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Pesquisadores analisam os possíveis desdobramentos da eleição presidencial dos Estados Unidos para os países do continente africano a partir do histórico recente da política internacional norte-americana

 Texto: Redação | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/ABC 7 Chicago

O democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump disputam neste ano a Presidência dos Estados Unidos. A disputa, uma das mais polarizadoras da história do país, é marcada pela pandemia da COVID-19 e pela volta do debate racial às ruas norte-americanas nos últimos meses.

Os EUA são um dos países mais influentes do mundo e tiveram uma presença marcante no continente africano nas últimas décadas. O Alma Preta ouviu três pesquisadores para analisar os possíveis desdobramentos da eleição presidencial norte-americana para os países africanos, levando em conta o histórico recente da política internacional dos EUA para a África sob o comando dos partidos democrata e republicano.

Republicanos e democratas compartilham história recente semelhante na África

Apesar das diferenças, a política norte-americana para a África pouco muda entre democratas e republicanos. É o que diz o professor Flávio Thales Ribeiro Francisco, da Universidade Federal do ABC (UFABC), pesquisador da História dos EUA.

“Historicamente não há diferença. Se tem uma questão que é debatida sobre a política internacional é que quando se trata de agenda internacional basicamente as diferenças são mínimas. Talvez o que marcou mais as diferenças entre as agendas conservadoras republicanas e as agendas que poderiam ser consideradas progressistas, dos democratas, foi a Guerra ao Terror”, aponta.

Ribeiro recorda que após a Guerra ao Terror, nos anos seguintes aos ataques de 11 de setembro de 2001, houve uma tendência dos democratas de apoio a políticas via órgãos multilaterais, o que não os impediu de realizar ações militares no continente africano.

“Isso é possível de se identificar claramente no período do ex-presidente Barack Obama, mas na hora do pragmatismo o que acaba acontecendo é que se precisar utilizar o recurso militar os democratas vão utilizá-lo também. Foi o que aconteceu em relação à Líbia”, aponta Ribeiro, lembrando a invasão liderada pelos EUA no país africano, em 2011.

O pesquisador ressalta que a Líbia “apesar de um regime autoritário” tinha uma economia pujante e foi “praticamente devastada” pelas forças da OTAN.

Paris Yeros, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), pesquisador da área de Relações Internacionais e especializado no estudo sobre países africanos, aponta características semelhantes da política dos EUA sob liderança democrata e republicana em duas áreas: econômica e militar.

Yeros explica que as principais políticas econômicas em vigor dos EUA para a África datam do governo do ex-presidente norte-americano Bill Clinton, a partir da Lei para Oportunidade e Crescimento para a África (African Growth and Opportunity Act, AGOA), cujas bases foram mantidas em todos os governos seguintes.

Já os militares datam do sucessor de Clinton, o ex-presidente George W. Bush, que criou o AFRICOM, o comando militar dos EUA para a África, ainda em 2007. O professor destaca que essa organização ganhou impulso no governo seguinte, do ex-presidente Barack Obama, e continuou com Trump.

“O comando africano foi criado em 2007, e logo em seguida, quem implementou mesmo, quem elaborou, levou para a frente, foi o governo Obama. Então não tem uma diferença muito grande, de fato, concretamente, nessas duas questões [econômicas e militares]” indica Yeros.

O pesquisador aponta que o AFRICOM, baseado na Alemanha, onde os EUA também têm tropas, tem se expandido no continente africano. O comando, parte da estrutura militar global dos EUA, é responsável por missões e ataques com drones em países da África.

A única diferença que Yeros nota nessa área, em relação ao presidente Trump, é que o atual ocupante da Casa Branca teria interesse em retirar o comando da Alemanha, mas para pressionar o país europeu no âmbito da OTAN.

