Rosane Borges é jornalista e pós-doutoranda da Universidade de São Paulo (USP). Ela é colunista da Carta Capital e da Boitempo, integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (COJIRA-SP) e conselheira da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas.

Entrevista / Pedro Borges para a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas

A partir de valores humanos e éticos, como você tem avaliado a cobertura da grande mídia sobre a crise do sistema carcerário?

A cobertura da mídia e da imprensa em particular sobre a crise do sistema carcerário no Brasil é parcial, fragmentária, e diria mais, superficial. Ela tende a uma lógica do senso comum e reduz a nossa crise carcerária a uma briga entre facções. A gente que vem acompanhando, vê o que está por detrás dos conflitos. Não estou dizendo que eles não existem. São guerras ferrenhas pelo controle das fronteiras, pelo tráfico internacional, mas não se diz que essas guerras são apenas a ponta de um iceberg de um sistema mais complexo, do qual o Estado faz parte.

Enquanto a mídia não aponta, não sinaliza para sua macroestrutura, seu aspecto sistêmico, o que a gente tem enquanto notícias? Guerra entre facções, bandidos se matando, uma carnificina entre monstros. Para início de conversa, se esses presos estão sob a tutela do Estado, o Estado fracassa em permitir que essas guerras aconteçam.

Então eu diria que a cobertura da mídia no que diz respeito ao sistema carcerário é uma cobertura que explora o fato pelo fato, e é um factual muito inconsistente, muito ruim, que só responsabiliza os presos que ali estão. Barbarizam e colocam, como eu costumo repetir, a fronteira entre nós e os outros.

É possível afirmar que a cobertura da grande mídia sobre a crise do sistema penitenciário está rodeada de preceitos racistas? Como?

É sim possível dizer. Não há, a princípio, uma seleção entre corpos negros e brancos. Mas essa separação ocorre na exata medida em que há uma escolha prévia de quem é o sujeito, ou a sujeita merecedora de tratamento desumano nas prisões.

De certa forma, o preceito racista se torna evidente quando a gente não reage de maneira visceral, mobilizadora, quando esses corpos presos são majoritariamente de homens negros. O preceito racista se dá na medida em que a gente naturaliza a racialização já dada. Então eu diria que é evidente que há uma aceitação, uma não surpresa e uma não reação da população brasileira no que diz respeito ao perfil de quem morre.

O preceito racista é posto quando a gente naturaliza o drama racial que impera na escolha dos corpos matáveis, dos corpos brutais, o que o Achille Mbembe chama da necropolítica. E quem morre nesse sistema? São homens negros, os indesejáveis, os perigosos, os incorrigíveis, os que não tem nenhuma política de inserção plena na sociedade brasileira.

O sistema carcerário é absolutamente desumano e inconcebível. Eu costumo crer que em um certo momento da história, nós brasileiros iremos olhar para trás e nos envergonharmos das prisões que temos nos dias de hoje.

Minha dissertação de mestrado foi sobre o imaginário do negro nos programas policiais. Está claro que a busca pelo perigoso, seja nas delegacias, ou nas ruas, se dê a partir de reuniões corpóreas. Tatuagem, cicatrizes nos rostos e evidentemente um corpo negro. A busca do repórter durante as notícias pelo mais perigoso “coincidentemente” combinava com um homem negro, com cicatriz, ou tatuagem. A gente vê que existem pré-conceitos e uma cartilha que pré-define quem é mais ou menos perigoso, e nessa cartilha o traço racial negro é irrevogavelmente presente.

Como os corpos negros têm sido representados pela mídia hegemônica? Como a disputa por mercado entre as facções tem sido apresentada ao público?

Como a gente bem sabe, a mídia em geral e a imprensa em particular, costumam trabalhar com um quadro comum de referências. A gente tem narrativas e sujeitos que devem corresponder a esse código reconhecível do qual a imprensa se nutre.

Quando se tem uma reportagem sobre ciência, sobre economia, a gente sempre vai ver corpos brancos, das universidades públicas do país. Ora, esse cenário e a escolha do sujeito, que normalmente são homens e brancos, não são a toa. Eles visam corresponder de certa forma a um código para o qual a gente reconhece.

Digo isso para falar que a representação de corpos negros, de meninos e meninas, mas principalmente dos homens, está dentro de um código reconhecido. Qual é esse quadro para a narrativa jornalística, para ela ter uma decodificação mais expressiva? São corpos que de certa forma vão ser enquadrados dentro do desviante, anormal, feio, errado, enfim, tudo que diz respeito a não normalidade. São corpos negros, corpos trans, corpos periféricos, que vivem nas bordas, que serão acionados para representar essa narrativa.

