Após eleição disputada, resultado é constestado na Justiça e oposição espera reverter derrota. Todos os olhos do país estão na Corte Constitucional, que decidirá se eleições foram fraudadas ou não

Texto /  Da Redação
Imagem / Reprodução

Ao final do mês de julho, cidadãos do Zimbábue foram às urnas para decidir o novo presidente. Estavam no páreo dois candidatos distintos, tanto em idade quanto em projetos. Ambos, porém, participam de um momento histórico: as primeiras eleições após a saída de Robert Mugabe do poder.

O primeiro  candidato é Emmerson Mnangagwa, do partido da União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU-PF), um veterano da política no país que assumiu o poder através de um golpe sobre o próprio Mugabe, que deixou a presidência após 37 anos, entre glórias e controvérsias. Mnangagwa era o vice-presidente de Mugabe.

Do outro lado, um candidato jovem, de 40 anos, Nelson Chamisa, tenta fazer história e ergue-se ao posto de chefe do executivo. Ele seria não só o chefe mais jovem a assumir o poder da República, como seria a primeira vez, desde a independência, que a democracia do Zimbábue veria alternância de poder.

Ambos encheram estádios em grandes comícios e agitaram a sociedade zimbabueana, enchendo os jornais do mundo com imagens e otimismo da população com o futuro.

As eleições históricas marcam uma espécie de reinício republicano, após uma sequência de pleitos controversos e contestados com vitórias de Mugabe em meio a conflitos.

A votação apertada, no entanto, deu a vitória a Mnangagwa, com 50,8% dos votos, contra 44,3% de Chamisa. Essa situação manteria o poder dentro do mesmo partido.

Só que o destino do Zimbábue ainda não foi resolvido. Após as eleições, o lado derrotado não aceitou o resultado e foi às ruas. A polícia reprimiu os manifestantes com violência, causando seis mortes entre os manifestantes.

As águas ficaram ainda mais turvas com o pedido de Nelson Chamisa de uso de um dipositivo constitucional que impediu a posse do novo presidente ainda no domingo (12).

Chamisa e seu partido, Movimento pela Mudança Democrática, acreditam que a eleição foi fraudulenta e apresentaram um recurso previsto no país que será julgado por uma corte constitucional, liderada pelo juiz Luke Malaba, em até 14 dias.

Todo candidato no Zimbábue pode apresentar esse tipo de recurso em até sete dias após o resultado do pleito eleitoral.

O partido de Chamisa agora tem que provar diante da corte que a eleição foi fraudada. A Justiça, então, pode anular a eleição ou pedir a recontagem dos votos.

A Corte tem diversos juízes que foram apontados pelo ex-presidente Mugabe, do partido de Mnangagwa. No entanto, Mugabe já declarou seu apoio à oposição.

A decisão da Corte é considerada um teste de independência do Judiciário, que terá diante de si uma decisão complexa e que poder disparar ainda mais insegurança sobre o processo democrático no país.

Nelson Chamisa está confiante. Ele posta em sua conta no Twitter que acredita na vitória.

Já os representantes do partido da situação, o ZANU-PF, também demonstram confiança, e assentam sua fé no argumento de que o processo do partido da oposição tem mais questões políticas do que legais diante de si.

Disputas políticas no país remetem à luta contra o colonialismo

Não se sabe o que acontecerá nos próximos dias no país, mas esse tipo de conflito não é novidade na história do Zimbábue.

A nação é um dos exemplos mais conhecidos dentre as revoluções africanas de países que mantiveram um mesmo líder por décadas. A política no país tem sido recheada de controvérsias e conflitos.

Após a heróica derrota do colonialismo inglês no país, em 1965, o Zimbábue, na época ainda chamado de Rodésia, passou por um longo período de conflitos internos. Esses conflitos foram marcados  pela busca da maioria negra pelo reconhecimento de seus direitos diante da minoria branca, que seguiu dominando o país após a declaração de independência.

Apenas em 1980, com a mudança do nome do país para Zimbábue, a maioria negra foi reconhecida, assim como a independência do país diante da comunidade internacional. 

Foi então que Robert Mugabe assumiu o poder, sendo reeleito sucessivas vezes. Ele ficou conhecido pelo papel de protagonismo diante da luta armada contra a minoria branca no país nos anos 1970, e mais tarde, já no poder, por empregar políticas de reforma agrária no país estatizando as terras dos brancos.

Antes de ser retirado do poder pelos militares e substituído por seu vice-presidente, Mugabe também enfrentou conflitos com a oposição. Desde meados dos anos 2000, grupos o antagonizaram e contestaram o processo eleitoral praticado. 

Apesar das mudanças nas características, o que se segue é uma contínua luta por autodeterminação. Enquanto Mugabe esteve no poder, o país enfrentou sanções econômicas, e vive uma crise que se reflete na política.

Ironicamente, Mugabe declarou apoio a Nelson Chamisa durante a campanha, o que até agora não se reverteu em sucesso eleitoral.

O que se sabe, com certeza, é que a decisão será histórica, abrindo portas para um novo período em um dos países símbolos da luta contra o colonialismo europeu na África.

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