Manifestação é articulada de maneira independente por ativistas do movimento negro e africanos residentes na cidade de São Paulo. Organizadores responsabilizam o governo italiano pela escravização de pessoas no norte da África

Texto / Pedro Borges
Imagem / Ahamed Jodallah (Reuters)

Protesto contra a escravidão de africanos na Líbia ocorre nesta sexta-feira, 12 de Janeiro, das 16h às 20h, em frente ao Consulado Geral da Itália, na Avenida Paulista, 1963. O ato é organizado de maneira independente, sem a articulação de entidades ou partidos políticos.

Os manifestantes convocam os negros brasileiros a participarem do protesto como forma de solidariedade aos crimes que ocorrem no norte do continente africano. Os articuladores do ato também incentivam a produção de cartazes com denúncias da venda de seres humanos na Líbia e com exigências ao Estado italiano.

No evento no Facebook, o protesto também é convocado em língua inglesa. O objetivo é o reunir o máximo de africanos da diáspora moderna em frente ao Consulado Geral da Itália e pedir o fim da barbárie na Líbia.

A queixa se volta ao governo italiano porque as medidas adotadas pelo país, como o financiamento da guarda costeira líbia, são apontadas como responsáveis por criar o terreno fértil para a atuação dos traficantes de pessoas.

O país fez um pacto com a Líbia para diminuir a entrada de imigrantes na Europa. Antes, quando as embarcações eram avistadas, a marinha italiana era acionada para resgatar os sujeitos, e, consequentemente, obrigada a levá-los à Europa, onde os salvos pediam asilo.

O governo italiano decidiu financiar a marinha costeira da Líbia para que ela fizesse esse resgate e devolvesse as pessoas ao continente africano. São esses sujeitos, em condições vulneráveis, vindos de regiões como a África Subsaariana, que ficam à mercê dos traficantes de seres humanos.

Dados comparativos entre Janeiro e Novembro de 2016 e 2017 mostram que houve uma redução na entrada de imigrantes. No ano passado, 114.606 fizeram essa travessia com sucesso, quantia 31,10% menor do que a contabilizada em 2016.

Essa volta aos milhares de pessoas em péssimas condições financeiras de diversos países do continente africano para a Líbia é o que tem possibilitado a ação de traficantes de seres humanos, que foram denunciados vendendo mulheres e homens negros em leilões ao céu aberto. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que estejam hoje na Líbia de 700 mil a 1 milhão de imigrantes.

A equipe de reportagem do Alma Preta entrou em contato com o Consulado Geral da Itália, e perguntou sobre como o governo italiano via o assunto, qual a responsabilidade do país, e quais medidas têm sido tomadas para frear a situação. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno do consulado.

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Primeiro ato realizado em São Paulo como forma de denúncia à escravidão na Líbia (Foto: Reprodução)

A escravidão de seres humanos na Líbia

O escândalo do mercado de seres humanos na Líbia ganhou força no mundo em 14 de Novembro de 2017, quando a reportagem da televisão norte-americana, CNN, mostrou a todos imigrantes africanos sendo vendidos na Líbia por valores que equivalem a R$ 2,5 mil.

De acordo com a TV dos EUA, naquele momento, havia leilão de pessoas em pelo menos nove cidades líbias. Nas gravações, as pessoas aparecem sendo leiloadas ao ar livre, e os vendedores se mostram a vontade, como se estivessem em uma feira.

"Alguém precisa de um escavador? Este é um escavador, um homem grande e forte", afirma um dos vendedores.

O crime já havia sido notificado em Abril pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas sem ter ganho repercussão mundial.

Hamidou Anne, analista do Think Thank África, afirma que essas informações já eram de conhecimento das autoridades.

“Com exceção do cidadão comum, todo mundo sabia, os governantes, as organizações internacionais, os líderes políticos”.

A visão é corroborada por Alioune Tine, diretor para a África ocidental e central na Anistia Internacional. “A tomada de reféns, a violência, a tortura, os estupros eram normais na Líbia, e da escravidão já se fala faz tempo”.

