Encontro aproxima empresários brasileiros e americanos na cidade de São Paulo e faz parte do programa Inova Capital, Programa de Apoio a Empreendedores afro-brasileiros.

Texto / Pedro Borges
Foto / Nego Júnior

“O Ecossistema para a Promoção do Crescimento de Negócios de Alto Impacto Social, Conexão Brasil e Estados Unidos” é tema de encontro organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O evento acontece nesta quarta-feira, 17 de Maio, no auditório Itaú BBA, Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3400, e os interessados podem acompanhar a transmissão ao vivo aqui.

O encontro visa discutir as oportunidades de investimento em negócios de impacto no Brasil, os mecanismos de apoio ao crescimento de pequenos negócios, as perspectivas de fundos de investimentos em comunidades menos favorecidas e os instrumentos para fomentar oportunidades de investimento.

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Luana Garcia, Especialista em Desenvolvimento Social da Divisão de Gênero e Diversidade do BID, idealizadora do Inova Capital, e uma das organizadoras da atividade concedeu entrevista exclusiva para o Alma Preta.

Para ela, o Banco Interamericano de Desenvolvimento tem estimulado seus investidores a conhecerem afroempreendimentos por conta do impacto social e do potencial transformador desses negócios. “Os empresários afrodescendentes, em geral, estão mais familiarizados com os problemas centrais de zonas mais vulneráveis das cidades, suas circunstâncias e seus mercados. Se englobados de maneira efetiva, eles têm o potencial de impactar social e economicamente comunidades desatendidas através da geração de novos empregos”.

Exemplo da proposta do BID de incentivar o investimento em iniciativas geridas por negros foi o compromisso de US $ 25 milhões que a Fundação Kellogg assumiu com o Fundo Baobá. Luana também recorda que, entre 2012 e 2014, o Banco Interamericano de Desenvolvimento investiu em mais de 240 projetos voltados para os povos indígenas e as comunidades afrodescendentes, valores que somados chegam aos US$3,9 bilhões.

Uma das razões para esses investimentos é o grande potencial econômico dos afrodescendentes no Brasil. Pretos e pardos compõem um grupo com 68 milhões de consumidores e 11 milhões de empreendedores. Só nos últimos 10 anos, a escolaridade e o rendimento mensal dos afro-empreendedores cresceram 41% e 70% respectivamente, comparados a 17% e 37% entre outros empreendedores.

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Luana Marques Garcia, especialista em Desenvolvimento Social da Divisão de Gênero e Diversidade do BID. (Créditos: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) |  Inova Capital - Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros/Nego Júnior).

Mesmo com esses números expressivos, o racismo potencializa as dificuldades enfrentadas por novos empreendedores, como o acesso ao financiamento, às redes empresariais e às oportunidades de formação. “Os empreendedores afrodescendentes muitas vezes enfrentam barreiras adicionais em decorrência de arranjos discriminatórios históricos”, explica Luana.

Apesar desses obstáculos, a soma das iniciativas do BID com os avanços da comunidade negra e com a possibilidade de reunir investidores americanos e brasileiros cria uma grande expectativa sobre o encontro, segundo Luana. “Trata-se de um evento inédito, de alto nível, e uma primeira iniciativa em prol da construção de pontes entre os investidores dos Estados Unidos e do Brasil. Pretendemos atrair para essa reflexão instituições financeiras e investidores interessados em apoiar negócios que promovam impacto social e ambiental”.

O evento tem o apoio do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e faz parte do Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros, iniciado pelo BID em 2015. O objetivo do projeto é identificar afro-empreendedores inovadores e negócios com impacto social.

Confira a entrevista na íntegra.

Quais obstáculos enfrentam os afro-empreendedores no mundo e em especial no Brasil?

O acesso ao financiamento, às redes empresariais e às oportunidades de formação e assessoria para que os empreendedores possam melhorar suas capacidades para gerir um negócio sem dúvida persistem como importantes barreiras ao crescimento de todas empresas. Contudo, os empreendedores afrodescendentes muitas vezes enfrentam barreiras adicionais em decorrência de arranjos discriminatórios históricos.

Em um momento de fortalecimento da identidade negra, qual o potencial econômico dos afroempreendedores no Brasil?

O potencial econômico é surpreendente. No Brasil, os afrodescendentes representam 68 milhões de consumidores e 11 milhões de empreendedores. Nos últimos 10 anos, a escolaridade e o rendimento mensal dos afro-empreendedores cresceram 41% e 70% respectivamente, comparados a 17% e 37% entre outros empreendedores. Além disso, os afrodescendentes representam 52% dos empreendedores, mas somente 29% dos empregadores.

As empresas de afrodescendentes são importantes para a sustentabilidade do desenvolvimento econômico e social. Investir em afro-empreendedores oferece aos investidores uma opção de diversificação da carteira de investimentos com retorno econômico e impacto social.

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Equipe participante do projeto Inova Capital, organizado pelo BID. (Créditos: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) |  Inova Capital - Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros/Nego Júnior).

Qual retorno econômico para o país a comunidade negra pode oferecer se for englobada de maneira mais efetiva no mercado?

O BID acredita na potencialidade econômica e social dos empreendimentos afro-brasileiros e estimula os investidores a diversificar, olhando para esses negócios como possíveis investimentos com retorno econômico e impacto social. Os empresários afrodescendentes, em geral, estão mais familiarizados com os problemas centrais de zonas mais vulneráveis das cidades, suas circunstâncias e seus mercados. Se englobados de maneira efetiva, eles têm o potencial de impactar social e economicamente comunidades desatendidas através da geração de novos empregos, aumento da produtividade e do crescimento inclusivo e sustentável.

O Inova Capital está dando visibilidade aos negócios de 30 afroempreendedores (www.inovacapital.net.br), provendo uma assessoria empresarial, mentoria e coaching de qualidade e aproximando esses empreendedores aos investidores. Falta ainda muito mais por fazer, pois o número imenso de empreendedores com alto potencial empreendedor e boas ideias ainda carece de oportunidades e os investidores desconhecem o mercado consumidor afro.

No site da Inova Capital, vocês escrevem que as grandes corporações e as agências governamentais têm um compromisso significativo com o segmento afrodescendente. Por quê?

Nos últimos anos, o governo brasileiro tem implementado uma série de políticas para a promoção da igualdade racial. O dividendo social com respeito aos afrodescendentes (que seria o atraso nas condições de vida da população negra em comparação aos demais) já é visto como um custo social e econômico e algumas políticas públicas implementadas começam a dar frutos.

Os negros no Brasil já entram nas universidades a uma taxa mais alta que os demais grupos demográficos e a nova classe media está composta em sua grande maioria por afrodescendentes. As grandes corporações, fundações e filantropos estão renovando seu compromisso de estimular empreendedores em todos os campos, nas comunidades afrodescendentes, bem como seus negócios.

Por exemplo, a Fundação Kellogg assumiu um compromisso de US $ 25 milhões para o Fundo Baobá, e entre 2012 e 2014, o Banco Interamericano de Desenvolvimento investiu em mais de 240 projetos que promovem o desenvolvimento com identidade dos povos indígenas e comunidades afrodescendentes, os quais somam aproximadamente US$3,9 bilhões.

O Inova também afirma existir um amplo capital social de investimento de impacto disponível para financiar empresas inovadoras. Que capital é esse?

No nível mundial, ao contrário de 20 anos atrás, um amplo capital (social impact investing) está agora disponível para financiar empresas inovadoras neste espaço. Por exemplo, A Global Impact Investing Network (GIIN) tem conduzido pesquisas anuais rigorosas da crescente comunidade de investidores de impacto e seu ultimo relatório de tendências mostra que os ativos de impacto social cresceram de US$ 25,4 bilhões para 35,5 bilhões entre 2013 e 2015.

No Brasil, um estudo da Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), rede global de organizações que incentivam o empreendedorismo nos mercados emergentes, revela um significativo crescimento do mercado de impacto social, com cada vez mais gestores de fundos, bancos, fundações, empresas familiares esperando dedicar mais capital ao investimento de impacto.

Como funciona o possível investimento do BID de 500 mil dólares até o final de 2017? Quantos projetos serão agraciados com o recurso?

Não é o escopo de trabalho do BID fazer este investimento de capital direto nas empresas, mas lembro que estamos investindo meio milhão de dólares no Inova Capital, programa que beneficia não só os empreendedores desta primeira edição, mas indiretamente todo o empreendedorismo afro-brasileiro, colocando-o em evidência e criando um modelo de apoio que pode e deve ser escalado.

Qual a expectativa para o evento? O que os afro-empreendedores podem esperar?

Trata-se de um evento inédito, de alto nível, e uma primeira iniciativa em prol da construção de pontes entre os investidores dos Estados Unidos e do Brasil, por meio do qual abordaremos questões como oportunidades para investimentos de impacto; ambiente para a construção de mecanismos de apoio ao crescimento de pequenos negócios; perspectivas de fundos de investimento focados em comunidades menos favorecidas; e instrumentos para fomentar oportunidades de investimentos. Além disso, pretendemos atrair para essa reflexão instituições financeiras e investidores interessados em apoiar negócios que promovam impacto social e ambiental.

Quando terá início a próxima edição do programa, como participar? Quais são os requisitos?

Ainda não temos data prevista para a próxima versão, mas estamos confiantes de que o investimento do BID demonstrou ao mercado que efetivamente existem empreendedores afro-brasileiros de alto potencial.

Para a próxima edição, deveremos manter os mesmos requisitos e critérios para a participação dos empreendedores: ideias inovadoras, negócios de alto potencial de crescimento e com impacto social e ambiental.

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