Para além dos Panteras Negras: Angela Davis é uma das intelectuais e pesquisadoras mais importantes quando o assunto é racismo. Especialista em sua obra, a mestra Jaqueline Conceição falou ao Alma Preta sobre a teoria da norte americana.

Texto:
Solon Neto

Ilustração: Vinicius Martins

É noite na Suazilândia, país cujas fronteiras se dão com a África do Sul e Moçambique. O local é parte do roteiro do Johannesburg Workshop in Theory and Criticism (JWTC), evento que reúne professores, téoricos, estudantes e ativistas para discutir racismo. Após um dia exaustivo de visitas e debates, pouco antes dos jovens participantes do evento anti-racismo irem dormir, a organização pediu ajuda para carregar malas até o ônibus às 5h, pois sairiam às 6h. Como ninguém se dispôs, a ajuda ficou voluntária. No dia seguinte, durante a viagem, dezenas de presentes ouvem a organizadora chamar atenção e pedir palmas para os carregadores de malas voluntários. "Levanta um, dois, três, e quem levanta? Angela Davis! 70 anos!", recorda Roberta Estrela D'Alva, uma das viajantes do ônibus. A atriz-MC e apresentadora do programa "Manos e Minas", da TV Cultura, ficou impressionada com a atitude da intelectual: "Ela é por causa das ideias também, sabe? Mas ela é o que ela fala! Ela tem 70 anos, podia ter usado isso, mas levantou às 5h da manhã e foi carregar as malas", conta Roberta, que cansada, preferiu dormir até mais tarde naquela noite de 2014.

Roberta descreve o que na academia costuma ser relacionado ao intelectual orgânico, o intelectual que surge do povo e mantém seus laços e compromissos políticos ligados ao grupo social de origem. Angela Davis tem uma trajetória marcante na universidade. No evento citado acima, por exemplo, ela palestrou ao lado de alguns dos pesquisadores e pesquisadoras mais importantes do mundo, como Achille Mbembe e Françoise Vergés. Davis tem livros e obras discutidas e importantes, como é o caso de "Mulher, Raça e Classe", que traz uma abordagem interseccional para a teoria crítica e recentemente foi reeditado no Brasil pela Boitempo. Além, claro, da conhecida atuação como militante social.

Essa atuação, no entanto, costuma ofuscar a contribuição de seu pensamento. É o que aponta Jaqueline Conceição, mestra pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), especialista no pensamento da norte-americana. Apesar da extensa produção intelectual e de sua atuação como professora universitária, Angela, segundo Jaqueline, costuma ser lembrada apenas como militante. Para Jaqueline, isso pode caracterizar uma forma de racismo em um contexto amplo, ao "reforçar a não humanidade do indivíduo negro", pois o espaço da militância estaria mais próximo das paixões e não da racionalidade, algo descolado do imaginário construído em volta dos negros.

O Alma Preta conversou com Jaqueline Conceição sobre esses e outros assuntos. Jaque Conceição é pedagoga, mestra em Educação, História, Política e Sociedade pela PUC-SP, e trabalha com o pensamento de Angela Davis na discussão da "Teoria Crítica da Sociedade". Jaqueline lidera o Coletivo Di JeJê, e coordena o curso "O Pensamento de Angela Davis", cujas inscrições, ainda abertas, podem ser feitas aqui.

A entrevista completa pode ser lida abaixo.

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Por que é importante lembrar a Angela Davis como Intelectual, não só a militante?

O processo de desumanização no qual o indivíduo negro é constantemente submetido busca reduzir suas ações ao campo dos instintos, portanto marcado pelas pulsões. A intelectualidade é um campo marcadamente racional, ao passo que a militância é movida pela paixão do militante, embora Gramsci desmistifique isso. No caso da Davis, sobrepôr sua militância, portanto, suas pulsões à sua intelectualidade, é uma forma de reforçar a não humanidade do individuo negro. Em outras palavras, é uma faceta do racismo. Veja, em nenhum dos materiais da Boitempo, durante o lançamento de "Mulher, Raça e Classe", foi citado o fato de Davis ser professora doutora titular e emérita da UCLA [University of California, Los Angeles], apenas a identificam como ex-militante dos Panteras Negras, o que não é verdade, e ela mesma conta essa história no documentário Libertem Angela Davis.

Angela Davis nasceu e cresceu nos Estados Unidos, convivendo com segregação social e racismo. Como o pensamento dela pode ser relacionado com a realidade brasileira?

A Davis conviveu muito pouco com a segregação. Ainda muito jovem foi para o norte, onde as relações raciais se davam de outro modo. De qualquer maneira, seu pensamento é importante para “escurecer” nossas discussões raciais, pois ela é uma filósofa da modernidade que racializa a discussão da filosofia sobre os problemas da humanidade. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que tanto seu método de análise da realidade, quanto as suas conclusões partem da experiência real de uma mulher negra, num diálogo profundo com o pensamento da filosofia moderna.

Em um de seus artigos publicados você traz a cisão entre civilização e cultura. Como a questão racial e de gênero se inserem nessa discussão?

