Texto: Michelli Oliveira e Nathália Costa / Imagem: Willian Oliveira

“Quem acredita em racismo inverso crê que há um racismo bom e ideal (o anti-negro) e um racismo mau (anti-branco)”. – Janaína Damaceno

Seu branquelo azedo se ponha no seu lugar! Será você já presenciou uma cena dessas? Um negro ofendendo um branco? Pode ser que você tenha vivenciado uma situação como essa ou parecida, ou que isso nunca tenha acontecido. O fato é que a partir de casos como esses, as pessoas não negras se apropriaram de tal situação ofensiva à sua etnia para criar o suposto racismo reverso/inverso, ou melhor, o racismo de negro contra branco. Nunca ouviu falar? Já ouviu e concorda? Portanto, na busca de desmistificar tal invenção absurda sobre essa problemática, proponho que mergulhe nesse texto para entender o porquê de mesmo que um negro ofenda um branco verbalmente isso nunca poderia ser chamado de racismo inverso.

Primeiramente, para falarmos sobre racismo inverso, devemos descobrir se houve na história da escravidão algum navio ”branqueiro”, cheio de escravos brancos que foram retirados à força de seu país e enviados em condições desumanas para países que se apropriaram de suas vidas e os transformaram em escravos. Será que isso realmente aconteceu? É óbvio que não.

Todos nós sabemos que o Brasil não foi descoberto e sim invadido, visto que existia aqui habitantes que cultivavam suas terras e com a chegada dos portugueses foram obrigados a ver sua cultura, religião e vida serem destruídas. Foram ‘catequizados’ e obrigados a aprenderem o idioma dos seus invasores.

Já não bastasse isso, os europeus viram que para crescerem economicamente precisavam de mão de obra e para isso resolveram ir até a África e trouxeram o máximo possível de africanos (reis, rainhas) de lá, para trabalharem de graça em terras roubadas.

Nisto, entramos na parte da história em que milhares de navios negreiros traziam desumanamente pessoas para o nosso país para serem escravas como já foi dito acima. Muitos morreram nas viagens em condições desumanas na qual eram submetidos, muitos morreram de tanto trabalhar, muitos morreram de fome, de dor, de cansaço e muitos outros tentando fugir de toda aquela desgraça.

Em 1888, a princesa Isabel, por motivos ainda duvidosos, como todos sabem declara o fim da escravidão. Entretanto, apesar de libertos esses povos sofreram e seus descendentes sofrem até hoje com toda essa barbárie á etnia negra. Pois apesar da suposta liberdade, a partir de 1888, os povos negros tiveram que iniciar uma constante luta para serem respeitados e reconhecidos como cidadãos, o que infelizmente nos dias de hoje, mesmo com algumas conquistas, ainda se faz necessária muita luta pela igualdade.

Temos hoje uma defasagem salarial enorme entre brancos e negros, onde os brancos ocupam cargos relativamente importantes e com salários bem mais altos. As melhores escolas quem tem acesso é a maioria não negra, nas universidades tanto professores quanto alunos em sua maioria são brancos. A elite é majoritariamente branca, consequentemente a mídia é ocupada por brancos. A representação do negro na mídia é minoritária e isso ocorre como podemos ver praticamente em todas as instancias. Porém, há locais que os negros ganham maior espaço, nos presídios brasileiros 67% da população carcerária são afrodescentes e 77% dos mortos no nosso país são jovens negros, entre 15 a 29 anos.

Foto: Willian Oliveira

Foto: Willian Oliveira

Devemos entender que racismo e preconceitos são conceitos distintos, mas que estão interligados. Diferente do que pensamos, não é o preconceito que impulsiona o racismo, mas é através do racismo que surgem diferentes tipos de preconceitos. O racismo é fruto um mito criado sobre a cor de pele negra na qual o fenótipo (conjunto de características físicas de uma pessoa) são os escolhidos para terem criado um ódio e características negativas à pessoas com concentração alta de melanina. Á essas pessoas foram atribuídas diversas características negativas (gente amaldiçoada, suja, violenta, cabelo duro e ruim e etc), sustentadas pelas elites sociais em todas as épocas da história da humanidade, que se inseriram e perpetuaram no imaginário social, mantidas até os dias atuais.

