Pesquisa de Mestrado aponta falta de conteúdo sobre cultura negra no ensino básico reforça racismo e exploração das populações periféricas brasileiras; solução pode estar na formação de professores

Texto / Carolina Bataier
Capa / Solon Neto

É notável a ausência de aprofundamento nos temas relacionados à cultura negra no conteúdo do material didático oferecido às crianças e adolescente no ensino formal do estado de São Paulo. Para além do descuido, tal ‘falha’ funciona como ferramenta de manutenção de um sistema de exploração das populações periféricas brasileiras. Além disso, contraria a lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Essas são as constatações apresentadas pela dissertação de mestrado da educadora Marlene Oliveira Brito, defendida em março no campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru-SP, como conclusão do curso de Pós-graduação em Docência para a Educação Básica. 

Com o título "Narrativas negadas: estratégias de resistência à discriminação planejada", o trabalho apresenta a conclusão de uma pesquisa realizada durante 20 meses, somados à experiência prática da pesquisadora, que atua como professora de educação básica na rede pública de ensino desde 2006. Atualmente, Marlene Brito ocupa o cargo de vice-diretora em uma escola estadual em Bauru, no interior do estado de São Paulo.

Após análise do conteúdo do currículo oficial paulista para os anos iniciais do ensino fundamental (que atende crianças entre os 6 e 10 anos de idade), constatou-se: há muita história escondida nas entrelinhas daquilo que chega até os estudantes.

De modo geral, o continente africano é trabalhado, principalmente, como ponto de partida dos negros que para cá foram trazidos como escravos. O que aconteceu antes e depois, ou mesmo quem eram esses sujeitos, é ignorado.

“Existem histórias dos povos africanos antes do processo de escravização e não sabemos nada sobre elas. Há um apagamento dos afrobrasileiros e suas realizações nas práticas escolares. Esse é o mote do meu trabalho”, explica a pesquisadora.

O resultado dessa falha no ensino, aponta a pesquisa, tem influência direta no nosso cotidiano. Enquanto parte da população brasileira demonstra intimidade com a ascendência europeia – somos netos de espanhois, italianos, portugueses, dizemos – o continente africano é tratado como unidade, ignorando-se suas fronteiras, povos e culturas.

Para documentar essa conclusão, Marlene ouviu alunos e professores e debruçou-se sobre o material escolar oferecido pela rede pública de ensino no estado de
São Paulo. Nas 227 páginas do trabalho final da pesquisa, estão apontadas as disparidades.

“Entre outras ausências, observamos o fato de nenhum dos estudantes que chegavam ao quinto ano ter condições de recontar uma narrativa de origem ou matriz cultural africana”.

(Foto: Camila Souza/GOVBA)

Foi o comportamento de uma aluna que a fez despertar o interesse pelo tema. A criança, negra, mostrou-se em dúvida diante de um questionário onde deveria informar sua cor. Não se sentindo contemplada por nenhuma das opções oferecidas (negra, parda, branca, amarela e indígena), escreveu: morena.

“Esse episódio trouxe-me mais questionamentos sobre o papel do professor na formação de crianças. Que sentidos estão envolvidos na dificuldade de uma criança desenvolver o sentimento de pertença quando trata-se da população negra?”, pontua a pesquisadora.

O dano mais evidente dessa educação deficitária é o desconhecimento de parte signiticativa da origem da sociedade brasileira. Outro prejuízo é sentido na auto-estima dos jovens negros, já que não se veem representados naquilo que é visto em sala de aula. Tudo isso resulta na ineficácia das ações de combate ao racismo.

“A pesquisa partiu da hipótese de que há um engenhoso processo de silenciamento no trato com as demandas relacionadas à educação antirracista, no combate ao preconceito, à discriminação e ao racismo, alimentado pela forma articulada do currículo oficial da Secretaria Estadual de Educação em suas políticas curriculares e avaliativas”, ressalta Marlene.

Racismo em sala de aula

Em sala de aula, Roberta de Souza Alves, professora da Educação Básica, notou o comportamento arredio de um dos seus alunos. O menino evitava proximidade, mesmo quando o contato com a professora era necessário. Certo dia, Roberta esbarrou na carteira da criança, derrubando o estojo. Ao devolver o objeto, notou que o menino retirou da mão dela agressivamente, tomando cuidado para afastar-se. Ela questionou a criança e ouviu como resposta a explicação: “é que você é negra”. Chamados à escola, os pais da criança afirmaram não saber de onde vinha tal comportamento.

“O racismo surge do desconhecimento do outro, do etnocentrismo, da ideia de inferioridade do outro. Penso que, a priori é necessário construir a ideia de humanidade, tão massacrada pelo colorismo, que define quem é bonito e quem não é pelos traços que apresenta ou tom de pele”, avalia Roberta. Para ela, olhar de perto para a cultura e a história dos povos africanos é mais eficaz do que agir diretamente sobre as ocorrências de racismo.
De acordo com a tese de Marlene, a educação nos anos iniciais é o canal de ruptura com o processo de perpetuação do racismo. É também o que prevê o artigo 26 da Lei 9394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Está lá:

O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia.

Na prática, muito desse conteúdo relativo às matrizes indígenas e africanas fica restrito às datas comemorativas.

“O material do 1º ao 5º ano não foca as questões raciais. O ensino fundamental 2 (que vai do 6º ao 9º ano) já trabalha de forma diferenciada, mas não tem esse resgate do continente africano, é muito eurocentrismo”, avalia Carla Juraci de Melos, professora de história, geografia e filosofia da rede pública de ensino do estado de São Paulo.

Como resultado da pesquisa, Marlene produziu o livro didático Afrocontos – Suplemente Didático de Planejamento Intercultural. São 55 páginas com contos e atividades pedagógicas que trabalham a cultura de matriz africana em sala de aula. É uma das propostas para se pensar uma sociedade que olha para si com respeito e igualdade.

“Creio que um dos caminhos para mudança está nos processos de formação dos professores, nas parcerias com as universidades e entidades de referência, em uma reunião de esforços, nos apoiando a produzir material curricular de resistência e de rompimento com o silenciamento de grupos humanos”, propõe a pesquisadora.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Onde Estamos

Endereços e Contatos
18-80. Jd Nasralla - Cep: 17012-140
Bauru - São Paulo
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos