Em segundo encontro nacional, jovens se reúnem para discutir suas demandas atuais sob a ótica do feminismo negro com foco nas relações intergeracionais.

Texto / Divulgação
Imagem / Ponto Crítico

Conectar, escutar e reverberar as ações das Negras Jovens Feministas. Essa é a proposta do 2° Encontro das Negras Jovens Feministas que acontece dos dias 06 a 10 de setembro em Capela do Alto-SP .

O Encontro Negras Jovens Feministas já teve sua primeira edição em 2009 em Salvador, contando com a participação de 200 jovens em mesas temáticas e rodas de debate. O segundo encontro é realizado sobre o contexto do pós Marcha das Mulheres Negras.

Serão quatro dias de encontro onde cerca de 400 negras jovens irão se reunir para debater e fortalecer suas ações inseridas nos diferentes espaços e esferas políticas, com foco na relação intergeracional, para elaboração de estratégias de atuação capazes de promover o bem viver das negras jovens.

Juntas e a partir de várias regiões do Brasil, as Negras Jovens Feministas buscam debater temas como: Direito ao Bem Viver, Participação Política, Tecnologias, Comunicação, Identidades e Feminismo Negro.

Abaixo, a carta manifesto do 2° Encontro de Negras Jovens Feministas publicada via Facebook:

Cientes de que “nossos passos vêm de longe”, damos continuidade ao legado deixado pela Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver (1), na luta contra o racismo, sexismo, lesbofobia, transfobia e todas as formas de discriminação. Somos jovens negras no caminho construído por nossas mais velhas, onde pisamos respeitosamente chamando outras de nós para essa luta incessante, de modo a colaborar nos futuros caminhos que também abriremos para as que estão chegando, as que irão chegar. Se considerar negra jovem feminista é se identificar com o pensamento feminista negro na sua concepção e ativismo político. Queremos dialogar com as várias experiências de nos identificarmos como negras jovens feministas. Oportunidade para criar estratégias de ações conjuntas, comunicação e conhecimento, na criação de uma rede.

Somos adolescentes, jovens, lésbicas, bissexuais, heterossexuais, transsexuais; moradoras das favelas em palafitas às quebradas periféricas de centros urbanos; somos mães; somos dos quilombos em áreas rurais, somos do campo, das florestas e das águas; somos pescadoras, artesãs, empreendedoras multifacetadas; somos influenciadoras digitais, somos slammers, grafiteiras e pixadoras; somos estudantes de ensino médio e de graduações na luta pela sobrevivência nas instituições (públicas e privadas) de ensino; somos produtoras culturais fazendo festas para a juventude existir em espaços feitos por nós e para nós; somos a Geração Tombamento que se orgulha das tranças e blacks coloridos e que não foge ao enfrentamento; somos as pensadoras de uma nova perspectiva do cinema nacional que abala a hegemonia; somos artistas visuais produzindo materiais assinando nossa presença coletiva no Mundo modificando os espaços em que passamos; somos tatuadoras, escritoras, locutoras de nossas narrativas dissidentes ancoradas na ancestralidade vívida em nós; somos também aquelas mais distantes dos movimentos sociais organizados pois nossas presenças nem sempre são tão acolhidas quanto desejamos; estamos em coletivos nas escolas e fora delas, articulando organizações autônomas: na internet ou no bairro, nós temos nos encontrado de diferentes formas e nos fortalecido mutuamente.

Estamos em organizações não-governamentais fazendo a ponta de lança para projetos que de fato olhem para a realidade brasileira que é toda enegrecida. Estamos nas universidades graças à toda dedicação e empenho dos movimentos negros e movimentos de mulheres negras que nunca desistiram de exigir reparação e restituição do que nos foi espoliado tempos atrás. No entanto, sobreviver ao espaço cativo da branquitude não é fácil e nós estamos morrendo: do epistemicídio teórico ao suicídio do corpo jovem; estamos morrendo de solidão, de estresses, de cansaço por ter de provar todos os dias que somos dignas de estarmos ali. Estamos debilitadas pela ausência eficaz dos auxílios estudantis, onde simplesmente fica inviável permanecer até o final do curso. Mesmo sabendo das péssimas condições do ensino público, não desistimos e com muita resistência conseguimos fazer a política de cotas para pessoas pretas, pardas, quilombolas e indígenas nas Universidades públicas brasileiras, concretizando uma luta longínqua que, ainda com essa vitória, está longe de acabar. As universidades onde antes éramos só o suspiro da exceção, hoje esperamos ser a regra. Esse é o nosso desejo: acessar educação de qualidade e gratuita, mas ainda padecemos da negligência com que o Estado trata as escolas estaduais, bem como em âmbito municipal raramente chega a ser diferente. Fomos lideranças das ocupações nas escolas públicas do país no final de 2015 e que espalhou-se pelas cidades brasileiras contra a PEC 241 e o fechamento das escolas. Nossos passos vêm de longe e vem de perto: das nossas amigas e vizinhas, das nossas primas, irmãs e tias; nossas mães, aquelas que nem sabem o que é comunismo, mas sempre que precisam dividem o arroz com as vizinhas.


Temos uma perspectiva específica sobre a situação política no país que só é possível pelo fato de sermos parte baixa da pirâmide de exclusão que ainda se mantém firme e repetitiva nas estatísticas. Não aguentamos mais enterrar mulheres vítimas de feminicídios! Não existe remédio suficiente que expurgue a dor de não poder decidir sobre a própria vida e ser tutelada por um Estado omisso e violento que decide quem morre e quem não morre. Na maioria dos casos, nós sempre morremos. Não há vacinas nem métodos contraceptivos para nos serem ensinados, pois ainda somos vistas com pouca ou nenhuma humanidade. E a prova cabal dessa afirmação são as tantas negras jovens, sobretudo na Região Amazônica e no Nordeste do país, que sofreram as consequências da epidemia do Zika Vírus, que poderia se chamar também “epidemia do racismo ambiental e correlatos”, limitando nosso acesso à água potável e saneamento básico que ainda são itens que muitas de nós não chegamos a usufruir. Além do racismo institucional que nos barra em qualquer unidade de saúde quando botamos o pé na entrada, são muitos os apontamentos para onde devemos enfrentar e exigir restituição e garantia de nossos direitos. Por isso que continuamos em marcha: para que possamos encontrar outras negras jovens pelo caminho. Marchamos para que esta mobilização continue, incansavelmente, pelo fim do racismo, do machismo, da lesbo-bi-transfobia, das violências vindas do patriarcado que sofremos e contra as quais resistimos, por inspiração de Dandara e todas de que somos herdeiras.

Para encurtar distâncias, realizaremos o 2º Encontro Nacional de Negras Jovens Feministas em Setembro de 2017, para nos enxergar e conversar, debater politicamente a respeito da conjuntura política pela nossa perspectiva, falar da continuidade do novo pacto civilizatório iniciado em 2015 na Marcha das Mulheres Negras, falar de feminismos e formas de resistência à ofensiva ultra-conservadora racista. Convidamos todas as negras jovens feministas, que estão conhecendo agora o que é feminismo e direito das mulheres; convidamos as ativistas já engajadas na luta há mais tempo; convidamos artistas que refletem seu tempo e sabem da importância de ser um corpo político ativo; convidamos estudantes secundaristas e universitárias; bem como queremos estar com as que não puderam estudar, com as que estão desempregadas, com as que ainda não sabemos o nome. Junte-se a nós nesse encontro! Será de extrema importância nossa conexão ativada por esse momento presencial dando o fôlego e esperança da qual precisamos para continuar lutando.

Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver

A história iniciada durante conversas realizadas no Fórum Afro XXI, realizado no ano de 2011 em Salvador/BA, com a ideia de que ninguém sai de um poço puxando-se pelos próprios cabelos, buscou estruturar parcerias que culminaram na realização da Marcha das Mulheres Negras para o ano de 2015, vislumbrando um marco para o movimento negro após 20 anos da realização da Marcha Zumbi dos Palmares em Brasília. O fato de trazer naquele momento político as mulheres negras, suas ações e pautas para o centro dos debates ao longo dos anos de preparação para sua realização, trazer o protagonismo dessa empreitada para as organizações e coletivos de movimento negro, e dentro desses as mulheres negras em seu desenvolvimento, garantiram fortalecimento à pauta das mulheres negras, que foi expressada na Carta das Mulheres Negras.

A Marcha de 2015 foi o momento de afirmação e reafirmação dos compromissos e pactos com a luta pela eliminação do racismo no Brasil. Foi um rito de passagem! Foi naquele momento que meninas e jovens negras foram convidadas a sentir o poder e o tamanho da guerra travada pelas mulheres negras no Brasil. Uma iniciação a resistência alicerçada no feminismo negro, onde as antigas e sábias armas se juntaram aos crespos, trançados e raspados coloridos para fazer daquele um momento de “silenciamento” do racismo, onde se era possível ouvir falas negras e enxergar as dores incomensuráveis das mulheres negras, mas também vislumbrar seguimento da luta dessas mesmas mulheres negras.

Um dia para se ter atenção aos olhares aguerridos das yalorixás, que não deixaram usurpar seu protagonismo, sublimar a convicção ou tampouco reduzir suas trajetórias e a história de seu povo. Do processo de construção culminado naquele dia, leva-se aprendizados dos quais as negras jovens compreendem a necessidade de assumir o enfrentamento ao racismo e ao sexismo, incorporando a demanda geracional também como campo político de atuação, interseccionalizando as vivências enquanto negras jovens feministas.

Assinam:

Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB)
Rede de Mulheres Negras Afro Latinas
FOPIR – Fórum Permanente Pela Igualdade Racial
Fundo de População das Nações Unidas – UNFPA Brasil
Rede de Mulheres Negras do Nordeste
Instituto de Mulheres Negras do Amapá
Geledés – Instituto da Mulher Negra
Odara – Instituto da Mulher Negra
Rede Mulheres Negras do Paraná
CONAQ – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas
Rede de Ciberativistas Negras
INESC - Instituto de Estudos Sociais
APAN – Associação de Profissionais do Audiovisual Negro
AMO – Associação Mulheres de Odun
Blogueiras Negras
CEERT – Centro das Relações de Trabalho e Desigualdades
Criola

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