Raquel Barreto é pesquisadora do tema e doutoranda em História pela Universidade Fluminense Federal (UFF). Raquel é a primeira pessoa a se debruçar sobre a temática no doutorado no Brasil. Artigo publicado originalmente para o catálogo da exposição “Todo o Poder para o Povo! Emory Douglas e Panteras Negras” realizada no SESC- Pinheiros, 08 de março a 04 de junho de 2017.

Texto / Raquel Barreto
Imagem / Reprodução

Em 1969, durante o seu exílio nos Estados Unidos da América, Abdias do Nascimento – liderança histórica do movimento negro brasileiro – pintou um quadro com colagem intitulado Liberdade para Huey: Omulu Azul nº 3. Era a sua contribuição para a campanha de libertação de Huey P. Newton, principal líder do Partido dos Panteras Negras, preso sob acusação de assassinato de um policial.

O ator e cineasta negro Zózimo Bulbul lançou, em 1973, um curta-metragem intitulado Alma no olho, baseado em sua leitura de Alma no Exílio (Soul on Ice), de Eldrige Cleaver, ministro da Informação dos Panteras. O livro, lançado no Brasil em 1971, em plena ditadura militar, inspirou muitos militantes negros em um momento de repressão, quando o tema do racismo era considerado uma ameaça à segurança nacional brasileira. O curta, provocador e inovador, não chegou a ser exibido, pois foi impedido pela censura.

Em 2012, Racionais Mc’s, o grupo de rap mais importante do Brasil, gravou o videoclipe Mil Faces de um Homem Leal (parte da trilha sonora de um documentário sobre a trajetória de Carlos Marighella). Em uma cena do clipe todos os integrantes do grupo estão vestidos como “Panteras Negras” e fazem a conhecida saudação do poder negro.

Separados por 43 anos, os acontecimentos elucidam relações de identificações e circulações entre afro-brasileiros e Panteras, que têm sido referência política e simbólica na luta antirracista e na afirmação identitária negra no Brasil

Por aqui, a população negra, a maior da diáspora africana, tem um longo histórico de organização, resistências e lutas que data desde a chegada dos primeiros africanos convertidos em mercadorias e mão de obra escrava. As formas de luta e enfrentamento foram inúmeras e diversas: desde a mais antiga e emblemática, o Quilombo dos Palmares, no século 17, até o período pós-Abolição, a partir de 1888, e por todo o século 20, o protesto negro e a denúncia do racismo manifestam-se em forma de ação coletiva, resistência cultural, intervenção na imprensa e na sociedade civil, atuação intelectual na esfera pública e participação política em movimentos sociais e criação de um partido político.

O racismo no Brasil sempre conviveu com o mito da sua inexistência, reduzindo, em grande medida, as possibilidades de um debate aprofundado. Discussões desse tipo quase sempre são acusadas de ser “importadas”, baseadas na argumentação de que não há, por exemplo, uma legislação, como nos Estados Unidos, que tenha institucionalizado a segregação racial ou negado direitos sociais ou políticos aos afro-brasileiros.

O movimento negro contemporâneo entrou em cena na década de 1970, no período da ditadura militar no Brasil (1964-1985), que colocou na ilegalidade organizações e movimentos políticos. Nessa época, a própria questão racial era considerada subversiva, já que poderia levar ao ódio e a “desestabilização” da harmonia nacional.

O movimento negro também foi influenciado por experiências transnacionais, como a luta de libertação nacional dos países africanos e a luta dos negros nos EUA – que incluía o movimento pelos direitos civis, o nacionalismo negro e a soul music (como expressão de identidade negra), e protagonizou também a luta pelos direitos civis no Brasil. É o caso da sua participação no processo de redemocratização do país, e suas ações se fazem presentes na atual vida política e social brasileira, como foi a recente e bem-sucedida luta pela implementação da política de ações afirmativas nas universidades públicas e no funcionalismo público.

No imaginário dos órgãos de repressão da época, que “monitoravam” o movimento negro, existia o temor de que no Brasil ocorressem levantes raciais como nos EUA, na década de 1960, sobretudo que algo semelhante ao Partido dos Panteras Negras surgisse – situação análoga ao que ocorrera no século 19, quando as elites escravocratas brasileiras tiveram medo de que houvesse um levante negro inspirado na República do Haiti, a primeira do mundo realizada por ex-escravos negros.

Não se pode afirmar que o movimento negro brasileiro tenha inspirado ou influenciado os Panteras, mas podemos mencionar que um afro-brasileiro ficou conhecido entre os panteras: Carlos Marighella, uma das lideranças da resistência armada ao regime militar brasileiro. Seu MiniManual do Guerrilheiro Urbano foi traduzido para o inglês, provavelmente por volta de 1969, e lido por alguns membros do partido, que o tomaram como leitura necessária para casos extremos. A organização a que Marighella pertencia, a Aliança Libertadora Nacional (ALN), era conhecida internacionalmente.

Quatro dias após o assassinato de Marighela pela repressão, a edição do jornal dos Panteras de 8 de novembro de 1969 publicou, em sua sessão de notícias internacionais, o conhecido texto de Marighela intitulado “Chamamento ao Povo Brasileiro”, de 1968.

As identidades e experiências negras são locais e translocais. Alimentam-se tanto de referências políticas quanto estéticas que não obedecem às fronteiras dos estados nacionais. As geografias e comunidades de pertencimento podem ser imaginadas e constantemente alargadas. A história dos Panteras Negras não se encerra nos Estados Unidos. Compõe um capítulo importante nas lutas políticas transnacionais desenvolvidas por pessoas negras oprimidas em toda a diáspora em busca de liberdade, poder e autodeterminação. Por isso, permanece viva e presente.

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