Formada em universidade pública, a estudante é tataraneta de escravizados, já trabalhou com a ONU e é a primeira da família a sair do país. Para ajudar na campanha, clique AQUI

Texto / Solon Neto
Edição de Imagens / Alma Preta

Imagens / Arquivo Pessoal e Divulgação

Em 1959, ao completar 100 anos, Sebastiana Sylvestre Correa recordou ao jornal Correio Popular de Campinas a conquista de sua liberdade após os amargos anos como escravizada. Seu sonho era aprender a ler, e seu desejo pela educação inspirou as gerações seguintes de sua família.

Mariana Tavares é sua tataraneta, e realiza um dos sonhos de sua ancestral indo muito além do que ela imaginava. A jornalista negra de 24 anos foi recentemente aceita para cursar Mestrado em uma respeitada instituição em Genebra, na Suíça. A primeira da família a ir tão longe.

Sebastiana Correa, aos 100 anos. A tataravó de Mariana foi escravizada, sonhou aprender a ler, e deixou o valor pela educação como um legado para sua família (Foto: Arquivo Pessoal)

A estudante pretende se especializar na área de Cooperação Internacional e Desenvolvimento, e quer pesquisar raça e gênero durante o período na Europa.
O Mestrado em “Antropologia e Sociologia do Desenvolvimento” no “Graduate Institute of International and Development Studies” dará uma bolsa parcial para a estudante que cobre 75% dos de todos os custos dela no país.

Para continuar realizando esse desejo antigo, no entanto, foi necessário passar o chapéu. A jornalista abriu uma campanha de financiamento coletivo para conseguir os R$ 10.000 reais que a separam da Suíça. Você pode contribuir até o dia 7 de julho com qualquer valor clicando AQUI.

O objetivo de Mariana está muito próximo, e ela confia que a campanha dará certo: “Tenho esperança de que com o financiamento coletivo eu vou conseguir realizar esse sonho”.

Mérito é o que não falta

Não é a primeira vez que Mariana é reconhecida por seus méritos. Em 2015 ela se formou em Jornalismo em uma instituição pública, a UNESP, concluindo o curso com o documentário “Jornalista Preta de Gênero e Cor”.

Ainda na universidade ela aperfeiçoou o inglês e aprendeu francês, o que garantiu que conseguisse um estágio na Organização das Nações Unidas (ONU).

Na ONU ela trabalhou no Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV / AIDS (UNAIDS), em Brasília, onde também vendia semijoias para custear as despesas. O esforço foi recompensado e ela foi contratada como Consultora de Comunicações para o Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH). Ainda em Brasília, ingressou na Equipe de Comunicações do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Foto do "Graduate Institute of International and Development Studies", em Genebra, na Suiça. O instituto é um dos mais respeitados do mundo. (Foto: Divulgação)

Mariana já esteve na Suíça. Em 2016 foi aprovada no “Fellowship for People of African Descent” do ACNUDH, em Genebra, quando pôde levar a história de sua avó à sede da ONU. Essa visita que despertou o interesse em estudar lá, de onde já voltou com a inscrição feita para tentar o Mestrado: “Nesta ocasião tive a oportunidade de conhecer mais sobre o Graduate Institute e interesse aumentou ainda mais. Enquanto estava na Suíça fiz minha inscrição para o mestrado”. A partir de então, a jornalista passou a se preparar para tentar a admissão. “Durante um ano me preparei para aplicar para o mestrado e bolsa de estudos”, conta.

Expectativa e satisfação

Os dias que antecederam a divulgação do resultado foram de muita ansiedade para Mariana e sua família. Genebra é uma das cidades mais caras do mundo. O alto padrão de vida suíço é garantido por impostos que estão em todo lugar. A aprovação ou não da bolsa parcial era a única chance de continuar sonhando, e mesmo sabendo das dificuldades financeiras, a estudante foi em frente.

Vídeo gravado pela estudante Mariana para a campanha de financiamento coletivo

Ela conta sua reação ao receber o email com a aprovação da bolsa parcial: “Comecei a tremer, respirei fundo e comecei a ler o site. Quando li ‘Confirmé’ para o curso do mestrado e sobre a bolsa ‘Acceptée - Réduction (75%)’, comecei a tremer e chorar”.

Ao ouvir o barulho, seu pai apareceu assustado e se emocionou ao ler, junto com a filha, a carta de aceite da instituição suíça. “Meu pai sempre me disse que ‘o não você já tem, não custa nada tentar o sim’. Aquele foi um dos ‘sim’ mais importantes que recebi e ficará marcado para toda vida”.

Educação vem do berço

Os familiares de Mariana sempre valorizaram a educação. Ela conta que foram as mulheres as mais dedicadas a esse tema. “A história de mulheres que lutaram por nossa família fizeram eu ter as oportunidades de estudo que tenho hoje”.

Mariana teve a sorte de viver entre pessoas que sempre acreditaram na educação para envergonhar o racismo. “Cresci em uma família cujos ancestrais acreditaram no poder que a educação poderia dar para que pudéssemos lutar contra barreiras históricas impostas aos afro-brasileiros”.

Sua bisavó já trilhou esse caminho como funcionária pública em uma escola de Mogi Mirim-SP. Seu avô, Lázaro Laércio, também dedicou a vida para a educação e conquistou o respeito de sua comunidade ao fundar uma escola em 1953 na cidade de Mirassol-SP, a primeira Escola Profissional e Industrial da cidade. Mariana, hoje, tem vários familiares que continuam trabalhando como educadores.

Maria Joanna, em 1963, e Lázaro Laércio, em 1973. Respectivamente, bisavó e avô de Mariana. Ambos trabalharam com educação. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em Campinas, onde viveu a vida toda, Mariana cursou o ensino básico com bolsa em escola particular e era a única negra da sala. Ela conta que um dos episódios mais marcantes desse período foi um trabalho que fez sobre a história de sua família, aos 11 anos.

Ainda criança, pesquisou a fundo, e descobriu a história de sua tataravó Sebastiana Sylvestre Correa. “Forte e perseverante, ela decidiu que o maior bem que ela poderia deixar aos seus familiares seria dar a suas filhas a oportunidade de estudo e assim ela o fez”. Mariana conta que levou uma história única para seus colegas. “Naquele dia, na escola, em meio a histórias de famílias vindas da Itália, Alemanha e outros países europeus, pude apresentar com orgulho a história de uma família vinda da África”.

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