Ao contrário do racismo, como já vimos que é um fenômeno antinegro, o preconceito pode ter muitas vertentes, entre elas a própria questão racial, mas não só ela. Pode-se ter preconceito pela roupa de uma pessoa, o cabelo, o local onde mora, a orientação sexual, enfim uma quantidade infinita de tipos preconceitos.

Por isso, quando uma pessoa branca sofre algum tipo de agressão verbal relacionada à sua cor, ela não pode dizer que sofreu racismo reverso, porque o racismo é única e exclusivamente direcionado a pessoa negra. A pessoa branca nesse caso sofreu um preconceito, uma discriminação ou uma injúria racial que esta relacionada á ofensas contra a honra da vítima, independente de seu fenótipo. Racismo é um crime histórico que foi criado pelo ódio à etnia negra e que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo.


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Professora Janaína Damaceno

Entrevistamos a professora da Uerj Janaína Damaceno, doutora em Antropologia Social (2013), com a tese “Os Segredos de Virgínia: Estudo de Atitudes Raciais em São Paulo (1945-1955)” sobre a psicanalista e socióloga Virgínia Leone Bicudo, primeira mulher negra no Brasil a realizar um trabalho de pós-graduação sobre a questão racial. Mestre em Educação (2008) e Bacharel em Filosofia (1999) pela Unicamp. Em 2014, participou das Jornadas Cinematográficas da Mulher Africana de Imagem em Burkina Faso e realizou pesquisas no Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC) de Moçambique e na África do Sul. Desde novembro de 2013 é uma das coordenadoras do Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE).
Para a professora Janaína Damaceno, acreditar que racismo reverso existe é acreditar que o racismo pode de alguma forma ser aceitável.

“Quem acredita em racismo inverso crê que há um racismo bom e ideal (o anti-negro) e um racismo mau (anti-branco). Ou seja, não vê o racismo como um mal em si. Acha o racismo anti-negro normal e natural. Acha que praticar o racismo ou viver numa sociedade racista é um direito e um privilégio adquirido inclusive para o seu prazer.”

Muitos debates estão acontecendo acerca do dito racismo reverso. O que seria o racismo reverso? Ele existe de fato?

O racismo inverso não é. Isso decorre de um entendimento limitado acerca das expressões racismo, preconceito e discriminação, como bem mostra o professor Kabengele Munanga. Um negro pode até ser preconceituoso em relação a um branco, o que normalmente é um caso isolado, mas isso não muda a estrutura racial brasileira. Brancos não deixarão de ter poder e privilégios por causa disso. Não retira nem o poder, nem os privilégios da branquitude, como mostra a pesquisadora Lia Schucman em sua tese. O racismo é uma questão estrutural que está veiculada diretamente ao princípio do poder, dos direitos e da regulação e exploração da vida e da morte. Quem acredita em racismo inverso crê que há um racismo bom e ideal (o anti-negro) e um racismo mau (anti-branco). Ou seja, não vê o racismo como um mal em si. Acha o racismo anti-negro normal e natural. Acha que praticar o racismo ou viver numa sociedade racista é um direito e um privilégio adquirido inclusive para o seu prazer. Ódio, violência e morte fazem parte desse repertório. Ódio contra os corpos que os racistas concebem como inferiores, contagiosos e impuros. Violência como forma de diversão e recreação; e morte como forma de extermínio negro. Não há racismo às avessas porque não existe uma estrutura que negue sistematicamente poder aos não negros.
Qual a diferença entre preconceito e discriminação?

