciamento da pandemia.

A proposta é a de se suspender as disputas eleitorais, criar uma equipe de trabalho com especialistas de saúde, e outra equipe com profissionais da economia. Ambos times teriam poderes para propor estratégias de contingenciamento da doença e superação dos danos causados à economia. “O nosso país, a Guiné-Bissau, sem dúvida alguma faz parte do elo mais frágil do nosso continente”, escreveu em pronunciamento, Idrissa Djalo, líder do PUN.

O Ministro da Economia e Integração Nacional, Victor Mandinga, participa de uma comissão multissetorial com a Organização Mundial da Saúde (OMS) para a execução de um plano de contingenciamento do vírus. Eles estimam a necessidade de um milhão de euros para a construção de espaços de isolamento, ambientes de tratamento e a compra de equipamentos médicos.

Representante da Ordem dos Enfermeiros da Guiné-Bissau, Alberto Oliveira Lopes, em entrevista à Agência Lusa, disse que o país não está "minimamente preparado" para enfrentar a pandemia, tanto no quesito de materiais, quanto em aspectos técnicos.

O grupo orienta o governo a preparar uma formação para os profissionais de saúde que vão lidar com casos de Covid-19, compra e distribuição de equipamentos de proteção, compra de ventiladores pulmonares, entre outros pedidos.

Crise política

A Guiné-Bissau enfrenta uma grave crise política desde as eleições presidenciais de 29 de dezembro de 2019, disputadas por Domingos Simões Pereira, Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), e Umaro Sissoco Embaló, Movimento para Alternância Democrática (MADEM G-15). Os primeiros resultados divulgados deram vitória a Embaló, com 53,55% dos votos, contra 46,45% do rival.

O PAIGC acredita em fraude durante o pleito e pediu para o Supremo Tribunal de Justiça investigar o caso, investigação em curso desde 24 de fevereiro. Ainda não houve uma resposta sobre o processo.

Pouco depois de receber a denúncia e iniciar a investigação, Embaló se autoproclamou presidente em 27 de fevereiro e nomeou para o cargo de primeiro ministro Nuno Nabian, Partido Democrático da Guiné-Bissau (PDGB), depois de retirar do cargo Aristides Gomes, Partido Republicano para Independência e Desenvolvimento (PRID), quem dialogava com o legislativo na antiga gestão. Durante a autoproclamação, Embaló apelou para o exército e disse ser “necessário fazer guerra” para que a Guiné-Bissau “nunca mais fique refém” de “alguns países”.

Embaló ocupa o posto de presidente com o apoio de militares, apesar de negar a existência de um golpe em curso e aguardar a decisão do Supremo Tribunal de Justiça sobre as eleições. Depois de retirar Aristides Gomes do cargo de primeiro ministro, militares tomaram conta dos meios de comunicação, como rádios e televisão públicas, e ordenaram a suspensão da programação.

Líderes da oposição chegaram a anunciar que foram ameaçados pela atual situação. O presidente Embaló e o líder do governo Nuno Nabian negaram qualquer acusação em pronunciamentos oficiais.

A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) ameaçou impor sanções sobre Guiné Bissau e condenou o envolvimento político por parte dos militares. As Nações Unidas, União Europeia e a Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) pediram o diálogo entre as partes envolvidas e o respeito à constituição do país.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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