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Africanos residentes em São Paulo e ativistas do movimento negro denunciam escravidão na Líbia (Foto: Reprodução)

A Líbia nos dias de hoje

A situação também é reflexo da fragilidade econômica e social da Líbia, algo que remonta ao início da Primavera Árabe, em 2011, quando protestantes pediam a saída de Muamar Kadafi.

A repressão aos atos por parte do governo provocou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aproximação militar entre a Europa e os EUA, a atacar o país. Depois da invasão estrangeira, Kadafi, já enfraquecido, optou por fugir, foi pego por manifestantes e espancado até a morte.

Após a morte de Kadafi, o país entrou em profunda crise política. A nação hoje é governada por milícias, e o governo central de Tripoli dispõe de pouca infraestrutura para exercer seu poder.

Nesse contexto, as milícias ganharam força e hoje fazem a travessia de pessoas, que fogem de conflitos armados ou buscam melhores condições de vida. A distância via mar entre os dois países, Itália e Líbia, é de apenas 400 km.

A relação entre a Itália e a Líbia

Os subsídios dados pelo governo italiano ao líbio não vem de hoje. Desde a época de Muamar Kadafi, o então premiê Silvio Berlusconi já havia feito um pacto com o governo de Trípoli nesse sentido.

As relações entre os países, porém, se estreitaram nos últimos anos com o aumento da entrada de imigrantes africanos na Europa. Em Fevereiro de 2017, a Itália assinou um acordo oficial de 236 milhões de dólares com a Líbia para treinar e equipar a guarda costeira do país africano.

Tarek Shanbour, diretor do departamento de segurança costeira em Trípoli, afirmou em entrevista o recebimento de verbas do país europeu."Nós nos encontramos com os italianos hoje, e esperamos receber 200 milhões de euros (R$ 746 milhões), que distribuiremos de acordo com nossas necessidades".

O líder da principal milícia que atua no país, Ahmed Dabbashi, em entrevista ao “The Times”, mostrou que o esquema está para além da Itália. Ele disse que o governo de Trípoli, apoiado pela ONU, havia prometido barcos, veículos, salários em troca de cooperação. Esses investimentos do governo italiano e da ONU são feitos ao governo líbio, que os repassa para as milícias costeiras.

O Ministro das Relações Exteriores da Itália, Giro, negou o repasse de verba para as milícias, mas disse que há a possibilidade que ex-traficantes tenham recebido assistência por meio de verbas para hospitais e remédios.

Depois das denúncias virem à tona, o governo francês pediu uma reunião de emergência com o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

No dia 21 de Novembro, o Conselho aprovou medidas para conter o tráfico de pessoas e o trabalho escravo. A resolução exige mais investigação para acabar com as redes de venda de pessoas, e pede maior apoio aos imigrantes vítimas. A ONU também pediu maior cooperação entre os países e o uso de tecnologia para enfrentar essa atividade criminosa.

Outra reunião foi feita, no dia 29 de Novembro, entre a França, Níger, Chade, Marrocos, ONU, União Africana e União Europeia. O objetivo era pensar em medidas para minar a ação de traficantes de seres humanos.

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Ativistas conclamam pela participação da comunidade negra brasileira no ato (Foto: Reprodução)

Protestos

No dia 8 de Dezembro, cerca de 300 pessoas se reuniram na Praça da Sé em São Paulo para protestar contra a escravização de africanos na Líbia. Manifestações como essa ocorrem em outras partes do mundo.

Em Paris, cidade marcada por imigrantes africanos, um grande protesto reuniu cerca de mil pessoas no dia 18 de Novembro para exaltar a liberdade como um direito fundamental. O ato ocorreu em frente à embaixada da Líbia.

No dia 25 de Novembro, ato em Bruxelas reuniu centenas de pessoas e terminou com 50 delas detidas pela polícia. Os manifestantes também denunciavam a violência na Líbia.

As denúncias também deixaram jogadores de futebol por toda parte do mundo indignados. Atletas como Paul Pogba, camisa 10 da seleção francesa e um dos principais jogadores do Manchester United, e Cheik Doukouré, jogador do Levante e da seleção da Costa do Marfim, se pronunciaram contra a escravidão de sujeitos durante partidas oficiais.

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