O texto a seguir é uma tradução e adaptação da primeira parte da reportagem publicada pela agência de notícias “The Marshall Project”, em parceria com o  jornal americano “New York Times”, em 13 de setembro de 2017, sob o título “From Prison to PhD: The Redemption and Rejection of Michelle Jones”.

Texto / Eli Hager
Tradução / Iacy Correia
Imagem / Damon Winter/The New York Times

Michele Jones foi libertada no último mês de agosto, após duas décadas na prisão de Indiana pelo assassinato de seu filho de 4 anos. No dia seguinte, ela chegou à Universidade de Nova York como uma das candidatas mais promissoras do doutorado em Estudos Americanos.

Em uma reabilitação surpreendente, Jones, agora com 45 anos, tornou-se uma estudiosa em história Americana, enquanto estava presa, e apresentou o seu trabalho por videoconferência para um grupo de historiadores e para Assembleia Geral de Indiana, estado norte-americano. Sem acesso a internet e uma biblioteca prisional de livros de romances, ela liderou um grupo de detentas para uma pesquisa em cópias dos Arquivos do Estado de Indiana, para produzir o melhor projeto de pesquisa de História da Sociedade Indiana , no último ano. Como prisioneira 970554, Jones, também escreveu diversas composições de dança e peças teatrais, uma inclusive está com estreia confirmada no teatro de Indianápolis, em dezembro.

A Universidade de Nova York é uma das várias universidades que recrutou Jones para seus programas de doutorado. Ela também estava selecionada entre os 18 , de mais de 300 candidatos, para o programa de história na Universidade de Havard. Mas, em uma rara substituição de autoridade de um departamento para selecionar os seus candidatos, o alto escalão de Havard retirou a admissão de Jones, após alguns professores questionarem a minimização de seu crime em sua candidatura.

Elizabeth Hinton, uma das historiadoras de Harvard que apoiou Jones, a chamou de “uma das candidatas mais gabaritadas do país no ano passado”. O caso “traz alívio”, e ela adiciona: “o quanto nós realmente acreditamos na possibilidade da redenção humana?”

O The Marshall Project , uma agência de notícias sem fins lucrativos, especializada em justiça criminal, obteve acesso aos emails e memorandos relacionados a candidatura de Jones e entrevistou oito professores e administradores envolvidos na revisão.

Enquanto os principais oficiais de Havard tipicamente tomam as decisões das admissões dos departamentos, nesse caso, a liderança da universidade - incluindo a presidente, o reitor e os diretores da pós-graduação - a reverteram. De acordo com os e-mails e entrevistas, a decisão foi tomada por preocupação que seus antecedentes pudessem causar uma reação entre os candidatos não aceitos, os meios de comunicação conservadores e os pais dos alunos.

O diretor de admissões da Escola de Artes e Ciências de Pós- Graduação de Havard , não quis ser entrevistado e a porta-voz da universidade, não respondeu a oito questões sobre caso, dizendo que “como uma política, não comentamos os candidatos individuais”.A porta-voz ainda declarou que a escola de pós-graduação “está empenhada em recrutar e matricular estudantes de todas as origens” e “se esforça para criar um ambiente inclusivo e de apoio onde todos os alunos possam prosperar”.

Harvard, de fato, abriu espaço para uma grande variedade de vozes em seu campus nos últimos anos, incluindo ex detentos. Drew Faust, uma historiadora que está deixando o cargo de presidenta de Harvard em Junho, depois de uma década, expandiu o alcance global e ajuda financeira, além de contratar diversos professores que ampliaram a perspectivas sobre a reforma prisional e cultura negra.

Desse modo, os membros da equipe de Havard e dos departamentos de estudos Americanos fizeram a inscrição de Jones no sistema on-line de universidade, uma vez que ela não podia. Mas, depois que o departamento de história a aceitou e o o programa de estudos Americanos a considerou como uma das melhores candidatas, dois professores questionaram o diretor de admissões da Escola de Pós-Graduação em Artes e Ciências.

Em um memorando para os administradores da universidade, os professores disseram que o diretor de admissões havia dito a eles que a candidatura de Jones seria revisada pelo presidente e o reitor, e questionaram se ela minimizou seu crime “até o ponto de o descaracterizar”.

“Nós não tivemos uma idéia preconcebida de crucificar Michelle”, disse John Stauffer, um dos professores. “Mas, honestamente, nós sabíamos que qualquer um poderia achar seu crime no Google, e na Fox News provavelmente diriam que Havard deu 200 mil dólares de financiamento a uma assassina de crianças, que também passou a ser minoria. Ah, por favor”.

Jones, ficou grávida ao 14 anos, depois do que ela chamou de sexo não consensual , com um aluno do ensino médio. Sua mãe reagiu à batendo no estômago com um quadro, de acordo com o promotor que mais tarde tratou do seu caso, ela ainda foi colocada em diversos alojamentos infanto-juvenis e famílias adotivas.

Em uma declaração pessoal que acompanha a sua candidatura, Jones disse que sofreu uma quebra psicológica, após anos de abandono e violência doméstica, e deu um tratamento semelhante ao seu próprio filho, Brandon Sims.

O garoto morreu em 1992, em circunstâncias que ainda não são claras e seu corpo nunca foi encontrado.

Dois anos depois, durante uma estadia em um centro de saúde mental, Jones, admitiu que o enterrou, sem notificar a polícia ou ao pai de Brandon e sua família. Em seu julgamento, um ex-amigo testemunhou que Jones confessou ter espancado Brandon e depois tê-lo deixado sozinho por dias em seu apartamento e, quando retornou, o encontrou morto em seu quarto.

Jones foi condenada a 50 anos de prisão, mas foi libertada depois de 20 anos, devido ao seu bom comportamento e nível educacional.

Em sua declaração a Havard, Jones escreveu sobre Brandon:”Eu tenho um compromisso comigo e com ele, que com o tempo que me resta, eu vou viver uma vida redimida, valorizando e a serviço dos outros”.

O pai e a avó de Brandon não puderam ser contatados para comentar.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Onde Estamos

Endereços e Contatos
18-80. Jd Nasralla - Cep: 17012-140
Bauru - São Paulo
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos