Possibilidade de viajar e compor o seminário vem depois do convite da professora Christen Smith, da Universidade de Austin (Texas). O encontro discute as violências sofridas por mulheres negras no Brasil e nos EUA.

Texto / Pedro Borges
Foto / Acervo pessoal

A Universidade de Austin, Texas, recebe em Agosto o seminário sobre a pesquisa “Mulher Negra e Violência: a luta por justiça no Brasil e nos EUA”. O encontro, que debate a opressão sofrida por mulheres negras e as formas de resistência em ambos os países, pode ter a participação de uma estudante de psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Gisela Oliveira, mulher negra e periférica.

A falta de certeza sobre a participação no Seminário se deve aos custos da viagem. Mesmo com a ajuda dos estudantes e professores de Austin, a jovem precisa de mais R$ 7 mil reais para acompanhar a conferência nos EUA. Para isso, foi aberta uma campanha de financiamento coletivo do dia 25 de Maio até 24 de Junho.

Faixa para textos BAPQuem é Gisela?

“Meu feminismo negro começou em casa, com minha mãe me ensinando a pentear o cabelo, a se vestir, a ser independente, afirmando todas as dificuldades de ser mulher negra na sociedade”. Essa é uma das recordações que Gisela Oliveira tem da infância e da relação com a família.

A jovem, hoje com 24 anos, cresceu no bairro Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, Grande São Paulo. A infância na região, lembrada por dificuldades econômicas e por um ambiente social composto por negras e negros, mudou quando a mãe decidiu colocar a então criança para estudar em colégio particular, onde diz ter se descoberto não enquanto “gente, e sim negra”.

Depois de concluir o ensino médio no ensino público, toda persistência e força, qualidades herdadas da mãe, ajudaram Gisela a ingressar num cursinho pré-vestibular para realizar o sonho de estudar na Universidade de São Paulo (USP).

“Numa coincidência épica, fui ao cinema com a minha irmã em Santo Amaro, entramos errado numa rua e nos deparamos com um lugar que se chamava Cursinho da Poli. Por curiosidade, pegamos o número e ficamos de ligar pois tinha arranjado um novo emprego e minha mãe sempre nos falou que era importante estudar”, relata a jovem.

Por 3 anos Gisela estudou no Cursinho da Poli, para ingressar em 2015 no curso de Psicologia da USP.

University of Austin Capa

Universidade de Austin, Texas. (Foto: Acervo da Universidade de Austin, Texas)

O projeto de pesquisa

Gisela participa desde Setembro de 2016 do grupo de pesquisa “Mulheres Negras e Violência: a luta por justiça no Brasil e nos Estados Unidos”, projeto feito em parceria da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Austin, e composto por estudantes das duas instituições.

A entrada se deu depois de um professor a convidar para participar do programa de pesquisa. Quando aceitou acompanhar o grupo, a estudante de psicologia recebeu a notícia de que não poderia compor de maneira oficial a equipe por conta das suas notas. Como a jovem esperou por toda graduação para estudar o tema, decidiu participar de maneira voluntária no projeto.

A escolha parece ter sido acertada. Em 17 de Maio, a professora Christen Smith, responsável pela pesquisa em Austin (Texas), veio para o Brasil junta de seu grupo de estudos para participar de um seminário sobre o tema. Foi durante este período que Gisela se aproximou dos estudantes e da professora da universidade americana.

Na reunião de fechamento do encontro, o grupo dos EUA decidiu convidar Gisela a participar da conferência “Mulher Negra e Violência: a luta por justiça no Brasil e nos EUA”. A ideia é que a estudante acompanhe as discussões acerca da pesquisa e consiga experiência internacional para a sua carreira de pesquisadora.

Mais do que convidar, Gisela ressalta o apoio que tem recebido da professora e de todo o grupo de pesquisa norte-americano. Senão fosse essa ajuda, o valor a ser pedido para participar seria muito maior do que R$ 7 mil reais. Uma das estudantes da Universidade de Austin ofereceu a casa para Gisela ficar durante os dias nos EUA.

“Só vou para esse seminário pela irmandade entre os pretos da América que se sensibilizaram por mim, por saberem que sou uma mulher negra e periférica, que deve estar nos EUA falando sobre mulheres negras brasileiras”, afirma Gisela.

Gisela está empolgada com a possibilidade de conhecer os EUA e ver de perto a produção teórica desenvolvida no país sobre racismo e feminismo negro. Para ela, esse é um momento de se aprofundar nesses temas e ajudar a construir uma nova narravativa e forma de pensamento dentro da universidade, diferente da hegemonia branca e masculina.

Mas não são só as motivações acadêmicas que impulsionam a jovem. Os desejos pessoais e políticos são outros combustíveis para a jovem. “O interesse e a decisão de entrar no projeto, mais do que um interesse acadêmico e de pesquisa, envolvem paixão, ativismo, militância, e toda a força das histórias de vida que nós, mulheres negras, carregamos”.

Quando perguntada sobre quais retornos pretende dar para a luta das mulheres negras no Brasil e para a sua comunidade, Gisela diz que esse é o questionamento que ela se faz e que ainda não tem uma resposta fechada.

“Ainda estou pensando como posso ajudar a todos que vão me ajudar. Não sei exatamente como fazer, mas penso em rodas de conversa, formação de feminismo negro, tradução de textos essenciais para conhecer melhor a teoria. Neste momento, eu ainda busco professores para me orientar e ganhar bolsa para que assim eu desenvolva um projeto com as mulheres da minha comunidade”, completa.

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