A ativista Stephanie Ribeiro, em entrevista ao Alma Preta, afirma que as escolhas afetivas das pessoas são influenciadas por gênero, raça e classe. A pesquisadora organiza no dia 18 de Março, sábado, curso sobre a solidão da mulher negra.

No dia 18 de março, sábado, das 14h às 18h, Stephanie Ribeiro coordena curso sobre a solidão da mulher negra. A formação, organizada em conjunto do Coletivo Dijejê, acontece no Aparelha Luzia, Rua Apa, 78, centro. As inscrições podem ser feitas aqui.

O Alma Preta entrevistou Stephanie Ribeiro sobre o tema. A pesquisadora e ativista apresentou algumas das nuancês deste problema brasileiro e de muitos países da diáspora africana.

Porque é importante estudar a solidão da mulher negra?

Acho que não é apenas uma questão de estudar, mas sim de falar sobre esse tema. Vamos discutir o que se entende como solidão da mulher negra e as escolhas afetivas como algo social e não o amor como sentimento que não perpassa por questões raciais, de gênero e classe.

Tudo que envolve o campo afetivo é sempre um tabu para mulheres negras. É preciso falar abertamente sobre o tema e entender o que já foi escrito, falado e transformado em estatísticas para compreender o que nos leva, enquanto negras, a perceber nas nossas histórias e de nossas famílias a existência da solidão como algo imposto. É preciso entender também que a solidão pode ser vivenciada até mesmo dentro de relações afetivas.

A escritora, intelectual e ativista bell hooks elucida o tema em Vivendo de Amor: “Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.”

O curso é para falarmos de amor, afeto, abandono, padrões de beleza e feminilidade, família, e discutir as questões afetivas que nos afetam ainda num campo físico e psicológico. É a oportunidade para discutirmos também as masculinidades, entendidas como de “menor relevância” no debate racial.

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Como você avalia a iniciativa do Coletivo Dijejê de criar o primeiro curso sobre o assunto no país?

Acredito que é importante discutir as questões afetivas de maneira pessoal e coletiva, em especial nesse rico espaço criado para debater questões de e para mulheres negras.

Hoje vejo a popularização desse debate nas redes sociais, mas poder falar sobre isso com outras mulheres fisicamente e poder escutar suas impressões sobre o assunto é de um ganho enorme.

Como o racismo e o machismo influenciam a efetividade de mulheres negras?

A mulher negra tem uma construção de feminilidade e mulheridade distinta da mulher branca numa estrutura machista e racista. Seu lugar sempre foi o da mão de obra explorada escravizada ou da mão de obra explorada no trabalho marginalizado.

A construção distinta e o olhar social em cima de nós é diferente e impacta na nossa vida afetiva. Exemplo acontece quando se é naturaliza a concepção de que somos fortes e que somos menos humanas que mulheres brancas. É fato que as nossas relações afetivas amorosas e familiares são impactadas por esse olhar desumanizador e único que não respeita nossas subjetividades e nossos desejos.
Existe em paralelo todo um processo de valorização da figura da mulher branca como padrão de beleza. Não é possível descartar também o mito da democracia racial, que mesmo não existindo para negros, se pauta na miscigenação e nas relações inter raciais como suposta prova que o racismo não existe.

A ideia de solidão da mulher negra remonta que período da história brasileira e mundial? Quando o conceito foi descrito e criado?

A discussão racial em cima do que se entende como amor já existe há anos nos movimentos negros. Atualmente a força das redes sociais fez a discussão ganhar força no Brasil, até porque o próprio feminismo negro hoje está muito mais difundido.

Lélia Gonzalez em Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira pauta as distinções em relação à identificação das mulheres negras na sociedade: mulata, doméstica, mãe preta. Quando falamos de solidão afetiva, eu entendo ela como consequência desses estigmas. Assim que mulheres negras passaram a falar sobre si e suas questões de gênero e raça, seja em suas produções ou em eventos como o Encontro Nacional de Mulheres Negras no começo da década de 80, é fato que mulheres negras passaram a produzir material e discursos que hoje nos possibilitam falar amplamente da questão afetiva. A própria Lélia neste artigo aborda o tema da sexualidade e o modo como a mulher negra é vista e tratada pela branquitude:

“Não faz muito tempo que a gente estava conversando com outras mulheres, num papo sobre a situação da mulher no Brasil. Foi aí que uma delas contou uma história muito reveladora, que complementa o que a gente já sabe sobre a vida sexual da rapaziada branca até não faz muito: iniciação e prática com as crioulas. É aí que entra a história que foi contada prá gente (brigada, Ione). Quando chegava na hora do casamento com a pura, frágil e inocente virgem branca, na hora da tal noite de núpcias, a rapaziada simplesmente brochava. Já imaginaram o vexame? E onde é que estava o remédio providencial que permitia a consumação das bodas? Bastava o nubente cheirar uma roupa de crioula que tivesse sido usada, para “logo apresentar os documentos”. E a gente ficou pensando nessa prática, tão comum nos intramuros da casa grande, da utilização desse santo remédio chamado catinga de crioula (depois deslocado para o cheiro de corpo ou simplesmente cc ). E fica fácil entender quando xingam a gente de negra suja, né?”

Mulheres negras, já falando sobre as subjetividades no campo afetivo no contexto nacional, acompanham o debate que vem sendo feito por outras negras em países da diáspora como Londres e Estados Unidos.

A maior participação de mulheres negras em posições de visibilidade política tem possibilitado uma discussão mais ampla e profunda sobre a solidão da mulher negra. Quais os impactos sociais de mais mulheres negras atuarem na política brasileira e em especial em assuntos como afetividade?

Acredito que mulheres, ao questionarem padrões afetivos, questionam a ideia de amor romântico, assim como o racismo embutido nas construções afetivas e passam a ver afeto, amor e padrões estéticos. Então para mim questionar essas premissas é caminhar para uma vivência plena nas relações afetivas.

A naturalização do abuso se dá numa sociedade que entende que não precisamos discutir afetividade, pois isso não é uma questão de foro coletivo e sim íntimo. Não, ao falarmos publicamente, identificamos padrões e conseguimos traçar formas de atuar e extinguir determinadas realidades.

Porém, como o brasileiro lida com o racismo de uma forma rasa, não está preparado para lidar com o fato de que o amor não supera o racismo, como colocam de forma simplista, e que relações inter raciais não representam o fim do racismo. Muitas vezes elas podem ser consequências da visão racista da sociedade sobre determinados corpos que são vistos dentro da questão racial e de gênero como de “categoria inferior”.

Qual bibliografia será utilizada no curso? O que as inscritas podem esperar da atividade?

Vou usar vídeos, filmes, depoimentos, artigos produzidos na academia e fora dela. A ideia é informar de formas diversas sobre assuntos que dizem respeito a mulheres negras e, portanto, a toda sociedade.

É preciso embasar o debate com estudos como o de Claudete Alves, Ana Cláudia Lemos Pacheco, Djamila Ribeiro, bell hooks, Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, Cecile Emeke, Edith Piza, canal For Harriet e o blog InteLexual Media.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

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