Então eu diria que, em linhas gerais, os corpos negros são de extremo. E que extremo é esse? Extremo da marginalidade, da pobreza, do bolsa família, ou no outro extremo, do divertimento, da fidelidade, do esporte, do samba. Nós não estamos na linha dos meios, estamos na linha dos extremos. O que seria isso? Seria a vida como ela nas suas múltiplas possibilidades de existência: o médico, economista, profissional liberal, assistente de tecnologia. O que a gente percebe, que essa representação, que é uma representação dos extremos, tende a esse imaginário prévio sobre nós. Ora, no que diz respeito a uma narrativa da criminalidade, causaria muito espanto se do ponto de vista de um discurso jornalístico, a gente apresentasse corpos loiros de olhos azuis.

Por que o mendigo de Curitiba causou muita comoção? Porque era um homem branco, de olhos azuis, considerado bonito, considerado mendigo. Ou seja, era o corpo errado, no lugar errado. Se fosse o corpo negro, não teríamos dúvida, ele não causaria comoção nacional.

Imagem e imaginário têm a ver com a política real. Enquanto a gente tiver ligando uma coisa a outra, o preconceito vai ser uma profecia autorealizadora no Brasil. Nós negros, com uma tendência a sermos mais perigosos, uma ameaça à sociedade, somos a maioria nos presídios. Você percebe como o preconceito confirma um dado da realidade, confirma a partir de um dado que é irrisório, ou da suposta narratividade? Os nossos corpos não são propensos a marginalidade ou a pobreza, eles só o são porque há um regime racista que nos coloca nessa prisão de imagens. E o problema carcerário no Brasil responde de maneira muito potente e educativa a essa lógica. Ele confirma um preconceito que repito, tem a função perversa de ter a força de uma profecia.

A política de drogas adotada pelo Brasil em 2005 permite que o agente policial possa definir quem é usuário e quem é traficante. Em muitos casos, essa escolha subjetiva tem sido fundamentada em preceitos racistas. Como a mídia alimenta essa criminalização da juventude negra?

A gente vê um conluio do judiciário e da imprensa em relação à criminalização da juventude negra. Eu acompanhei um projeto que observava como o juiz sentenciava jovens negros e pobres e brancos de classe média. Eles geralmente diziam ao jovem branco de classe média: “Você não fica constrangido, não tem vergonha do seu pai pagar uma escola cara e você se envolver em crime, tráfico e drogas?”. Ele era muito condescendente com esse jovem. Se condenasse, era uma pena muito pequena. Já com o jovem negro, que já é talhado para ser bandido e marginalizado, as penas eram duras e o discurso era outro. O que eu quero dizer ao chegar com esse exemplo é que, do ponto de vista de quem é quem na lógica social, a gente tem um peso narrativo para o jovem negro.

O departamento de psicologia da USP fez uma pesquisa há alguns anos que demonstrava como nós, brasileiros e brasileiras, temos muito mais medo de ser vista, ou flagrada por um jovem negro na rua à noite. Isso significa que a gente antecipadamente já imagina quem é o marginal no nosso país. Ora, esse desenho de certa forma orienta a narrativa da imprensa, da mídia e da publicidade.

Recentemente uma campanha do governo federal expôs que “o melhor aluno pode matar” e esse aluno era o jovem negro. Como essa representação recai no dia a dia dos jovens negros? Recai de maneira negativa porque esse imaginário é perseguido pela polícia.

Um policial que tem o poder de decidir quem é usuário e traficante, decide a partir de uma cultura racista, a partir de práticas preconceituosas, em que o fundamento racial é constante. Então é muito mais fácil para esse policial, para ele asseverar de antemão que um jovem negro é traficante e não apenas usuário. Ele cai dentro do quadro comum de referências. Não haverá questionamentos, porque isso corresponde a esse imaginário nosso, que vem desde o pós escravidão. Como surge a polícia no Brasil? Ela surge do capitão do mato, ela surge de uma posição que acompanha até hoje nossa polícia. Ela só se sustenta porque ela entrega corpos suspeitos, e essa tradição que herda do capitão do mato se renova na nossa sociedade contemporânea, pelo racismo, pela discriminação e pelo preconceito.

Então a mídia de certa forma e imprensa em particular lidam com esse imaginário. Ela não inova em termo do quadro comum de referência. Ela reforça porque adota e absorve esse imaginário e mais do que isso, ela é uma executora desse quadro comum de referência. Ela opera no piloto automático, desses ideais culturais, desses referenciais e de certa forma contribui diretamente para que o poder do racismo opere sobre o destino, sobre as decisões que envolvam a juventude negra no brasil, principalmente no tópico da violência e da criminalidade.

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