O preconceito é como aprendemos na escola, uma ideia à priori que temos acerca das pessoas ou dos grupos sociais. Ele se desenvolve, principalmente, através de estereótipos sociais e de atitudes negativas em relação a determinadas pessoas ou grupos (mulheres, negros, pobres, idosos, indígenas, ciganos, pessoas doentes, etc). O preconceito racial é o aparato ideológico do racismo, e como ideologia, ele se manifesta como se fosse algo natural, não como algo ensinado e fabricado. Como ideologia, ele se manifesta sob o véu da invisibilidade. Daquilo que está à nossa frente, mas nunca conseguimos ver ou nomear. Como ideologia, ele não leva em conta os processos históricos, os dados lógicos ou os indicadores sociais e econômicos da nossa sociedade, ele se sustenta de sua própria má-fé ou ignorância. O preconceituoso sente-se confortável com as suas atitudes, que considera que sejam sempre as mais adequadas. Ele não tem peso de consciência. Ele está sempre certo. A discriminação também pode ser dirigida a distintos sujeitos e grupos sociais. A discriminação racial, no entanto, é dirigida num país estruturado racialmente como o nosso, normalmente, em direção ao negro. Discriminar seria o ato em si de ofender, humilhar, negar oportunidades no campo do trabalho e da educação, impedir o acesso de negros aos bens comuns da sociedade, como a saúde, à cultura, impedir acesso ao consumo, etc. Pode ser realizada por indivíduos ou por instituições como resultado do preconceito ou como resultado direto de interesses específicos de alguns grupos, como propõe Maria Aparecida Bento.
Como você vê o racismo no Brasil atual?

No Brasil, o racismo anti-negro é estrutural, ele não pode ser compreendido como um tipo de discriminação ou preconceito dentre outros. Sendo estrutural, o racismo agencia noções de poder e hierarquização. Quando falamos em racismo estrutural dizemos que negros não têm acesso aos esquemas de poder no Brasil. Ele é estrutural e institucional porque a sociedade e o Estado brasileiros foram e são concebidos através de ideias) e práticas racistas que limitam o acesso do negro aos bens básicos da sociedade como a educação, a saúde, a moradia, ao bem-estar e, principalmente, à vida. Além disso, concordo com o professor Adilson Moreira quando ele diz que o racismo é um sistema de dominação. Acrescentaria aqui, que ele também é um sistema de exploração e morte.

Por que devemos desconstruir a afirmação do racismo reverso?

Devemos desconstruir essa noção de racismo inverso porque ela é falsa. É uma expressão usada para negar a estrutura racista e faz parte do mesmo repertório de expressões como “o pior racista é o próprio negro”, “o negro é racista contra o próprio negro”, etc. Expressões como essa são usadas por quem prefere confundir e encobrir o verdadeiro debate aqui proposto. O racista não se vê com injusto, porque justiça é um termo que não importa para ele. A não ser que ele se sinta injustiçado. Mas o mais interessante é que no contato com sua família ele pode ser extremamente afetivo, assim como muitos homens machistas são extremamente espirituosos, a ponto de não ser tão fácil provar seus atos. Por isso, a “mocinha” que xinga um jogador de macaco, a estudante que compara bebês negros às suas fezes, não são facilmente reconhecidas como racistas. Nem empresas ou o Estado se vêem como tais. Porque dentro da banalidade de suas existências, o racismo não é um mal. É seu direito.

Quais as consequências da afirmação do racismo reverso para aos negros?

As consequências do racismo para os negros são nefastas. Porque o racismo tem cheiro de dor, tortura e morte. Tanto da morte física quanto da morte social da população negra. Morte dos talentos que não podem se concretizar. Morte e mutilação de mulheres que entram em trabalho de parto. Morte de crianças pela violência policial. O racismo brasileiro não de indigna com o assassinato de crianças negras. Para eles, a conta é justa: menos um. São os termos da necropolítica colocados por Achile Mbembe e Osmundo Pinho. Claro que os negros frente a isso sempre inventam modos de resistir e de re-existir em nossa sociedade, de desmascarar um Estado estruturado pelo racismo. Mas essa resistência e essa reexistência não estão em condição igualitárias de competir com um sistema de dominação de amplo espectro como o racismo. Não ainda. O pior do racismo anti-negro no Brasil é saber que nossos corpos e nossas vidas não tem valor algum para o Estado ou para a nossa sociedade como um todo.

Se chegou até aqui, vale a pena assistir a entrevista abaixo com o Chico Buarque sobre racismo.

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