Nigéria e África do Sul estão sob clima de tensão devido ao surgimento de ataques xenofóbicos na "nação arco-íris" contra nigerianos. A reputação de país tolerante conquistada após o fim do Apartheid estaria sob ameaça. O aumento do desemprego e da pobreza podem estar relacionados com o crescimento do discurso anti-imigração.

Texto: Solon Neto
Fotos: Reuter; Reprodução.
Edição de Imagens: Vinicius Martins

Ataques xenofóbicos contra nigerianos na África do Sul têm gerado um clima de tensão entre os dois países. Ao menos desde 2008 há registros de ataques do tipo. Um dos casos mais marcantes foi o do pastor cristão Samson Sangojimi, que foi atacado ao tentar defender sua igreja em Pretoria, capital sul-africana. A igreja foi atacada por protestantes que souberam que a igreja era nigeriana. Segundo informações do Financial Times, a companhia sul-africana de telefonia móvel, MTN, foi atacada na capital da Nigéria, Abuja, dias depois do ataque, em resposta ao ocorrido.

Nigéria e África do Sul são os países com as maiores economias do continente africano. A tensão entre os dois tem levantado preocupações em observadores internacionais, como a Anistia Internacional, que culpa o governo sul-africano por não agir corretamente em deter o avanço da xenofobia.

Samson Sangojinmi, pastor cristão cuja igreja nigeriana foi atacada na África do Sul Foto: Reuters

Após o Apartheid, a pujância da economia sul-africana tornou o país um destino para imigrantes dos países vizinhos que fugiam de regimes autoritários. No entanto, com a estagnação da economia e o aumento da pobreza na África do Sul, ataques a imigrantes têm sido registrados. Em 2008, mais de 60 pessoas foram mortas em ataques desse tipo, e em 2015, além de seis mortes, muitos tiveram que fugir de suas casas.

As razões são parecidas com as apontadas por analistas no avanço da xenofobia ao redor do mundo. Em um cenário de desaceleração da economia, os imigrantes são acusados de roubar empregos e cometer crimes.

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, chegou a declarar que o tamanho da imigração na África do Sul é maior do que a vista em países europeus. Dados de 2011 apontam que o país teria cerca 2,1 milhões de imigrantes, sendo que, segundo a União Nigeriana na África do Sul, há cerca de 800.000 nigerianos no país. A África do Sul tem cerca de 55 milhões de habitantes.

Nigéria poderia ter declarado guerra, mas prefere diálogo, segundo ministro nigeriano

Durante reunião com residentes nigerianos em Pretoria, na África do Sul, o ministro das relações exteriores da Nigéria, Geoffrey Onyeama, declarou que seu país poderia ter declarado guerra contra os sul-africanos. Ele teria dito que o governo prefere o diálogo, devido ao fato de a África do Sul não ter incentivado insititucionalmente qualquer conflito com os nigerianos.

Em tom conciliador, porém forte, segundo o site All Africa, Onyeama disse: “Quando essa questão veio à tona, nós avaliamos nossas opções, nós poderíamos ter declarado guerra contra a África do Sul, chamado nosso embaixador de volta, nacionalizado as empresas sul-africanas na Nigéria, poderíamos até ter chamado os nigerianos que estão na África do Sul de volta para casa, e também tínhamos a opção do diálogo”.

Geoffrey Onyeama, Ministro das Relações Exteriores da Nigéria, em encontro com John Kerry, nos EUA. Foto: Reprodução

Ele continuou sua declaração em tom conciliador, mantendo a chamada para o diálogo: “Mas optamos pela última opção, que é entrar no debate com eles e conseguir uma solução para o problema. Pode não ser a decisão correta, mas acreditamos que pode ser uma solução do tipo ganha-ganha. Eu não acredito que o governo da África do Sul é xenofóbico ou mesmo que a maioria dos sul-africanos seja, então creio que podemos chegar a uma situação em que os dois lados ganhem”, afirmou o ministro.

O presidente da África do Sul usou tom parecido em fevereiro ao afirmar que os sul africanos não são xenofóbicos e que as frustrações do povo são compreensíveis.

No mesmo dia em que o presidente deu essa declaração, em 24 de fevereiro, um grupo chamado "Mamelodi Concerned Residents" teria realizado uma marcha anti-imigração na capital sul africana, na qual mais de 130 pessoas foram presas devido a atos de violência. O porta-voz do grupo, Makgoka Lekganiane defendeu o ato, dizendo, ao Financial Times, que há muitos imigrantes ilegais e que eles atrapalham o comércio local, além de serem más influências pois muitos venderiam drogas para jovens. Quando questionado, ainda segundo o Financial Times, ele teria defendido seu grupo afirmando em referência aos imigrantes: “Essas pessoas estão destruindo meu povo. Como isso é Xenofóbico?”.

Os governos dos dois países lançaram um sistema de informação para prever e deter manifestações de xenofobia. Segundo a Al Jazeera, a ministra de relações exteriores da África do Sul encontrou-se com Geoffrey Onyeama em 13 de março, e declarou que o sistema iria ajudar a prevenir violência.

Em fevereiro, mais de 20 lojas estrangeiras foram atacadas na África do Sul, além de 12 ataques registrados à casas em Joanesburgo. O governo nigeriano pediu interferência da União Africana para impedir os ataques xenofóbicos. A Nigéria afirma que 20 nigerianos foram mortos na África do Sul em 2016. Já os sul-africanos se negaram a relacionar as mortes com xenofobia, dizendo que os crimes poderiam ter tido outras causas, além de que imigrantes de outros páises teriam sido atacados.

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