Para nós, teóricos críticos, a cisão entre civilização e cultura expressa a barbárie impressa na violência, na racionalidade ditada pela tecnologia, pela paralisação ou até mesmo aniquilamento da consciência de classe. Isso significa que tudo aquilo que não expressar a racionalidade, portanto aquilo que se diz por civilizado, localiza-se como algo que deve ser dominado e moldado, como a cultura fabricada na modernidade (cultura enquanto produto forjado, não como resultado da interação humana). Historicamente, os indivíduos socialmente lidos como feminino e como negros (lembrando que ambos conceitos também foram elaborados e aprofundados a partir da modernidade), são colocados no campo da irracionalidade. A sensibilidade feminina e a pulsividade dos negros exigem que sejam controlados como a natureza, e que seus comportamentos sejam produzidos pela cultura. O tempo todo são criados e legitimados mecanismos de controle e administração desses indivíduos pela cultura, reforçando suas subalternidades e portanto, legados ao campo daquilo que precisa ser permanentemente controlado e vigiado.

Nesse contexto, o que significa, para a população negra, conquistar a liberdade?

Significa emancipar-se da condição de barbárie conformada pelo racismo. Racismo esse criado, alimentado e mantido de pé, através dos mecanismos de controle da burguesia e da branquitude. É romper com a noção de ser negro imposta pela burguesia através do controle e da administração, impressa na cultura industrializada e vendida cotidianamente, através do discurso da representatividade, da igualdade e da inclusão. Inclusão para quem? O menino friamente assassinado pela rede de restaurantes não pode gozar da inclusão que talvez o filho ou até mesmo algum artista global goze. Ao fim, o sistema capitalista não foi feito para incluir, talvez representar, uma vez que representar implica escolher um ou dois que vai legitimar o lugar de milhões e milhões. Para nós negros, liberdade é romper com paradigmas e construir nossas perspectivas, a partir de nossas experiências ancestrais e coletivas.

Para Davis, qual a relação entre o sistema escravocrata e o capitalismo?

A escravidão foi a base material para a efetivação dos processos revolucionários que levaram a consolidação do capitalismo. No entanto, nosso maior problema nos dias de hoje não é a escravidão, porque essa, enquanto instituição, foi superada, ao menos nos EUA e no Brasil. Nosso problema é o legado da escravidão e o quanto o capitalismo se alimenta e se mantém a partir desse legado.

Como a unidimensionalidade dupla, ou o etos branco e burguês, se manifestam no cotidiano da população negra, segundo Angela Davis?

Para responder a essa pergunta é preciso primeiro explicar o que é unidimensionalidade. Unidimensionalidade é uma categoria de análise da realidade, elaborado por Herbert Marcuse, em seu livro O Homem Unidimensional. Com essa categoria ele pretende analisar os processos de paralisia da crítica social, em que os trabalhadores norte-americanos estavam submetidos. Ela nos diz que o acesso cada vez maior a bens de consumo, garantidos pelo avanço da tecnologia ou seja, produz-se cada vez mais, portanto, precisa que isso seja consumido, faz com que objetivamente a qualidade de vida  dos trabalhadores, ao menos de forma aparente, se eleve a tal ponto que eles comecem a considerar afirmativamente que vivem ou podem viver como os patrões, fazendo com que aquele abismo que existia entre trabalhadores e patrões no auge da revolução industrial caísse por terra, ao menos do ponto de vista externo, material. Ora, é na materialidade que forjamos nossa subjetividade. Pois bem, para Davis, o trabalhador negro também se vê próximo ao patrão, pois pode minimamente reproduzir seu modo de vida, numa escala menor, mas também pode andar de avião e ter até empregada doméstica. No entanto, enquanto negro, para que de fato a unidimensionalidade seja completa, ele também precisa reproduzir a consciência do indivíduo branco. Ou seja, por duas vezes sua consciência sofre uma paralisia: uma paralisia enquanto classe, pois não se diferencia do patrão e outra enquanto raça, pois não percebe as diferenças entre ele e o indivíduo branco. Essa dupla unidimensionalidade abre espaço para a legitimação do discurso da democracia racial, pois ela lima a tensão racial.

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Nesse contexto, como a mulher negra se difere?

A complexidade do processo de individuação dos negros é tão grande que, embora a mulher negra e o homem negro estejam jogados numa esfera chamada raça negra, o processo de formação do indivíduo negro, lido socialmente como feminino, é completamente diferente. Vamos dizer que esse indivíduo sofre um processo intenso de violação: ao invés de passar pelo processo de formação para o rompimento com a barbárie, o processo de formação é marcado pela barbárie. E esse processo violento de individuação das mulheres negras é resultado direto do racismo e começa na escravidão, continuando a partir de então.

Para Davis, a mulher negra vivencia a síntese das opressões nos países de história escravocrata como Brasil e Estados Unidos. Como ela define a importância do feminismo negro?

Não podemos dizer que ela afirma isso: a mulher negra vivencia a síntese das opressões. Mas, é assertivo dizer que ela sente com mais força o impacto das opressões que mantém o capitalismo funcionando. Aliás, as mulheres em qualquer sociedade são o exército de reserva do capital. Partindo desse pressuposto, e considerando que para Davis o feminismo negro nada mais é do que uma metodologia de análise da realidade e de enfrentamento, porque utiliza como paradigma a experiência histórica das mulheres negras, é possível afirmar que o feminismo negro é um importante instrumento de enfrentamento ao capitalismo, bem como ao racismo, machismo, homofobia e demais formas de expressão e exploração.

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