No setor econômico, o professor recorda que a parceria entre os EUA e a África chegaram a ganhar um reforço no âmbito da chamada Guerra ao Terror, quando a instabilidade instalada no Oriente Médio levou os norte-americanos a buscarem segurança energética, via petróleo e gás, ampliando parcerias com países como a Nigéria e a Angola e reforçando o AFRICOM, de olho na crescente presença da China no continente.

“Essa relação também tem mudado. Se o petróleo foi a força motriz econômica da presença militar, esse fator tem mudado depois de 2008. A produção de petróleo nos EUA revolucionou toda a relação com os produtores de petróleo no mundo, inclusive com Nigéria e Angola. A parceria econômica [da África] com os Estados Unidos a partir de 2008-2009 tem diminuído, principalmente por causa da diminuição das exportações de petróleo e gás”, argumenta Yeros.

O professor também destaca que Trump tem dado preferência para tratados bilaterais com outros países em vez de acordos mais amplos. Para ele, esse tipo de política pode minar as bases das relações econômicas com países africanos, porém não descarta que Joe Biden também o faça dessa maneira, uma vez que o protecionismo teria raízes comuns no pensamento norte-americano.

“Entre os dois [Biden e Trump] não se tem grandes diferenças ideológicas. O protecionismo que tem hoje tem raízes internas nos EUA profundas. O Biden também pode e provavelmente vai assumir parte dessa política econômica de Trump”, aponta Yeros, lembrando que essa visão ganhou mais relevância entre eleitores norte-americanos.

Marcio Farias, doutorando em Psicologia Social pela PUC-SP e professor convidado da Universidade de São Paulo (USP), concorda com a visão de que há poucas diferenças entre Biden e Trump. Para ele “ambos são imperialistas” e as diferenças se darão nas estratégias.

“No campo das estratégias, eles podem se mostrar distintos, mas ambos terão posturas pragmáticas no que diz respeito às relações com o continente africano. São relações de imposição e subordinação. O que difere são as estratégias e métodos”, avalia.

Imigração, racismo e postura doméstica

Apesar das semelhanças das políticas dos democratas e republicanos, Trump é apontado como um dos presidentes com menor interesse no continente. Pouco antes de assumir a Casa Branca, Trump chamou, de forma generalizada, os governos africanos de corruptos. Já no cargo, o atual presidente chegou a se referir às mesmas nações como países de “merda”, no contexto da postura hostil do presidente em relação à imigração.

Para o professor Flávio Ribeiro, a postura desinteressada de Trump com a África não decorre diretamente do racismo e faz parte de um recuo geral na política externa dos EUA sob sua gestão.

“Acho que tem uma relação [com o racismo], mas não é uma relação direta. O fato de ele flertar com orientações supremacistas nos EUA não leva ele [Trump] diretamente a, por exemplo, investir menos em programas voltados ao continente africano. Eu acho que talvez se fosse um outro republicano, a tendência seria a mesma. A gente tem que levar em consideração o fato de que, seja para republicanos, seja para democratas, as agendas para os países africanos não figuram entre as mais importantes”, considera.

O pesquisador Marcio Farias acredita que a postura doméstica de Trump deve ser separada da estratégia política internacional. “Trump tem uma estratégia de política internacional e tem um debate no interior dos EUA que ele alavanca, mas não são relações causais. Se diante das contingências ele precisar dialogar com lideranças e países africanos, a depender dos seus interesses, ele dialogará. A gente tem que tomar cuidado para não fazer uma análise moralizante e psicologizante das posturas do Trump”, aponta.

Farias reitera que na postura externa dos EUA cabe uma leitura mais estrutural do racismo, mas “por outras formas de objetivação” e não uma relação causal com a postura doméstica de Trump.

O professor Thales Ribeiro destaca outro aspecto doméstico dos EUA fundamental no contexto das eleições de 2020 e também do debate em torno da imigração no país. “Alguns pesquisadores fazem a projeção de que a partir de 2050 a população eurodescendente, ou seja, a população branca, não será mais maioria [nos EUA]. Isso é importante porque os conservadores e principalmente a extrema-direita dos EUA vai utilizar esse tipo de projeção para dizer o seguinte: é necessário que a população branca retome as rédeas do governo norte-americano. Basicamente, esse é o discurso supremacista branco”, explica.

O especialista em História norte-americana aponta ainda que os EUA, diferente do Brasil, têm bases para a construção de um discurso político supremacista.
“Os supremacistas trabalham com uma ideia de que o poder precisa se concentrar nas mãos dos brancos e as políticas públicas, seja na saúde, seja na educação, seja em termos de políticas econômicas, precisam se concentrar nas mãos dos brancos, elas devem privilegiar os brancos”, diz. 

Ribeiro acrescenta que isso se revela no discurso contra a imigração e na retirada de conteúdos de história afro-americana e latina das escolas nos estados norte-americanos. Para os supremacistas, os brancos criaram os EUA, o que difere do mito fundador brasileiro.

Em meio ao debate imposto pela mudança demográfica dos EUA, é no campo da imigração que a postura de Trump se torna mais notável em relação a países como os africanos. Marcio Farias, autor de um estudo sobre imigração africana na cidade de São Paulo, explica que um dos problemas causados pelo enfrentamento à imigração, capitaneado por Trump nos EUA, é a diminuição de recursos financeiros enviados aos países africanos.

“Uma das grandes questões, do ponto de vista econômico, é a remessa de dinheiro que imigrantes que trabalham nos EUA, ou que vão aos EUA, enviam para alguns países. Acho que esse é o grande impacto desse fechamento, mas há uma dimensão de retórica nesse processo porque o imigrante é um fenômeno que não se esgota no contemporâneo. Ele é, inclusive, importante e fundamental para o rebaixamento de salários. Assim, a retórica belicista é performática em alguma medida”, aponta.

Essa dimensão performática do discurso contra a imigração, de acordo com o pesquisador, dá sentido para os anseios de uma parcela da população, mas precisa ser questionada porque há uma relação de dependência de economias como as dos EUA e da Europa com o trabalho imigrante.

Farias também ressalta que o poder global de influência dos EUA sobre a política imigratória de outros países é maior em relação ao chamado Sul Global, que inclui países como o Brasil e a Colômbia, e menor em relação à Europa, que tem uma dinâmica própria nesse sentido. Para ele, Biden deve diminuir o tom belicista com a imigração no país e reabilitar Obama - que também não avançou o suficiente, apesar do discurso diferente.

A presença dos EUA na África e a disputa com a China na pandemia da COVID-19

A África tem uma importância histórica para a formação dos EUA, mas também se tornou ao longo das últimas décadas um território de disputa de influências para os norte-americanos. O professor Paris Yeros recorda que as políticas atuais de Washington na África sucederam à política da Guerra Fria, quando os EUA tinham “pilares geopolíticos” no continente como o apoio ao regime sul-africano do apartheid.

À época, a África do Sul serviu aos EUA como contraponto às lutas de libertação apoiadas no nacionalismo e no socialismo africano. Yeros aponta ainda que um segundo pilar de apoio de Washington no continente ruiu em 1997 com a queda de Mobutu Sese Seko e o colapso do Zaire, que se tornou a República Democrática do Congo.

“Nos anos 1990, os EUA perderam dois de seus grandes pilares geopolíticos na África Central [o antigo Zaire] e na África Austral [na África do Sul]. Em seguida, a China levantou a cabeça, por assim dizer [...]. Ela [China] entrou [na África] com muitos investimentos, uma nova relação econômica, e os EUA, por instinto, reagiram militarmente – é ali que nós temos a ideia do comando africano”, explica Yeros.

O também professor da UFABC, Flávio Ribeiro, avalia que os EUA têm outros instrumentos econômicos para influenciar a política doméstica de países africanos, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), sendo que o engajamento direto fica à cargo das vias militares.

“O FMI trabalha sempre com uma lógica emergencial. A partir dessa lógica emergencial os países africanos, como não podem recorrer a empréstimos por outros canais, são obrigados a seguir as diretrizes do FMI”, explica, apontando que essas diretrizes incluem privatizações e reformas fiscais.

Ribeiro pondera que apesar de saberem da crescente influência econômica da China sobre países africanos, os EUA mantêm exigências como a abertura das economias locais para conceder auxílio financeiro.

“No que se refere à China é interessante porque os EUA perceberam o avanço chinês sobre o continente africano. Enquanto os norte-americanos exigiam que os países africanos seguissem o modelo de abertura de suas economias para receber empréstimos, os chineses fazem, basicamente, investimento em infraestrutura nos países africanos”, afirma Ribeiro, complementando que um dos interesses chineses nesse processo está ligado à necessidade de importações de alimentos. A África é considerada hoje uma das regiões com maior potencial agrícola no mundo.

Para Ribeiro, os EUA precisam mudar a postura em relação à África para competir em termos de influência com a China e entende que possivelmente a pandemia da COVID-19 terá impacto sensível nesse processo. Os problemas econômicos que a crise sanitária causou nos países africanos foram o destaque do discurso do presidente sul-africano, Ciryl Ramaphosa, na Assembleia Geral da ONU, neste ano.

“Os países africanos voltaram a recorrer ao Fundo Monetário Internacional para fazer empréstimos por conta de como a pandemia teve um impacto negativo sobre essas economias. Pode ser que os EUA utilizem novamente do FMI para tentar influenciar nesse cenário o continente africano”, avalia Ribeiro, acrescentando que entende que os países africanos tentarão obter melhores acordos diante da disputa entre as duas potências.

China e a União Europeia são hoje os maiores parceiros comerciais do continente africano, sendo que a China se destaca nesse papel, assim como no crescente investimento em países da África. O professor Paris Yeros explica que no sentido econômico as características estatais do investimento chinês levam vantagem sobre as características privadas dos EUA, uma vez que não estão focadas no curto prazo e podem ser influenciadas diretamente pelo Estado chinês. Daí a preferência norte-americana pela presença militar, área em que o Estado tem influência mais direta.

“Da África Central para cima, essa região – Sahel, oeste, leste – está tudo tomado militarmente pelos Estados Unidos, todos esses países têm contingentes importantes de forças especiais e outras relações americanas”, diz Yeros, ressaltando que essa situação é diferente na África Austral, principalmente por causa do Pacto de Defesa Mútuo da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, firmado em 2003.

O pacto garante que os países defenderão uns aos outros em caso de agressão externa. Yeros recorda que há contradições nessa posição, como o apoio na ONU de África do Sul e Nigéria à invasão da Líbia, mas que, de forma geral, faz parte de um contexto que impede maior influência dos EUA na região austral do continente.

Apesar de pouco abordada pelos candidatos à Presidência dos EUA, a África certamente terá relevância na política adotada pelo presidente eleito em novembro, dado o crescente potencial econômico e geopolítico do continente. Seja com Trump ou Biden, os países africanos terão desafios próprios, como a crise econômica pós-pandemia, o combate à pobreza e a construção de suas infraestruturas.

Ainda no discurso na ONU, o presidente sul-africano, Ciryl Ramaphosa, talvez tenha dado indícios do futuro que espera ao falar pela União Africana pedindo compromisso com o desenvolvimento africano e ao apoiar o movimento Black Lives Matter, que tomou as ruas dos EUA durante a pandemia:

“Como um país que conheceu muito bem a angústia do racismo institucionalizado, a África do Sul apoia as demandas por uma ação rápida contra o racismo, seja cometido por indivíduos, empresas, funcionários ou o Estado. A África do Sul exorta a Organização das Nações Unidas a não poupar esforços para acabar com o preconceito e a intolerância em todas as suas formas e onde quer que se encontrem. Nas palavras do Dr. Martin Luther King Jr: ‘A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares’.”.

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